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Trânsito

Tragédia na RSC-287: seis anos depois, uma dor que não cicatriza

Foto: Alencar da Rosa

Jorge Antônio e filhas guardam as edições da Gazeta do Sul que tratam do grave acidente que matou três pessoas da família

O dia 14 de novembro de 2014 foi uma sexta-feira de muito sol na região. O tempo seco ao fim da tarde convidava para um bom passeio em família. Nesse cenário de clima agradável, o casal Jorge Antônio dos Santos, o Jorginho, de 51 anos, e Vitória Terezinha Morsch dos Santos, 49, moradores de Vale do Sol, traçou uma viagem para Santa Cruz do Sul.

O objetivo era comparecer ao aniversário do cunhado de Vitória, marido da irmã dela. No Chevrolet Meriva cinza da família, levariam ainda a outra irmã de Vitória, Ledi, hoje falecida, que sofria de esclerose lateral amiotrófica (ELA), e seus pais Hugo Morsch, de 78 anos, e Herta Glicéria Morsch, 75. A cadeira de rodas de Ledi já estava no porta-malas do espaçoso Meriva quando, subitamente, ela desistiu de ir ao aniversário em Santa Cruz, preferindo ficar em casa.

Com apresentação do coral marcada, Ana Luiza dos Santos, de 13 anos, filha mais nova de Jorginho e Vitória, não estava muito à vontade para cantar. Uma dor de garganta a incomodava e a vaga que surgiu no carro, para ir ao aniversário, foi o que faltava para ela avisar o regente de que não iria ao concerto, e sim passear com a família.

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Por não precisarem mais levar a cadeira de rodas da irmã de Vitória, a família decidiu deixar o Meriva em casa e pegar o Volkswagen Gol vermelho, modelo bolinha, do avô Hugo. Já eram 18h30 quando a família saiu de casa, nas proximidades da Igreja Centenária de Vale do Sol, no Centro. Não havia como prever a tragédia que estava para acontecer.

Já sobre a RSC-287, ainda nos limites de Vale do Sol, uma colisão tirou a vida de Hugo, Herta e Vitória, e deixou Ana Luiza e Jorge Antônio em estado grave, o último com sequelas permanentes. Passados quase seis anos, os sobreviventes do acidente, bem como Ana Paula e Ana Júlia, as outras duas filhas do casal Jorge e Vitória, receberam a Gazeta do Sul e relembraram o fatídico dia. Também comentaram a recente decisão da Justiça, que determinou na última segunda-feira que o acusado de ter provocado o acidente, o tenente-coronel da Brigada Militar (BM) Afonso Amaro do Amaral Portella, na época com 55 anos, enfrente o júri popular.

Socorristas tiveram de escolher a quem salvar
Mais cedo, naquele mesmo 14 de novembro de 2014, a outra filha do casal, Ana Paula dos Santos, então com 23 anos, rainha do município, havia retornado do trabalho e conversado com a mãe Vitória sobre a rotina do dia. Antes de sair para pegar o ônibus rumo à aula, na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), onde cursava Direito, Ana Paula deu um abraço na sua mãe. Seria a última vez que as duas se veriam.

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A ideia era reencontrar a família horas depois, já na comemoração em Santa Cruz do Sul, mas uma ligação do namorado mudou os planos. “Ele me ligou quando eu já estava na aula e saí para atender no corredor. Me falou que tinham dito para ele que havia acontecido um acidente com o carro do meu avô, e que se machucaram. Saí dali na hora.” O primo de Ana Paula foi buscá-la na Unisc. A ideia inicial era ir até onde o acidente havia acontecido, mas informações do rádio já diziam que o trânsito estava congestionado no local.

Foi então que eles resolveram seguir até o Hospital Santa Cruz. “Chegamos lá e veio a ambulância trazendo a Ana Luiza e o tenente-coronel. Comecei a questionar onde estariam os outros. Então me falaram que a vó e o vô tinham falecido no local. E que o meu pai estaria no meio das ferragens. De minha mãe, não sabiam dizer.”

