Investigação 31/08/2019 00h12 Atualizado às 19h20

Como age o novo bando de ladrões de veículos em Santa Cruz do Sul

Polícia Civil do município capturou na semana membro de quadrilha que cobra resgate para devolver automóveis furtados

Após algumas horas de campana no estacionamento de um mercado na Rua Carlos Trein Filho, em Santa Cruz do Sul, na tarde dessa quinta-feira, 29, os agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) conseguiram prender um dos responsáveis pelo “sequestro” de veículos em Santa Cruz do Sul. O jovem de 18 anos foi detido por volta das 15 horas, no momento em que esperava receber o pagamento para devolver um carro furtado à vítima. O Tempra, bordô, havia sido levado da Rua Marechal Deodoro por volta do meio-dia. Minutos depois, o proprietário passou a receber ligações dos criminosos, que exigiam R$ 1,8 mil de resgate, e procurou a Polícia Civil.

A prisão fez parte de um trabalho de investigação de longo prazo da Draco, que vem identificando e indiciando uma série de pessoas por furto de veículos seguido de extorsão. Conforme o delegado Marcelo Chiara Teixeira, que comanda a especializada, o jovem detido na Carlos Trein integra um grupo novo de furtadores, que teria feito escola com antigos autores desses crimes. Uma das características do novo bando, que estaria agindo no município desde março e teria pelo menos cinco integrantes identificados, é a ousadia. “Eles aprenderam com esses outros criminosos e agora começaram a agir de forma mais independente. Antes a entrega do dinheiro era no bairro onde moravam (o Bairro Bom Jesus) e eles mandavam crianças buscarem. Agora são os próprios criminosos que vão pegar os valores, e em área central”, comenta o delegado.

Também na contramão dos furtadores de veículos mais antigos, que possuíam uma divisão de tarefas bem definida, o novo bando estaria se revezando nas funções de furtar, esconder o veículo e entrar em contato com as vítimas. Outro aspecto observado pela polícia é a idade dos criminosos, que são jovens e adolescentes. Essa peculiaridade, no entanto, não teria um motivo específico e seria característica também da outra quadrilha. “O que a gente observa é que o furto é uma porta de entrada para o mundo do crime, não só no furto de veículos. Se pegarmos o histórico de indivíduos que hoje são traficantes, por exemplo, vamos ver que eles começaram cometendo pequenos furtos”, avalia Teixeira.

O jovem preso na última quinta-feira não teve o nome revelado. Ele foi ouvido e encaminhado para o Presídio Regional de Santa Cruz do Sul. Antes disso, segundo o delegado, ele já havia sido preso duas vezes por furto de veículo e extorsão, ambas em junho deste ano. Em uma das ocasiões, passou uma noite na cadeia; na outra, foi liberado no mesmo dia. Conforme Teixeira, isso acontece por diversos motivos, dentre eles o fato de o réu ser primário e os crimes praticados não envolverem violência, por exemplo. O Tempra que havia sido furtado pelo bando foi entregue ao dono após ser localizado no estacionamento de outro supermercado na Avenida Euclydes Kliemann, no Bairro Arroio Grande.

O rei da micha

Logo após a prisão do jovem de 18 anos, populares que estavam nas proximidades informaram os agentes de que haveria outro rapaz com ele. O adolescente, de 16 anos, havia conseguido fugir, mas foi encontrado pouco tempo depois, na mesma rua. Medindo 1,50 metro de altura, o menor é conhecido entre os comparsas como “o rei da micha”. O apelido vem da habilidade do rapaz de usar a chave micha para abrir portas e furtar os automóveis. Ele foi ouvido e liberado. Conforme a polícia, os ladrões levam um segundo para conseguir abrir um carro com a ferramenta improvisada.

COMO FUNCIONA O “SEQUESTRO”

Os criminosos costumam usar uma chave micha para furtar os veículos. Os principais alvos são automóveis antigos, de trava simples, que podem ser facilmente abertos com a ferramenta improvisada.

Após o furto, os veículos são escondidos em pontos isolados e distantes do Centro, geralmente nas proximidades de regiões de mata.

O próximo passo é a extorsão. O telefone das vítimas geralmente é obtido logo após o furto, de duas formas: ou a vítima deixou algo no carro contendo o próprio contato (cartão de visita, agenda, documentos, boletos), ou o proprietário posta nas redes sociais seu telefone, pedindo que as pessoas informem caso tenham notícia do veículo. Os criminosos ligam ou mandam mensagens no WhatsApp e ameaçam queimar ou destruir o carro ou moto caso o valor não seja pago.

Vítima e criminoso combinam um ponto para a entrega do dinheiro. Após o pagamento, o local onde o veículo foi deixado é informado. Várias vezes, no entanto, os veículos não são mais encontrados ou tiveram diversas peças removidas.

Colaboração das vítimas é fundamental

Apesar das investigações constantes para frear os autores dos “sequestros” de veículos, a polícia afirma que precisa da colaboração das vítimas. No caso de quinta, por exemplo, a prisão do jovem só foi possível porque o proprietário do carro procurou os agentes assim que começou a receber ameaças. “A extorsão não se configura só quando a pessoa paga, mas assim que as ameaças começam. Quanto mais informações as vítimas nos trouxerem, mais fácil fica de chegar a esses criminosos e conseguir a prisão”, frisa o delegado Marcelo Chiara Teixeira. Segundo ele, as vítimas também precisam confiar no trabalho da polícia e não pagar o resgate. “Aqui em Santa Cruz nós não temos muitos casos de furto para desmanche ou venda de peças, nem venda para outros municípios. Os criminosos do município furtam para pedir o resgate e fazem isso porque as pessoas pagam.” O índice de carros e motos furtados que são recuperados pelas polícias Civil e Militar ultrapassa 90% hoje em Santa Cruz. Em muitos casos, os veículos são encontrados no mesmo dia do crime.

Valor do resgate é motivo de disputa entre os bandidos

O “sequestro” de veículos se tornou um negócio tão lucrativo em Santa Cruz que, segundo a Polícia Civil, passou a ser alvo de disputa entre os criminosos. Conforme o delegado Marcelo Chiara Teixeira, os ladrões não comentam entre si onde escondem os carros ou motos enquanto negociam o resgate com as vítimas, por medo de que os outros ladrões se aproveitem e tentem ficar com o valor. De acordo com ele, também é comum que, ao ficar sabendo que a vítima está atrás do veículo, um segundo criminoso entre no meio da negociação. “Se um deles descobre que o comparsa está pedindo R$ 1 mil, por exemplo, e consegue o contato da vítima, liga e pede R$ 1,2 mil, para ficar com essa parte a mais.”

A Draco também tem observado, conforme o delegado, que indivíduos de dentro de penitenciárias têm pedido resgate por veículos daqui. Contatos nesse formato já foram identificados, vindos principalmente da Serra Gaúcha. “Eles geralmente conseguem o contato pela internet. Nesses casos é fácil identificar o golpe, porque o prefixo é de outra região”, explica.

Nesses casos, os criminosos costumam pedir que a vítima deposite o dinheiro, ao invés de entregar pessoalmente. “São casos em que o proprietário nunca vai conseguir recuperar o carro. Às vezes, na ligação, fica claro que o ladrão está no presídio ou que tem sotaque de fora, mas no nervosismo a vítima não se dá conta”, comenta.