Desabafo 12/08/2019 23h46 Atualizado às 09h58

'Prender ajuda, mas ele tinha que pagar pelo que fez', diz mãe de Francine um ano após a morte

Localização do corpo ocorreu em 13 de agosto de 2018. Justiça aguarda laudo de exame psiquiátrico feito no acusado

Há um ano que o dia 12, a cada mês, deixou de ser uma data qualquer para a costureira Eronilda Machado. Foi em 12 de agosto de 2018, um domingo de Dia dos Pais, que ela viu a filha Francine Rocha Ribeiro pela última vez, antes de a jovem ser estuprada, espancada e estrangulada até a morte.

O acusado de assassinar a jovem, Jair Menezes Rosa, foi preso 11 dias após o crime e aguarda um laudo do Instituto Psiquiátrico Forense (IPF) para saber se continuará no presídio ou irá para um manicômio judiciário. Para Eronilda, saber que o homem que matou sua filha está preso traz certo alívio, mas não é suficiente para aplacar a dor.

“Prender ajuda, mas ele tinha que pagar pelo que fez. Ele tirou a vida de uma menina que tinha a vida pela frente e vai ficar lá numa boa”, comenta. Ao falar de Francine, Eronilda deixa as lágrimas escaparem a todo momento. Tão difícil quanto segurar o choro, no entanto, é tentar elencar a coisa de que mais sente falta na filha. “Eu sinto falta de tudo. Ela era muito carinhosa”, tenta descrever.

No último dia 2 de maio, Francine teria feito 25 anos com a irmã gêmea Francielle, uma data que, no ano passado, foi comemorada com uma festa. Na época, a mãe não entendia por que a filha fazia tanta questão da comemoração, mas hoje olha para o episódio com outros olhos. “A gente começa a pensar nas coisas, e parecia que ela sabia que precisava estar com quem gostava naquele momento”, conta.

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Além das filhas, Eronilda também faz aniversário em maio, o que sempre tornou o mês, em que também se celebra o Dia das Mães, ainda mais especial. “No ano passado, a Francine me deu uma almofada de Dias das Mães e aquele vasinho de flor (e aponta para a estante) de aniversário. Eu olho para essas coisas todos os dias e me lembro dela.”

As lembranças de Francine aparecem em muitos outros detalhes da casa da mãe. Nos porta-retratos, em presentes e objetos que ficaram para trás. “Todos os dias depois que eu acordo, arrumo a cama e coloco a toalhinha, que ela mantinha consigo para dormir, em cima do cachorrinho de pelúcia que era dela também. Nunca lavei essa toalha”, revela.

Foto: Banco de ImagensFrancine Rocha Ribeiro tinha 24 anos
Francine Rocha Ribeiro tinha 24 anos

 

Com um neto de um mês e um novo companheiro, que hoje tornam os seus dias um pouco mais alegres, Eronilda espera que o tempo amenize o sofrimento. “Eu penso nela todos os dias. Em datas como o dia 12 de todos os meses ou nos aniversários é ainda pior. Às vezes parece que está passando, mas qualquer detalhe, como as coisas que ela gostava de comer, traz tudo de volta.”

Nesse domingo, uma missa marcando o primeiro ano de falecimento da jovem foi celebrada na Igreja Católica de Vera Cruz. Depois, Eronilda visitou a gaveta da filha no cemitério e levou flores, como costuma fazer pelo menos uma vez por mês. “Chegamos a pensar em fazer uma nova caminhada, ainda tenho a faixa que usamos no ano passado. Mas eu e Francielle achamos que era melhor deixar para lá. Está na hora da Francine descansar.”

A segurança no lago

Logo após o crime, ocorrido nas imediações do Lago Dourado, a Guarda Municipal reforçou as rondas periódicas no local. Em janeiro, o lago foi fechado para o início da construção do complexo turístico que será instalado no entorno do espelho d’água. Assim, as rondas deixaram de ser necessárias. Conforme o secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão de Santa Cruz, Jeferson Gerhardt, quando o lago for reaberto, contará com mais câmeras de segurança, iluminação em todo o entorno e sede da Guarda.

“Quero lembrar da minha filha do jeitinho que ela era”

Sobre o suspeito de matar a filha, Eronilda diz que não sabe o que pensar. Às vezes, chega a acreditar que alguém teria mandado o acusado cometer o crime. Em outras, acredita que Jair Menezes Rosa realmente tenha problemas mentais. “A gente fica sem saber. Não sei quem iria querer fazer isso com a minha filha. A gente sabe que, às vezes, quem tem problemas mentais faz essas coisas e nem sabe que é errado. Eu só acho que se ele realmente tem problemas, isso tinha que ter sido visto antes. Ele não podia estar vivendo em sociedade se era capaz de uma coisa dessas”, avalia.

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Eronilda diz que pretende acompanhar o julgamento de Jair, mas não quer estar no auditório quando a acusação mostrar o que aconteceu com Francine. “Quero lembrar da minha filha do jeitinho que ela era.”

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Relembre o caso

Após um almoço de Dia dos Pais, Francine e o noivo deixaram a casa do pai dela em Rincão da Serra, no interior de Vera Cruz, por volta das 14h30. Após passar na casa da mãe, no Bairro Bom Jesus (também em Vera Cruz), onde vestiu uma legging, camiseta e um casaco, ela foi até o Lago Dourado para uma caminhada. O noivo, que deixou a jovem no ponto turístico de Santa Cruz do Sul por volta das 14h50, foi o último familiar a vê-la com vida.

Após um aquecimento no deck do lago, que foi registrado pelas câmeras de segurança, ela desapareceu. Parentes iniciaram as buscas. Coube ao pai, Runor Rocha Ribeiro, encontrar o corpo da jovem em um matagal entre o Lago Dourado e o Rio Pardinho, cerca de 400 metros distante da pista de caminhada, na manhã do dia seguinte ao desaparecimento.

A jovem, que trabalhava no comércio e cultivava sonhos de trabalhar com fotografia, fora brutalmente assassinada. Estuprada, espancada e estrangulada, Francine foi morta por asfixia mecânica e teve ossos do pescoço quebrados pela força usada pelo agressor. Hemorragias internas no abdômen, causadas pelo espancamento, também contribuíram para sua morte. 

O crime causou comoção em todo o Estado e motivou manifestações de amigos e familiares em Santa Cruz e Vera Cruz. Apesar dos rumores e boatos que se espalharam pelas redes sociais, atrapalhando o trabalho policial, o suposto autor foi identificado e preso: 12 dias depois, o feminicídio que chocou os moradores da região chegou a um desfecho com a prisão de Jair Menezes Rosa, de 58 anos. Um exame forense encontrou material biológico do agressor em amostras de sêmen e pelos coletados no corpo da vítima.

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O aposentado, morador do Bairro Várzea, havia sido visto por testemunhas no dia do crime, nos arredores do Lago Dourado próximo a um matagal, vestindo roupas camufladas. Ele foi indiciado por homicídio qualificado, estupro e furto, e continua preso. Em junho, o acusado passou por um exame de sanidade no Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), que deve apontar se ele tinha consciência e capacidade de cometer o crime. O resultado do laudo médico ainda não ficou pronto.

Foto: Lula Helfer

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