Venâncio Aires 29/01/2020 09h51 Atualizado às 12h39

"Perdoei porque o amo", diz vítima que beijou réu no tribunal

Micheli Schlosser surpreendeu ao beijar, diante do corpo de jurados, o homem que lhe deu cinco tiros no ano passado

Uma foto do beijo entre Micheli Schlosser, de 25 anos, e Lisandro Rafael Posselt, de 28, circulou nos meios de comunicação de todo o Rio Grande do Sul nessa terça-feira, 28. O motivo? O beijo foi dado em meio ao julgamento de uma tentativa de feminicídio. Micheli, a vítima; Posselt, o réu. Durante o julgamento, em Venâncio Aires, a jovem pediu autorização ao juiz para abraçar e beijar o réu, que disparou cinco tiros contra ela em agosto do ano passado.

O crime ocorreu no Centro de Venâncio Aires, na época em que os dois mantinham um relacionamento. A mulher declarou ainda, em plenário, que tudo ocorreu após ela o ter “provocado”. “Ele nunca tinha me agredido, sempre foi muito bom para mim e já pagou pelo erro dele”, disse aos jurados.

Foto circulou em todo o estado | Foto: Álvaro Pegoraro/Folha do Mate

O júri terminou às 16 horas, com a condenação de Posselt a sete anos em regime semiaberto – cinco pela tentativa de feminicídio e dois por porte ilegal de arma. O réu, que fará uso de tornozeleira eletrônica devido à falta de vagas para presos do regime semiaberto em Venâncio Aires, terá o direito de recorrer da sentença em liberdade e não teve que retornar à Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva) – ele estava preso desde agosto de 2019, alguns dias após o crime.

A sessão foi presidida pelo juiz João Francisco Goulart Borges. Atuaram na defesa os advogados Ianaê Simonelli e Antônio Elpídio Fagundes, de Venâncio Aires, e Jean de Menezes Severo e Felipe Terres, ambos de Porto Alegre. A acusação esteve a cargo do promotor Pedro Rui da Fontoura Porto.

O advogado Antônio Elpídio Fagundes disse que a defesa está satisfeita com a decisão. Ele ressaltou que os jurados acolheram o privilégio da violenta emoção, dispositivo que reduziu a pena. “O resultado foi muito bom, só recorreremos caso o Ministério Público também recorra.”

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“Nunca vi algo assim antes”, afirma o promotor do caso

O promotor Pedro Rui da Fontoura Porto comentou, após o júri, que em alguns casos de violência doméstica é normal a vítima se colocar a favor do agressor. Porém, nunca tinha visto tal situação em um caso de tentativa de feminicídio. “Se fosse um caso de agressões mais leves, se ele (o réu) não tivesse atirado cinco vezes, muito menos acertado, eu até tentaria interpretar de uma outra forma”, disse.

Segundo ele, o que chama atenção é a gravidade do caso. “O fato de ela chegar não só em plenária, mas também na audiência de instrução que ocorreu antes, e dizer que quer se casar com ele, que quer viver o resto de sua vida com um homem que tentou matá-la, surpreendeu a todos. Quando o juiz anunciou a sentença em regime semiaberto, ela aplaudiu. Nunca vi isto antes”, afirmou.

O promotor argumentou ainda que houve circunstâncias do relacionamento que levaram até o crime. “Era um quadro de ciúme doentio de ambas as partes e de violência. Ela teve uma sorte incrível. Apesar de ter sido atingida com cinco tiros, todos efetuados pelas costas, e de as balas ainda estarem alojadas no seu corpo, hoje está ilesa, sem sequer uma sequela.”

Os tiros acertaram a cabeça, o braço esquerdo e as costas. Anteriormente ao fato, não havia nenhuma denúncia de violência contra o acusado na polícia. “Porém, o que se sabe é que no dia anterior ao crime ele a teria ameaçado com a arma e prometido matá-la. Disse que em seguida cometeria suicídio. Mas o fato não foi registrado”, relatou o promotor.

Na casa do acusado, no Bairro Santa Tecla, a polícia apreendeu logo após o crime duas armas legalizadas para uso em estande de tiro e o revólver calibre 22 utilizado no crime, que estava em situação ilegal. “O réu já pediu para que a polícia devolva estas armas. Mas eu vou pedir que, enquanto ele estiver cumprindo a pena, as armas continuem recolhidas”, antecipou o promotor.

Síndrome de Estocolmo

Para o promotor Pedro Rui da Fontoura, a situação lembra a Síndrome de Estocolmo. Após o assalto a um banco com reféns no centro da capital sueca, em agosto de 1973, os criminosos e as vítimas, que conviveram durante seis dias dentro da agência bancária, criaram uma relação afetiva e de cumplicidade. O episódio deu origem à expressão. “A síndrome começou a ser estudada em muitos outros casos de abuso sexual e seitas religiosas e é muito comum na violência doméstica, onde a vítima se coloca a favor do acusado”, relatou.

“Eu amo ele e já o perdoei”

Após o júri, a Gazeta do Sul esteve na casa onde Micheli Schlosser reside com a família, em Linha Arroio Grande, interior de Venâncio Aires. Ela confirmou estar satisfeita com a decisão dos jurados. Conforme a vítima, até a data do crime o casal mantinha uma boa relação. Ela espera que, agora, “tudo volte ao normal”.

ENTREVISTA

Micheli Schlosser recebeu a Gazeta do Sul nessa terça-feira

Gazeta do Sul – Vocês tinham um relacionamento há quanto tempo? E o que provocou esta situação dos tiros?

Micheli SchlosserA gente namorou por cerca de um ano e meio. Brigamos por causa de conversas que eu peguei no telefone celular dele. Daí discutimos, eu provoquei muito ele naquele dia e por isso ele disparou. Eu ameacei que iria denunciá-lo à polícia por estupro.

Você foi alvejada por cinco disparos de arma de fogo. Ficou com algum tipo de sequela?

Os tiros ainda estão alojados no meu corpo. Mas por sorte estou bem. No momento estou afastada do trabalho para minha recuperação.

O que você pretende fazer a partir de agora? Pensa em reatar o relacionamento com ele?

Nós vamos conversar e se der tudo certo a gente vai voltar e tudo vai ser como antes. Eu amo ele e já o perdoei.

Mas na sua opinião, o que o levou a atirar contra você?

Eu falei muita coisa sem pensar naquele dia. Eu disse que denunciaria ele por agressão e outras coisas. Mas ele nunca me agrediu antes. Eu não fico com homem que agride.