A outra irmã, Ana Júlia dos Santos, na época com 20 anos, chegou ao local do acidente vinda de Vale do Sol. “O trânsito estava todo trancado. Aí, larguei o carro em um acostamento e praticamente corri pelo asfalto até chegar lá. Não deixavam chegar muito perto. Quando fui destapar um dos panos, a primeira que vi foi minha mãe”, contou Ana Júlia.

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Diferentemente de Herta e Hugo, Vitória Terezinha não havia falecido na hora. No entanto, segundo Ana Júlia, uma decisão precisou ser tomada. “Os funcionários da ambulância chegaram a colocar oxigênio nela, mas havia poucos aparelhos. Então, tiveram que escolher quem achavam que iria sobreviver. Foi quando acabaram tirando o oxigênio da mãe e colocando no pai”, revelou a filha.

LEIA TAMBÉM: Vítimas de acidente na 287 são veladas em Vale do Sol

Vectra cinza dirigido por Afonso Portella colidiu com Gol vermelho conduzido por Jorge Antônio dos Santos sobre a RSC-287

As lembranças do acidente
Já faz quase seis anos, mas as lembranças do acidente ainda permanecem vivas na memória de Ana Luiza. Ao lado das irmãs e do pai, ela contou com detalhes os segundos que antecederam a colisão. “Onde estávamos, na faixa, era uma reta. Foi tudo muito rápido. Lembro que minha mãe ainda gritou ‘olha ali!’, para o meu pai”, disse a jovem, hoje com 19 anos.

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Jorge era o motorista. No banco do carona estava o sogro, Hugo. No banco traseiro do veículo, Herta estava sentada atrás do condutor e Vitória, atrás do carona. Ana Luiza, por sua vez, ficou entre a avó e a mãe. “A vó veio para o lado tentar olhar, o pai fez um barulho de susto e tentou virar a direção, mas não adiantou”, recordou a jovem, que quebrou o pulso, tornozelo e a bacia.

Hugo Morsch bateu a cabeça na quina de ferro da frente do veículo. Herta Glicéria e Vitória Terezinha chocaram-se com força contra os bancos da frente e as laterais. De forma impressionante – e que chamou a atenção dos bombeiros na época – Ana Luiza sobreviveu, apesar da violência do impacto. Para conseguir tirar Jorge das ferragens, os bombeiros tiveram de arrancar o teto do automóvel com um desencarcerador.

Como aconteceu
No sentido oposto ao do Gol vinha um Chevrolet Vectra cinza, com placas de Santa Maria, conduzido pelo tenente-coronel da Brigada Militar Afonso Amaro do Amaral Portella. Durante o dia, ele havia participado de uma festividade em Rio Pardo, em alusão ao Dia do Inativo da BM. No local, almoçou e recebeu uma placa em homenagem pelos serviços prestados no município, onde atuou em cargo de comando. Em setembro de 2013, já havia recebido o título de Cidadão Honorário da Cidade Histórica.

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Um dia antes do acidente, Portelinha – como era conhecido – tinha participado de um jogo de futebol entre colegas de farda em Santa Cruz. Ao final da tarde de 14 de novembro de 2014, porém, quando voltava para sua casa em Santa Maria, no quilômetro 123 da RSC-287, às 18h40, invadiu a pista contrária e acertou em cheio o Gol onde estava a família Morsch-Santos.

Juíza manda condutor a júri popular
Após mais de seis meses de investigação, o inquérito da Polícia Civil, encaminhado à Justiça em 28 de maio de 2015, apontou que o Vectra estaria em alta velocidade e invadiu a pista contrária. O documento diz ainda que Portella estaria sob efeito de bebida alcoólica. Ele foi indiciado por triplo homicídio, lesão corporal grave e lesão corporal gravíssima, todos com dolo eventual. “A gente concluiu que, da forma como agiu, ele previu o resultado e assumiu o risco de matar”, afirmou o delegado responsável pelo caso, Marcelo Chiara Teixeira, na época do indiciamento.

