Entrevista 22/12/2018 00h37 Atualizado às 09h34

“Saio com todas as pompas”, afirma Sérgio Moraes

Após 38 anos na política, chegou a hora da aposentadoria e a prioridade será curtir a família e amigos

Personagem emblemático da história política recente do Vale do Rio Pardo, Sérgio Ivan Moraes (PTB) está a um passo de se retirar em definitivo da vida pública. Após 38 anos de carreira, com passagens pela Câmara de Vereadores, Prefeitura, Assembleia Legislativa e Congresso Nacional, encerrará o atual mandato de deputado em janeiro, prometendo não mais retornar.

Conhecido pela destreza que alçou-o de líder comunitário a uma das figuras mais influentes do interior do Rio Grande do Sul e formou outras lideranças de peso ao seu redor, pelas obras deixadas enquanto prefeito de Santa Cruz, que vão da UTI Pediátrica ao Autódromo Internacional e lhe renderam uma popularidade até hoje não superada nos bairros da zona sul, e pelo perfil combativo que o envolveu em sucessivas polêmicas, muitas de repercussão nacional, e lhe rendeu mais de meia dúzia de embates judiciais, Sérgio gerou desconfiança ao anunciar a aposentadoria. Muitos duvidaram, até o último momento, que abriria mão da paixão e patrimônio políticos e deixaria de concorrer à reeleição este ano.

Apesar do insucesso ao tentar voltar ao Palacinho em 2016, Sérgio comemora o fato de chegar ao fim da trajetória com a vitória de seus dois principais herdeiros, a ex-esposa Kelly Moraes (eleita deputada estadual) e o filho Marcelo Moraes (que assumirá a cadeira de Sérgio na Câmara Federal).

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul nessa quinta-feira, relembrou passagens de sua trajetória e prospectou o futuro. Fez um mea-culpa sobre o apoio ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha – hoje preso –, mas defendeu-se sobre quando declarou estar “se lixando para a opinião pública”. Afirmou ter recebido oferta de R$ 3 milhões para votar contra o impeachment de Dilma Rousseff e comentou sua inimizade com Telmo Kirst (PP). Garantiu que não deixa objetivos não alcançados na política e se retira de cabeça erguida. “Saio com todas as pompas”, disse. Confira.

Gazeta – O que passa na sua cabeça sabendo que, daqui a uns dias, não terá mais nenhuma função política, depois de tantos anos?
Moraes – Na verdade, eu vinha esperando esse dia e me preparando para ele. Nos últimos anos, eu já vinha me afastando de muita coisa. E agora eu penso já estar preparado para esse novo momento. Creio que eu tive a sabedoria, aos 60 anos, de entender que estava na hora de oportunizar que outras pessoas ocupem o meu lugar. E, com isso, me sobrar tempo para coisas que um homem de 60 anos deve fazer, que é cuidar dos netos, dos amigos, da família, passear um pouco. Tem amigos que faz anos que não vejo, e agora quero procurá-los. Se alguém me viu caminhando na rua nos últimos dez anos em Santa Cruz, foi em época de eleição ou esporadicamente. E eu quero voltar a caminhar na rua.

Gazeta – O senhor pretende se estabelecer em Santa Cruz?
Moraes –
Sim, mais exatamente em Cerro Alegre. Santa Cruz é tudo de bom, é uma terra fantástica. Eu devo tudo a esse povo.

Gazeta – Como o senhor vai se sustentar a partir de agora? Vai se aposentar como deputado?
Moraes –
Não tem mais aposentadoria de deputado. Os antigos conseguiram porque têm direito adquirido. Mas nós teríamos que ter ingressado no plano da Câmara pagando uma fortuna. Como eu não tinha esse dinheiro, segui recolhendo ao INSS. Há pouco tempo, para minha surpresa, descobri que quando fui vereador e depois deputado estadual, não foi recolhido, então está me faltando 14 anos. Entrei na Justiça para ver se consigo. Ainda não consegui, mas vai ser uma aposentadoria normal, com teto de R$ 4 mil e pouco, o que é um bom dinheiro. Mas eu estou tocando algumas coisas com meus filhos e acredito que o Marcelo e a Kelly vão me ajudar. Pra manter as latinhas cheias lá em casa, vai dar.

