ATAQUE DE CÃES 27/05/2020 09h22 Atualizado às 12h12

Família de santa-cruzense morta quer reabrir o caso

Após a investigação da polícia concluir que não houve crime, Ministério Público de Viamão pediu arquivamento do processo

Ainda estava escuro às 6h45 de 22 de agosto de 2018. Em Santa Cruz do Sul, chovia e fazia frio. Ainda assim, um forte calor no peito, gerado por um pressentimento ruim, fez Clarice Camargo Goularte levantar em um salto da cama. Num impulso, minutos depois, mandou uma mensagem pelo aplicativo WhatsApp para a filha Márcia Cristiane Goularte, perguntando se ela estava bem. A mensagem não seria respondida.

Foram várias horas sem novidades. Por volta das 14h30 do mesmo dia, o telefone convencional tocou, em cima do rack da sala, na residência da família, no Bairro Independência. A ligação, no entanto, não foi atendida por Clarice, e sim pelo seu filho, Márcio Antônio Goularte. Na linha, o pedido era para falar com Gustavo Antônio Goularte, irmão de Márcio, o outro filho de Clarice.

A mãe, no entanto, assumiu a ligação e ouviu a dolorosa notícia: sua filha Márcia havia falecido, vítima de um ataque de seis cães, a cerca de 170 quilômetros de Santa Cruz do Sul, em um sítio na Rua Victorino José Goulart, no Bairro São Tomé, Zona Sul de Viamão, Região Metropolitana de Porto Alegre. “Na hora, fiquei desesperada e saí gritando. Meu filho Gustavo veio e falou com o homem ao telefone. Meu outro filho Márcio, que é especial, ficou em choque, sem saber o que fazer. Foram momentos terríveis”, relata a mãe.

Desde então, uma verdadeira batalha vem sendo travada por Clarice em busca de respostas. Na última semana, um ano e nove meses após o ocorrido, ela recebeu a notícia de que o processo criminal, já em poder do Ministério Público de Viamão, foi arquivado sem apontar culpados. “Mantenho contato periodicamente com as autoridades de Viamão. Na última vez que liguei, me informaram que o caso foi arquivado por falta de provas”, relatou a mãe.

“Minha filha morreu dentro daquela propriedade. Quero justiça, quero saber o que aconteceu. Alguém tem que ser o responsável. É um absurdo arquivar um processo desses e ninguém ser culpado por uma morte tão brutal.” As constantes trocas de delegado ao longo dos últimos meses, segundo Clarice, também podem ter prejudicado a investigação da Polícia Civil. Emocionada, ela desabafou: “Fica um sentimento de injustiça, de impunidade. Que Brasil é esse que temos? Eu preciso que me deem uma explicação.”

Na época da morte, imagens do corpo de Márcia, muito ferido devido ao ataque dos cães, circularam por grupos de WhatsApp e chegaram até a família. “Não sabemos se foram os donos do sítio, a Polícia Civil, a Brigada Militar ou o IGP, mas eles não poderiam ter feito isso. Eles expuseram ela e aumentaram o nosso sofrimento. Eu quero buscar justiça”, afirmou.

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Márcia Goularte gostava de animais; contudo, tinha muito medo de cachorros

Retomada depende do surgimento de provas
O Ministério Público (MP) de Viamão confirmou que, com base na investigação da 1ª Delegacia de Polícia do município, foi solicitado o arquivamento do processo pela ausência de provas. Conforme o MP, as autoridades policiais não encontraram indícios de crime e, com base nisso, o órgão solicitou o arquivamento do processo no dia 2 de março. O pedido foi acatado pelo Judiciário no dia 9 de março.

De acordo com Adilson Ramos, assessor do promotor de Justiça Criminal de Viamão, Robson Jonas Barreiro, o inquérito pode ser reaberto, desde que novos fatos venham à tona para configurar um crime. “Deixamos claro à família que tratamos da esfera criminal, e que questões trabalhistas ou civis ainda podem ser passíveis de outras ações”, salientou Adilson Ramos.

