Polêmica 12/07/2019 23h39 Atualizado às 08h38

Clientes reclamam da parcialidade de informações sobre as criptomoedas

Santa-cruzenses, proprietários de criptomoedas, afirmam que não têm queixas quanto à postura da empresa Indeal

Um grupo de clientes da empresa Indeal, que operava na compra e na venda de criptomoedas em Novo Hamburgo, reclama da parcialidade de informações divulgadas desde o impedimento das operações da empresa, em 21 de maio. Alvo de investigação da Polícia Federal, desde que foi desencadeada uma operação por suspeita de pirâmide financeira, por isso nomenclaturada como Egypto, bens dos clientes – 23 mil pessoas ao todo, segundo os dados divulgados – seguem paralisados. Os santa-cruzenses acreditam que a desinformação sobre o caso possa ter levado ao bloqueio das operações da empresa, prejudicando todos os proprietários de criptomoedas que mantinham negócios com a Indeal.

Optando por manter nomes em sigilo, grupo formado por empresários e profissionais liberais de Santa Cruz não aceita estar com investimentos em moedas digitais parados. Conforme eles, desde que ocorreu a Operação Egypto, da Polícia Federal de Porto Alegre, estão sem ter acesso a informações sobre suas aplicações em criptomoedas.

O grupo procurou a Gazeta do Sul para esclarecer que entre os clientes da Indeal não havia insatisfação quanto às operações de compra e venda de moedas digitais, até o bloqueio das atividades, em maio. Em seu entender, um dos pontos da investigação – amplamente divulgado –, sobre a tipificação do suposto crime contra a economia popular, com a suspeita do uso de pirâmide financeira, não se sustenta.

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Vários fatores levam os clientes locais da Indeal a acreditar nesta afirmação. Um deles é ligado à legislação. Os representantes ouvidos pela reportagem cercaram-se de informação no caso. Uma vez que a negociação era feita com criptomoedas – em alguns países reconhecido como dinheiro eletrônico –, que ainda não têm regulamentação no Brasil, não poderia existir crime, pelo simples fato de a atividade não ser regulamentada, e não trazer dano aos terceiros envolvidos.

Outra justificativa estaria na forma como a empresa atuava. No início do ano, a partir de uma especulação sobre as negociações com criptomoeda, a Indeal, segundo seus clientes santa-cruzenses, fechou a admissão de novos compradores, durante o período de um mês, aproximadamente. Nesse tempo teriam sido realizados vários resgates de valores, por meio da venda de moedas por parte dos clientes, todos indenizados pela Indeal.

Esta ação, de acordo com o grupo, comprova que o suposto esquema de pirâmide financeira não existiria, uma vez que, para ser pirâmide, sem a entrada de novo capital, não haveria meios de realizar os pagamentos, além de não pagar comissionamento para os indicadores.

O grupo explica que a Indeal agia como um agente terceirizado na compra e na venda de criptomoedas. O cliente determinava quanto poderia investir e a empresa fazia a compra e a venda da moeda, de forma a favorecer o comprador, propondo uma majoração, que no último mês de operação foi de 9%. Quanto a essa rentabilidade, defendem que ela é uma das características do mercado digital.

No caso do Bitcoin, uma das criptomoedas mais conhecidas, ela obteve, segundo dados do mercado internacional, rentabilidade de 200% no período de janeiro a julho deste ano. Em valores da cotação na manhã desta sexta-feira, uma unidade da moeda valia cerca de R$ 44 mil.

A capacidade de oscilação – ora em alta, ora em baixa – das criptomoedas é outra peculiaridade do negócio. A alta permite que o cliente fature a partir da valorização. A baixa libera a compra de mais moedas, que, após, voltam a se valorizar, alimentando o sistema de possibilidade de ganho, que é mundial.

Estas oscilações, segundo eles, permitem o pagamento de ganhos de capitais bem acima de valores do mercado financeiro tradicional sobre os ativos criptográficos, que, ao serem vendidos, aumentam o volume de dinheiro do cliente, pois a atuação da Indeal seria na inteligência de comprar e vender criptomoeadas, de acordo com as oscilações de mercado, a partir do entendimento do funcionamento do mercado digital de criptoativos. Esta valorização, conforme eles, também permite o aumento de patrimônio de forma rápida para quem participa do mercado de criptomoedas.

Na interpretação dos clientes santa-cruzenses, o segredo de justiça, instituído pela investigação da Polícia Federal, seria outro entrave no processo. Por conta disso, conforme o grupo, não é possível uma manifestação oficial da Indeal, pois todos os cinco sócios estão detidos, desde o mês de maio, quando foi desencadeada a operação. O grupo reforça que não houve uma manifestação oficial dos sócios, nem mesmo por meio de seus advogados, devido ao sigilo do caso. Os clientes estão apreensivos, porém o histórico da empresa os faz aguardar o desfecho do atual processo, que ainda espera a pronúncia do Ministério Público.

SAIBA MAIS

- Atualmente existem 2.632 criptomoedas no mundo. Estas moedas digitais foram criadas, originalmente, para negociar serviços, em qualquer parte do mundo, com a facilidade de operação, que é digital e sem a necessidade de plataformas físicas, como os bancos convencionais.

- As transferências de criptomoedas são instantâneas, a partir de telefones celulares, por exemplo. Elas são reconhecidas como moeda, ou seja, dinheiro, pois atendem aos quatro requisitos básicos que caracterizam uma moeda: a capacidade de divisibilidade, a presença de pelo menos oito casas decimais com algarismos, a portabilidade e a escassez real são os atributos de uma moeda física, como o Real, do Brasil, e são as mesmas características das criptomoedas.

-  Na última sexta-feira, o valor acumulado de negociações com Bitcoins chegava a US$ 319 bilhões, dos quais US$ 82 bilhões negociados em apenas um dia.