Gazeta – O senhor construiu um patrimônio político grande. Em que momento concluiu que podia se retirar?
Moraes –
Na campanha para prefeito (em 2016), eu já fui arrastado. Eu disse na época que seria minha última eleição, e muita gente duvidou. Foi uma eleição em que eu não aceitei coligação, peguei o vice do próprio partido, não fiz nenhum santinho, fiz uma mídia totalmente amadora e achava que ia ganhar. No meio da campanha, quando vi que havia do outro lado uma mídia muito profissional, tudo muito bem estruturado e uma coligação grande contra mim, percebi que não era mais tão fácil. Depois, veio a resposta: fiz sozinho quase 32 mil votos, contra todos. E quando digo todos, me refiro até ao PT, que votou em massa no Telmo. Mas perdi a eleição. E no dia, lá no CTG Tio Ítia, eu via quem me rodeava chorando, e eu não sentia aquela dor. Aquilo me incomodava, porque eu tinha que sentir. Eu via as pessoas que lutaram tanto para que eu ganhasse chorando, e aquilo me deixou muito mal. Mas a vida é assim.

Gazeta – Vai sentir falta da política ou esse ciclo realmente acabou?
Moraes –
Quando eu saí da Prefeitura, em 2005, todo mundo dizia que em 90 dias eu ia estar agoniado por aí, que ia procurar alguma coisa. Eu fiquei dois anos fora da política e, quando voltei como deputado federal, já voltei de arrasto. Eu já queria ficar naquela vida, mas tive que remar mais 12 anos. Então, eu acredito que vou me adaptar muito fácil. Acho que o difícil é quando tu levas um tombo. Quando tu queres ser deputado e não te reelege, aí é muito amargo. Mas eu optei por não querer mais e consegui eleger o Marcelo e a Kelly. Então, acho que encerrei com duas chaves de ouro. Qual é o político que consegue um fôlego tão grande como eu consegui e no final ainda elege um federal e um estadual dentro de casa? É raro.

Foto: DivulgaçãoEm 1996, aos 38 anos, Sérgio Moraes foi eleito prefeito de Santa Cruz pela primeira vez
Em 1996, aos 38 anos, Sérgio Moraes foi eleito prefeito de Santa Cruz pela primeira vez

Gazeta – Quando o senhor concorreu pela primeira vez, imaginava que iria tão longe?
Moraes –
Até que, no fundo, eu queria. Era muito jovem, tinha 24 anos, e lutava de forma impressionante. Ninguém faz, fez ou vai fazer aquilo que eu fiz para chegar até onde cheguei. Eu era candidato a deputado estadual em 1990, não tinha nada de dinheiro, não tinha carro, os santinhos eu ganhei porque não tinha como fazer, e eu ia de casa em casa, e não só em Santa Cruz, em toda a região. Tu sabe o que é fazer uma campanha de porta em porta, praticamente a pé? Eu fiz 8,8 mil votos e graças ao (Sérgio) Zambiasi, a quem eu vou morrer devendo, que fez 360 mil votos e puxou nove deputados com ele, eu me elegi. Mas só eu sei a dificuldade que foi chegar aonde cheguei. Quando eu morava no Bairro Faxinal, todos os dias às 6 da manhã se formava uma fila de 50 a 80 pessoas para eu atender, e aquilo não me cansava. Na madrugada, naquela época, não tinha táxi, não tinha plantão de saúde, não tinha celular, então na minha casa era central telefônica, era plantão médico... Se morria o parente de alguém, ligavam para minha casa, e eu avisava. Eu conhecia todas as pessoas pelo nome e, na grande maioria das vezes, além de avisar, eu tinha que levar a família até onde tinha acontecido o fato. Então virávamos a noite numa Variant ou num Chevette. Só eu fiz isso.

Gazeta – E o que motivava o senhor a tudo isso? Era algo natural ou porque tinha um objetivo?
Moraes –
Nunca pedi emprego e nunca fui demitido. Sempre quando me davam uma tarefa, eu pegava com as duas mãos. Eu tinha que ser o melhor, tinha que fazer com a maior perfeição. Nunca quis passar por incompetente ou por fraco. Eu pensava: ‘Se estou concorrendo a deputado, tenho que ganhar’. Eu não admitia a derrota. E assim foi indo. Talvez tenha sido isso: a vontade de não fracassar me levou até onde eu cheguei.

Gazeta – E foi assim que o senhor conseguiu driblar todas as polêmicas em que se envolveu, que foram muitas?
Moraes –
Um homem com razão briga muito. E eu sempre tinha razão, tanto que a Justiça me inocentou em todas. Eu tenho uma qualidade que é não ter ódio de ninguém. Se eu brigo com uma pessoa, no minuto seguinte já está tudo certo, não fico remoendo. Isso me tornou uma pessoa com a língua muito solta, mas porque eu estava muito bem calçado em minha base eleitoral. Aí eu pensava: Pô, mas depois de ter feito tudo o que fiz, tenho que aguentar isso de um sujeito que não produziu nada?’. Aí eu pensava: ‘Vou dar logo pra matar esse cara’. E aí dava paulada e virava polêmica. Isso vale para repórteres, políticos adversários e até para o Ministério Público.