Na última segunda-feira, cinco anos e quatro meses após a conclusão do inquérito policial, a juíza Fernanda Rezende Spenner, da Comarca de Vera Cruz, determinou que o tenente-coronel seja julgado em júri popular, em data a ser definida. A Gazeta do Sul teve acesso à íntegra do processo. O documento informa que o Ministério Público, com base no inquérito policial, ofereceu denúncia contra Afonso Portella pelas três mortes e pelas lesões corporais sofridas pelos dois sobreviventes. Cita também que a colisão “ofendeu a integridade corporal de Jorge Antônio dos Santos, produzindo-lhe lesões corporais de natureza gravíssima, enfermidade incurável e incapacidade permanente para o trabalho”.

Para a promotoria, “ao conduzir veículo automotor após ter ingerido bebida alcoólica, em velocidade excessiva para o local e, ao invadir a pista contrária, ignorando os veículos que transitavam naquele sentido, o denunciado assumiu, conscientemente, o risco de causar a morte e as lesões corporais das vítimas, o que efetivamente se concretizou”.

Luta pela vida com o apoio das três filhas
Hospitalizado por quatro meses e meio, Jorge Antônio, hoje com 57 anos, traz na pele as marcas do acidente. No crânio, tem uma válvula com a função de drenar eventuais formações de líquido no cérebro, sintoma decorrente da colisão. Conhecido na região por participar ativamente de jogos de futebol amador, ele quebrou o tornozelo e todo o lado direito do seu corpo ficou comprometido. Durante a estadia no hospital, drenos foram colocados para sugar o líquido que se formou no pulmão. Também contraiu meningite, trombose e infecção no sangue. O tratamento fez com que a família se mudasse para o Bairro Goiás, em Santa Cruz do Sul, retornando apenas no ano passado a Vale do Sol.

Com dificuldades na fala e para caminhar, Jorge atribui ao amor das filhas, das irmãs Jussara, Shirlei, Leane e Zilá, e do irmão Larri, o fato de se manter forte para seguir em frente. “Tenho o apoio das minhas gurias e de minha família, às quais agradeço muito”, limitou-se a dizer. “Para nós foi muito difícil, pois estávamos lidando com a perda de três pessoas, enquanto meu pai e minha irmã estavam no hospital. Precisávamos assimilar toda aquela perda e torcer para que ele sobrevivesse, pois estava em estado grave, em coma induzido. A gente disse muitas vezes o quanto precisávamos dele, pois sabíamos que, no inconsciente, estava nos ouvindo”, comentou Ana Paula, hoje com 29 anos.

No dia 20 de novembro de 2014, data em que Ana Luiza completou 14 anos, Jorge abriu os olhos pela primeira vez após o acidente, ainda na UTI. As três filhas foram juntas ver o pai no dia 28 de novembro. A presença delas e as palavras de carinho fizeram com que lágrimas caíssem dos olhos de Jorge, ainda entubado. A alta do Hospital Santa Cruz veio em 28 de março de 2015.

O réu, o tenente-coronel Afonso Amaro do Amaral Portella, hoje está com 61 anos

Exames indicaram que o acusado estaria alcoolizado
Uma das testemunhas ouvidas, que foi a primeira a parar seu carro após a colisão, disse em depoimento à Justiça que ia com sua família de Porto Alegre para Restinga Seca, quando o veículo de Afonso Portella ultrapassou o seu. Momentos depois, viu quando o Vectra invadiu a pista contrária e colidiu com o Gol. A testemunha afirmou que prontamente pegou o extintor de incêndio no seu automóvel, pois os veículos envolvidos no acidente estavam em chamas.

Relatou que conseguiu apagar o fogo do Vectra, cujo condutor usava indumentária gaúcha, além de estar armado e não usar cinto de segurança. Partiu na sequência para o outro automóvel, onde, após apagar o fogo, constatou que havia cinco integrantes. Uma menina no banco de trás, entre duas senhoras, encontrava-se em estado de choque. Ele e outro senhor pegaram a menina pelo porta-malas e a deitaram no asfalto, esperando até que a ambulância chegasse. Ao ser questionada, a testemunha afirmou que os integrantes do Gol estavam utilizando cinto de segurança.

A testemunha revelou ainda ter sentido cheiro de álcool tanto dentro do Vectra quanto no hálito do réu, e que era nítido que o motorista do Vectra estaria alcoolizado. Em diferentes depoimentos, outras pessoas alegaram ter visto bebidas dentro do veículo do tenente-coronel e também comentaram que ele aparentava estar alcoolizado.