“Quero reabrir o inquérito. Não podiam ter arquivado. Como uma pessoa pode morrer dentro da propriedade de alguém e ninguém ser responsabilizado? Não queria dinheiro, não queria nada, queria ela aqui com a gente”, afirmou a mãe Clarice, hoje com 61 anos. Márcia foi sepultada no dia 23 de agosto de 2018, no Cemitério Municipal de Santa Cruz do Sul. Os proprietários do sítio em que ela trabalhava e a ex-patroa, com quem Márcia trabalhou durante 10 anos, estiveram presentes. Em novembro, ela completaria 41 anos.

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Trauma de criança
Márcia Cristiane Goularte evitava a proximidade com cães. O trauma teve início aos 6 anos, quando ela foi mordida na perna por uma Fox Paulistinha, na casa do seu padrinho. “Desde então, ela tinha esse medo de cachorros e não se aproximava tanto. Nunca maltratou nenhum bicho, só não era de estar com gato ou cachorro no colo”, explicou a mãe Clarice.

Hoje com 45 anos, o irmão de Márcia, Márcio Antônio Goularte, que atendeu a fatídica ligação que informou sobre o falecimento da santa-cruzense, afirmou que é difícil se conformar com o acontecido. “Às vezes, eu sonho com ela. Muitas vezes não dá para acreditar que isso aconteceu”, disse ele. “Tem horas que o Márcio, que é especial, começa a chamar pela irmã aqui em casa”, relatou Clarice.

O outro irmão, Gustavo Antônio Goularte, que foi quem fez o reconhecimento do corpo de Márcia, tem 36 anos e também mora com a família. O filho de Márcia completou 17 anos no dia 21 de abril e mora com a avó Clarice. Segundo ela, ele evita tocar no assunto da mãe. Está terminando o Ensino Médio e quer ser engenheiro. Márcia também tinha um filho de criação, que casou, mora em Santa Cruz do Sul e hoje está com 21 anos.

RELEMBRE O CASO
Márcia Cristiane Goularte, de 38 anos, havia deixado Santa Cruz do Sul em 2005 para ir morar em Porto Alegre. Na manhã de 22 de agosto de 2018, foi encontrada morta em um sítio de Viamão. Ela havia se mudado para lá há oito dias, com o objetivo de trabalhar. Segundo conta Clarice, por volta das 6h50, o patrão dela teria mandado uma mensagem para a funcionária, que vivia em uma morada a cerca de 80 metros da residência principal, perguntando se ela não iria entrar na casa para trabalhar e fazer o café da manhã.

Por volta das 9 horas, quando o patrão saía para levar a filha à catequese, decidiu verificar o que havia acontecido com Márcia e encontrou a santa-cruzense já sem vida no gramado do sítio, no caminho entre as duas casas, próximo a um canil, de bruços e sem roupas. Ela estava sem partes dos braços e das pernas, com ferimentos na cabeça.

Para a mãe, a explicação de que os cães teriam simplesmente atacado a filha, sem que ninguém visse ou ouvisse, não é convincente. “Por que não foram verificar logo na primeira meia hora o que havia acontecido, já que ela não entrava na casa principal? Como não ouviram os gritos dela? Como não ouviram os latidos de todos os cachorros? Não era longe e gritos e latidos dessa forma ecoam, ainda mais em um lugar como um sítio, e tão cedo, quase sem barulho lá fora. Tem coisas que não fecham”, argumentou a mãe.

Antes de se mudar para o sítio, Márcia havia trabalhado durante dez anos para um único patrão. Segundo Clarice, após desentendimentos, a filha pediu demissão e disse que colocaria o antigo chefe na Justiça por questões trabalhistas. Também de acordo com a mãe, o novo emprego foi obtido cerca de um mês após a vítima sair do anterior, e quem conseguiu a vaga para Márcia trabalhar no sítio teria sido um familiar do antigo patrão, com quem ela ainda mantinha contato. Com dificuldades financeiras para pagar o aluguel, Márcia aceitou. “Ela via muita coisa errada sendo feita. Era um arquivo vivo. Foi maldade”, sustentou Clarice.

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