Gazeta – Em algum desses episódios, o senhor ficou com medo que sua carreira acabasse ali?
Moraes –
Não tive. Eu brigava forte porque nunca causei mal por querer causar. Por exemplo, eu respondo a um processo hoje por ter contratado médicos e enfermeiros sem concurso público. Só que é o seguinte: eu cheguei na Prefeitura no dia 1o de janeiro de 1997 e o concurso tinha sido anulado pelo Tribunal de Contas. Aí me falaram que os médicos e enfermeiros não iam mais trabalhar. Pedi a eles que seguissem atendendo, convoquei a Câmara de Vereadores e encaminhei um contrato. Eu devia ter sido elogiado pelos promotores. Eles tinham que ter dito: ‘O cara não tem culpa de o concurso ter sido anulado e não tem tempo de fazer outro concurso’. Mas sabe o que eles fizeram? Moveram uma ação contra mim.

Gazeta – O senhor pode afirmar que encerra uma carreira sem ter cometido nenhuma irregularidade?
Moraes –
Nenhuma. Posso ter cometido erros administrativos, sem querer. Por exemplo, teve um Garota Verão que aconteceu em Santa Cruz, nós ofertamos o pavilhão e compramos uma mídia. Aí o Tribunal de Contas entendeu que não podíamos ter comprado essa mídia. E nem tinha sido eu, e sim a secretária de Turismo. Só que isso me custou uma chacarazinha que eu levei dez anos para pagar e que hoje está penhorada e possivelmente eu vou perder. Mas qual foi o erro que eu cometi? Fiz alguma mutreta? Não fiz nada. E todos foram assim. O caso do telefone na casa do meu pai foi parar no Supremo Tribunal Federal, e eu ganhei de 9 a 0 lá porque não tinha cometido nenhum crime. Mas fizeram parecer que eu era um bandido, que eu tinha pego um telefone da Prefeitura e colocado no armazém do meu pai, sendo que o armazém nem era mais nosso, e quando o telefone foi colocado o prefeito era o Armando Wink. Que culpa eu tenho?

Gazeta – E o senhor teve, em muitos momentos, que dizer não à corrupção?
Moraes –
Dez dias antes da cassação da Dilma (Rousseff), o voto a favor dela valia
R$ 500 mil. Na semana, valia R$ 1 milhão. E no domingo de manhã, valia R$ 3 milhões. Depois, na delação do Joesley Batista, ele confirmou isso. No dia da votação, eu estava com R$ 9 mil negativos no banco. Ninguém do PTB pegou. Então, sobrevivi por 12 anos naquilo sem me envolver com nada. Não estive, não estou e não estarei em lista nenhuma.

Gazeta – Mas, por exemplo, a defesa veemente que o senhor fez do Eduardo Cunha nunca ficou bem esclarecida.
Moraes –
Ali foram várias coisas. Primeiro, o partido pediu que eu ajudasse. Segundo, eu pedi um tempo para ler o processo e ali não tinha nada a não ser recortes de jornais. Terceiro, nós fomos no Supremo Tribunal Federal e pedimos para ver as provas, mas nos negaram. Quarto, ele jurava para nós, chorando, que era inocente. Quinto, o Ibsen Pinheiro, na mesma situação, foi cassado, liquidado, e no fim era inocente. E teve um sexto motivo: o relator e o presidente do Conselho de Ética cometiam erros de propósito no processo para ganhar mídia, aí a coisa andava e, quando ia julgar, o Cunha conseguia uma liminar para anular porque estava errado. Diziam que era manobra dele, mas não era, era porque o processo estava errado. Então, parecia que nós, que estávamos defendendo o Regimento, estávamos protegendo o Cunha, mas só estávamos obedecendo à lei. Aquilo começou a me incomodar e aí eu disse: ‘Vou votar a favor desse cara, porque não suporto demagogia’. Depois, o Judiciário abriu as provas e eu vi que estava errado, mas aí já tinha passado. Mas foi difícil para segurar.

Gazeta – Esse foi o episódio mais difícil ou teve algum pior?
Moraes –
Não sei dizer. Todos foram uma peleia feia. E eu não me escondia, ia para o enfrentamento. Te lembra que o Jô Soares me chamou no caso do deputado do castelo (Edmar Moreira)? Eu fui apedrejado pela comunidade naquele caso e sabe o que aconteceu? O cara foi inocentado de tudo e ganhou indenizações da mídia pelas calúnias que fizeram contra ele. E nós sabíamos que ele tinha razão porque, naquele caso, nós tínhamos os documentos. Mas não adiantava dizer, qualquer pessoa que tentava levantar a verdade era apedrejado, e eu fui junto. A maioria dos meus companheiros correu para debaixo da mesa e eu fiquei firme, com a verdade na mão. Então, são coisas que é preciso ser macho para enfrentar.

