Aplicação de silicone industrial 07/10/2020 08h20 Atualizado às 23h01

“É como usar água de esgoto para beber”, diz cirurgião plástico

Jovem transexual de 20 anos morreu após se submeter ao procedimento clandestino em quarto alugado em Santa Cruz

A polícia investiga uma morte que ocorreu em Santa Cruz do Sul após a aplicação de silicone industrial no corpo de uma jovem de 20 anos. A vítima, Mélani Aguiar, era transexual e veio de Santa Maria até Santa Cruz para fazer o procedimento estético clandestino. Ela foi hospitalizada no dia 27 de agosto deste ano, após se submeter a aplicação da substância nos glúteos, e acabou falecendo quatro dias depois.

O cirurgião plástico Oscar Sachett, de Santa Cruz, alerta que, apesar de em muitos procedimentos estéticos não ser necessária a internação hospitalar ou ação pós-operatória, a prática sempre requer cuidados. Quando realizados de forma inadequada, podem apresentar sérios riscos à saúde dos pacientes.

Para Sachett, médico desde 1978 e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o uso ilegal de silicone industrial, como no caso de Mélani, é um exemplo da falta de comprometimento de pessoas que não são profissionais de saúde e não têm conhecimento do que fazem. O cirurgião plástico salienta que o produto que matou a jovem, apesar de ser de um tipo semelhante ao usado nas próteses de mama, é impuro e tem seu uso médico proibido.

“A origem da coisa é a mesma, mas a purificação do produto, não. A grosso modo, seria como usar água do esgoto para beber”, comparou o profissional. Ele alerta que existe um mercado muito grande ligado à clandestinidade, praticado por pessoas que não têm formação médica. Muitas delas aproveitam o interesse da população em realizar procedimentos estéticos a um custo baixo e acabam oferecendo um serviço ilegal e muito perigoso. O resultado de tudo isso são práticas malsucedi das, sem qualquer regulamentação e sem o cumprimento de medidas sanitárias.

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“O que se tem visto nesse meio, em que uma pessoa sem formação injeta produtos ilícitos na outra, é que no momento pode até ficar bonito. Mas isso não tem compatibilidade com o organismo humano. A reação é proporcional ao volume que foi colocado e à pureza ou não do que foi colocado. Na maioria das vezes, o silicone industrial é aplicado com uma seringa e agulha. Se essa agulha penetrar numa veia, isso gera uma trombose, uma embolia pulmonar, e o sujeito morre na hora ou alguns dias depois”, alerta o médico.

De acordo com Sachett, quando ocorrem problemas com a utilização de silicone industrial, este se desloca com uma velocidade muito grande pelo organismo e o tratamento é muito difícil. Ele lembra também que a qualidade do produto empregado em implantes de silicone é fundamental. Existem diferentes opções no mercado e a característica pode variar de acordo com quem fabrica a prótese. O cirurgião ressalta que os procedimentos realizados no mercado legal sempre utilizam materiais com procedência de fabricação.

“A prótese vem lacrada, com número de referência. Quem compra é a paciente da distribuidora, que entrega para o médico. Então, existe uma sequência, na qual ninguém consegue comprar se não for cadastrado no local, com confirmação de especialista, pelo menos do Conselho Regional de Medicina.”

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Responsável
Oscar Sachett ressalta que o profissional é o responsável pelo material que aplica no cliente. Por isso, o mercado exige uma formação qualificada dos profissionais da medicina e conhecimento para dominar o que é ministrado ao paciente. “O botox, por exemplo, é uma substância que paralisa determinados músculos, assim como a toxina produzida em um alimento estragado. É o mesmo produto. Só que esse produto é induzido a ser feito no laboratório e tem que ficar hermeticamente fechado e na temperatura ideal o tempo inteiro, desde produzido até ser aplicado”, comenta o médico.

“Tu tens que saber se o laboratório é sério, tens que saber até quem trouxe, pois se veio em um caminhão sem condições, o produto já não tem função. É uma série de aspectos técnicos que devem ser cumpridos para ser bem-feito”, finaliza o cirurgião plástico.

Entenda
A investigação do caso está a cargo da delegada Ana Luísa Aita Pippi, titular da 1ª DP de Santa Cruz. Por meio do telefone celular de Mélani, a polícia chegou até a autora do procedimento, que seria conhecida por aplicar silicone de forma clandestina em transexuais em todo o Estado. A polícia também encontrou no telefone da vítima o comprovante de uma compra feita pela internet do silicone que seria usado em seu corpo.

Em Santa Cruz do Sul, Mélani submeteu-se ao procedimento em uma residência onde alugou um quarto. Logo após receber a aplicação do silicone industrial nos glúteos, a vítima começou a passar mal e foi abandonada, agonizando, pela mulher responsável pelo procedimento clandestino. “Na hora ela já se sentiu mal. A mulher foi embora e deixou a vítima naquele estado. Ela foi socorrida pela dona da casa na qual ela ficava, que chamou o Samu e os familiares, haja visto a gravidade dessa aplicação, desse silicone totalmente irregular”, afirmou a delegada. Mélani Aguiar morreu no dia 31 de agosto, após ficar em coma no Hospital Santa Cruz.

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Confissão
Moradora de Caxias do Sul, a mulher confessou o crime após o cumprimento de mandado de busca e apreensão em sua residência, na Serra Gaúcha. Segundo a Polícia Civil, ela já realizava esquemas do tipo há quatro anos. Na casa, os policiais encontraram produtos que eram utilizados nos procedimentos estéticos ilegais, como seringas e material de aplicação do silicone industrial. A mulher será indiciada por homicídio doloso e exercício ilegal da medicina com fins lucrativos. A investigação apurou que há relatos de outras pessoas que passaram por procedimentos com a mesma responsável por aplicar o silicone em Mélani Aguiar, e que convivem com dores pelo corpo. A acusada já teria praticado seus serviços em diferentes cidades do Rio Grande do Sul.

O silicone que causou a morte de Mélani é utilizado na indústria mecânica, na limpeza de peças de motores, ou como vedação de pisos e azulejos. O emprego estético desse tipo de produto é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pois é uma substância tóxica que representa grandes riscos para a saúde. Sua aplicação em humanos é tipificada na lei como crime contra a saúde pública.

“É um silicone totalmente líquido, cheio de partículas impróprias para o corpo, que podem causar inflamações e infecções gravíssimas, e até o óbito, como aconteceu no caso da Mélani”, explicou a delegada Ana Luísa Pippi. “É um fato grave, que chama a atenção. É triste, mas espero que sirva de alerta para as pessoas que desejam modificar o corpo em busca da forma perfeita, mas, atraídas por um valor econômico bem baixo, acabam aplicando esse silicone industrial ao invés de serem submetidas a práticas com o produto correto: o silicone em gel, aplicado por um médico, cirurgião plástico, em uma clínica, um local apto para isso”, completou a titular da 1ª DP.

Em entrevista para a imprensa de Santa Maria, parentes de Mélani revelaram surpresa com o caso, dizendo que a família agora espera por justiça. “Ela era uma menina incrível, de bom coração e que nunca fez nada para ninguém. Uma boa filha, uma boa cunhada e uma boa irmã. Esperamos por justiça porque ela não foi a primeira e nem será a última vítima disso”, disse Cleunice Pereira, cunhada de Mélani. A vítima teria pago R$ 2 mil pelo procedimento ilegal.

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