Também em depoimento, um funcionário do laboratório de exames, que estava de plantão no dia do acidente, disse que havia um familiar do acusado no hospital que autorizou a realização de um exame para verificar o teor alcoólico no sangue do acusado.

Ele disse que coletou três frascos de sangue para o laboratório, e que a presença de álcool no sangue pode ser verificada em qualquer uma das três amostras. O funcionário ressaltou que Portella foi comunicado acerca do que se tratavam os exames e que o tenente-coronel assinou um termo de autorização.

Motorista nega

Em seu depoimento à Justiça, o irmão do tenente-coronel afirmou que não se recorda de estar presente no quarto quando sangue e urina foram coletados do acusado. Ao ser questionado pela juíza, o réu, o tenente-coronel Afonso Amaro do Amaral Portella, hoje com 61 anos, disse que na festividade da qual participou em Rio Pardo havia cerveja com álcool para venda; por isso, levou cervejas sem álcool para o evento e somente ingeriu essas. Afirmou que tem hepatite, que degenera seu fígado e não lhe permite ingerir bebidas alcoólicas.

A defesa de Portella pediu a anulação do exame de urina que atestou o consumo de álcool, alegando que ele teria sido realizado enquanto Portella encontrava-se em estado de inconsciência, incapaz de exprimir sua vontade.

Em seu despacho, a juíza Fernanda Spenner observou que há nos autos prova de que o réu esteve consciente o tempo todo e assinou termo permitindo a realização do exame. No documento consta ainda que “não bastasse isso, a embriaguez foi confirmada pelos demais elementos de prova produzidos nos autos, em especial pelas testemunhas que estavam no local dos fatos”. A Gazeta do Sul tentou contato com a defesa do acusado, mas não obteve retorno das ligações.

Um voto de confiança na justiça
Jorge Antônio dos Santos era fiscal de tributos na Prefeitura de Vale do Sol. Incapacitado para trabalhar, ele depende das filhas para quase todas as atividades. “Meu pai precisa de ajuda 24 horas. Ele fazia tudo por nós. Agora é a nossa vez de fazermos tudo por ele”, disse Ana Paula, com lágrimas nos olhos. No dia da audiência em que Ana Luiza prestou depoimento, no Fórum de Vera Cruz, no dia 20 de outubro de 2016, Afonso Amaro do Amaral Portella foi até o local, pois o seu depoimento também estava agendado.

Contudo, ele mudou de ideia e preferiu relatar sua versão posteriormente, em Santa Maria. “No dia da audiência, a gente queria que ele olhasse para o pai. Nos sentimos como se nós fôssemos bandidos. Reforçaram a segurança, ele entrou escoltado, foi direto ao estacionamento do Fórum”, contou Ana Paula. Na data, familiares organizaram uma manifestação pacífica em frente ao Fórum. “Ele tirou tanto de nós, que eu queria que ele tivesse acompanhado por um dia tudo que nós passamos. Que ele se sentisse da forma como o pai se sente, não podendo fazer quase nada, sempre tendo que ter alguém 24 horas junto”, complementou.

A mulher de 29 anos formou-se em Direito em 2016. As duas irmãs, Ana Júlia e Ana Luiza, fazem o mesmo curso (8º e 4º semestres) na Unisc e Faculdade Dom Alberto, respectivamente. “Eu atendo meus clientes dizendo que a gente pode acreditar na Justiça, e eu tenho certeza que ela pode tardar, mas não falha. Tenho certeza que ele vai ter uma condenação, mesmo que seja pouco, perto do que nos tirou”, disse a advogada.

“Do fundo do meu coração, não sei se um dia vou conseguir perdoá-lo, mas gostaria que ele tivesse a hombridade de um dia ter vindo nos procurar, admitir o erro e ter dito ‘eu sei que não posso trazer ninguém de volta, mas eu posso auxiliar vocês em algo?’. Ele nunca fez isso”, complementou Ana Paula, que dá um voto de confiança na Justiça. “Consigo acreditar na Justiça. E a coisa mais certa é: aqui tu faz, aqui vai pagar. Essa resposta que a juíza deu, de levar o acusado a júri popular, é uma resposta para a comunidade.”

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