Problema sem fim 13/02/2020 06h54 Atualizado às 12h38

Flanelinhas continuam intimidando à vontade no Centro de Santa Cruz

Mesmo após ações do poder público, clandestinos mantêm abordagens em um dos principais pontos de encontro na cidade

Com bares, restaurantes e estabelecimentos diversos, a Rua Borges de Medeiros é um dos principais pontos de encontro de Santa Cruz do Sul. No entanto, um problema antigo incomoda os frequentadores e empresários da região: os flanelinhas. O assunto já é recorrente.

Não é de hoje que a atuação dos guardadores de carros clandestinos chama a atenção. Ao longo dos últimos dois anos, diante das constantes reclamações, ações foram organizadas pela Prefeitura, Ministério Público, Brigada Militar e Guarda Municipal – nenhuma capaz de coibir de forma efetiva a atividade ilegal.

Para o empresário Daniel Augusto Hoppe, sócio-proprietário do pub Proeza, a situação ficou insustentável, a ponto de um flanelinha utilizar uma camiseta do estabelecimento ao abordar as pessoas na rua.

“Não sei como ele conseguiu, mas essa situação nos prejudica demais. Os clientes ficam sem saber se devem dar algo diante da abordagem truculenta que ele faz, ou mesmo se é um pedido nosso para que eles atuem”, conta.

Hoppe afirma ter informado a polícia diversas vezes sobre o caso. “Não adianta. Já liguei várias vezes, falam que vão colocar numa lista, mas não entra como prioridade e aí não fazem nada.”

O empresário até reconhece o trabalho promovido pelo poder público e entidades de segurança entre o fim de 2018 e início de 2019, no entanto, ressalta que as ações de combate à prática diminuíram.

“Coibiram durante um tempo, mas agora está cada vez pior. De um meio ano pra cá, vem aumentando o número de flanelinhas. Antes era um, depois dois. Hoje são cinco aqui por perto, se já não tem mais.”

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Moresco: os infratores não ficam detidos | Foto: Banco de imagens

Brigada orienta a não pagar

A atuação de flanelinha – profissão que não possui regulamentação em Santa Cruz do Sul pela legislação municipal – é considerada crime de menor potencial ofensivo. Quando flagrado, o infrator apenas assina um termo circunstanciado.

“Diante disso, o autuado se prontifica a não atuar mais nesse sentido, mas não fica detido”, explica o comandante do 23º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Giovani Paim Moresco. Segundo ele, a ação da Brigada é diária.

“Eu mesmo, sempre que passo por ali e percebo a movimentação suspeita, despacho uma viatura para o local. Os próprios flanelinhas já me reconhecem quando passo a pé e somem. Infelizmente, logo retornam.” Moresco orienta as pessoas a não pagarem qualquer valor aos guardadores.

Lamenta, porém, a abordagem ofensiva. “A atuação deles é intimidadora, principalmente a mulheres sozinhas. Por isso orientamos as pessoas a ligarem para o 190 sempre que algum clandestino importunar nesse sentido”, ressalta o comandante.

“Parece que estamos enxugando gelo”

A Guarda Municipal atua com rondas periódicas nos pontos de maior atividade de flanelinhas. “Nosso trabalho é realizar um policiamento ostensivo e preventivo, com respeito legal e constitucional. Essa zona que engloba as ruas Borges de Medeiros, Marechal Deodoro e até Gaspar Silveira Martins nos causa bastante preocupação por ser de intensa atividade dos flanelinhas”, diz o coordenador da Guarda Municipal, Estor Jochims. Segundo ele, no último dia 31 foram detidos cinco indivíduos em atividade de guardador de carros. Todos foram levados à Delegacia de Polícia para registro de ocorrência e depois liberados.

Segundo Jochims, ainda que a atuação dos guardadores configure um crime de menor potencial ofensivo, sem detenção, o fato de um clandestino usar uma camiseta com a marca de um estabelecimento – como no caso do pub Proeza – altera a configuração da infração. “Esse caso de expor a razão social de uma empresa, significando uma representação da mesma de forma indevida, é ilegal e pode ser enquadrado no crime de estelionato ou mesmo falsidade ideológica.”

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Embora afirme que a atuação da Guarda Municipal é contínua, Jochims admite a frustração quando vê que os flanelinhas mantêm suas abordagens, mesmo após as ações dos órgãos de segurança. “Às vezes parece que estamos ‘enxugando gelo’. Mas não vamos relaxar. Se tiver que autuar dez ou 15 vezes iremos fazer, porque é uma forma de mostrar aos contribuintes que estamos fazendo o nosso trabalho”, ressalta. “Pedimos que as pessoas registrem as ocorrências e, se forem ameaçadas, liguem para a Guarda Municipal no 153 que iremos atender.”

Jochims, da Guarda: “Não vamos relaxar” | Foto: Banco de imagens

“É uma máfia”, diz empresário das redondezas

Alguns proprietários de estabelecimentos procurados pela Gazeta do Sul preferiram não se manifestar por medo de represálias. Um empresário que aceitou conversar – porém, com o nome mantido em sigilo – salientou que recebe inúmeras reclamações de clientes diante da abordagem dos clandestinos. “Os fregueses dão dinheiro por medo. As mulheres acabam sendo as mais visadas, e relatam que sofrem extorsões e abordagens em tom ameaçador.”

Segundo ele, o uso de entorpecentes agrava a situação. “É uma máfia. Há dois anos, só tinha um atuando. Depois esse virou usuário de drogas e passou a contar com outros à sua volta, que estão quase sempre drogados ou bêbados. Por volta das 22h30, 23 horas, eles já estão loucos e ameaçadores.” Segundo o comerciante, ao sair do estabelecimento, muitos clientes têm medo de buscar os veículos. “Diante disso, ficamos cuidando ou vamos junto com as pessoas até o carro.”

O empresário diz notar as rondas promovidas pelos órgãos de segurança, mas elas são insuficientes diante da “malandragem dos flanelinhas”. “Quando eles notam a polícia saem caminhando tranquilo, como se estivessem passeando”, afirma o empresário, que ouve até reclamações dos próprios flanelinhas. “Chegam ao ponto de se queixar e dizer que as pessoas estão muito mesquinhas, só dando moedas.”

Flagrante

A reportagem da Gazeta do Sul foi conferir a atuação dos flanelinhas durante a noite, com um carro sem emblemas. Tão logo ingressou na quadra da Rua Borges de Medeiros entre a Marechal Floriano e Marechal Deodoro, foi abordada por um guardador, o qual sugeriu que o automóvel fosse deixado em um espaço que sequer é vaga de estacionamento – na frente da entrada de um prédio.

A reportagem questionou o flanelinha sobre o local irregular para estacionar, e o rapaz respondeu: “A mulher (do prédio) é das nossas. Ela deixa colocar aqui. Pode deixar aí que vai estar bem cuidado.”

Em relação à abordagem da polícia durante a ação dos clandestinos, o flanelinha disse que são autuados apenas “quando estão brigando ou ‘apertando’ alguém”, referindo-se às intimidações. Sobre a quantidade de guardadores de carros que atuam em torno da Borges de Medeiros, ele revelou que seriam em torno de quatro ou cinco. “Só às vezes aparecem alguns ‘aleatórios’.”

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