Gazeta – Viver no meio do furacão do Congresso é mais difícil do que ser prefeito?
Moraes –
Nada é mais difícil do que ser prefeito. Não existe nada pior. Ainda mais o modelo de prefeito que eu implantei em Santa Cruz. Eu atendia todas as pessoas, diferente de como é hoje. Atendia todos os dias das 8 da manhã às 7 da noite e depois trabalhava na parte técnica até 10 ou 11 da noite. Eu dormia com um bloco e uma caneta do meu lado porque de madrugada eu perdia o sono e tudo o que eu lembrava eu ia anotando. Foi uma loucura. Eu consegui asfaltar 170 quilômetros de estradas, entre ginásios e salões comunitários fiz 42, fiz quatro colégios, Hospitalzinho, autódromo, UTI Pediátrica, casas populares, enfim. Pode pegar os últimos dez prefeitos que, somados, não fizeram o que eu fiz. E de novo, como eu falei antes: eu tinha que ser o melhor. Eu tinha que ser o que mais produzia, eu não podia passar por incompetente. E isso me levou a um infarto e um câncer de próstata.

Gazeta – De todas essas realizações, qual lhe dá mais orgulho?
Moraes –
A UTI Pediátrica. Esses dias eu fui citado em um programa de televisão na Argentina como o brasileiro que mais incentivou o esporte automobilístico nas últimas décadas. Mas essa visibilidade que o autódromo me deu não me fascinou. O que me fascinou foi a UTI Pediátrica, seguida pelo Hospitalzinho e pelo Cemai.

Gazeta – Fazer a UTI era uma ideia que o senhor já tinha antes de virar prefeito?
Moraes –
Sim, porque eu via o sofrimento das crianças. Naquela época não tinha plantão nenhum. Às 6 da tarde fechava todo o sistema de saúde da cidade. E aí batia tudo na minha casa, no Faxinal. Era criança convulsionando, criança com 40 graus de febre, criança com perna quebrada, e não tinha para onde levar. Aquilo me incomodava e machucava muito. Eu dizia: ‘Se chegar na Prefeitura, eu vou fazer’. E cheguei e fiz. Por isso, eu digo: na parte social, existe uma Santa Cruz antes de Sérgio Moraes e outra depois de Sérgio Moraes. A grande maioria dos bairros não tinha nada, não tinha água tratada, não tinha esgoto, não tinha asfalto. Quem fez 80% dos asfaltos em todos os bairros fui eu. O transporte coletivo era o pior do Estado, era só sucata, e eu fiz uma lei obrigando a colocar ônibus novos. Foi um choque de qualidade de vida para os bairros.

Gazeta – O senhor citou antes os problemas de saúde que teve. Em algum momento, pensou em largar a política e mudar de vida?
Moraes –
Os problemas de saúde me ensinaram uma coisa: sempre quem fica mais doente é a família. Quando eu infartei, a minha família adoeceu mais do que eu. Quando tive câncer, minha família entrou em pânico, adoeceram todos. Eu olhava para eles, tristes, preocupados, inseguros, mas na verdade eu não estava tão mal. Então, o doente sofre a parte física, mas a parte emocional administra. O familiar, não, ele sente a parte emocional. Isso foi a parte mais difícil.

Foto: DivulgaçãoRivalidade com Telmo Kirst foi marcante em sua carreira: em 2016, os dois se enfrentaram nas urnas
Rivalidade com Telmo Kirst foi marcante em sua carreira: em 2016, os dois se enfrentaram nas urnas

Gazeta – Se o senhor voltasse no tempo, faria algo diferente?
Moraes –
Acho que não. Talvez não me envolveria em tantas polêmicas. Eu não daria de novo um tapa no Irton Marx, eu não jogaria um caminhão de areia em cima do Gilberto Saraiva, enfim. Eram coisas de quem tinha 35 anos de idade e precisava remar para frente. Agora, o resto... Defenderia outra vez o Edmar Moreira. Aquela vez que eu disse que estava me lixando para a opinião pública, diria de novo. Porque aquilo era um contexto, era um sufoco no meio da imprensa que queria que eu dissesse aquilo que eles queriam ouvir, e eu não estava disposto a me dobrar para eles, eu queria ficar com a razão. Aí saiu a frase e virou um grande acontecimento. Mas acho que tem coisas que não faria, porque me arrependo. Aliás, me arrependo não, só não faria de novo.

Gazeta – De todas as pessoas que enfrentou politicamente, quem foi a que mais o desafiou?
Moraes –
Foi na eleição contra o (José Alberto) Wenzel. Ele estava com uma mídia muito forte, era o bambambã. Eu tinha demitido ele um ano antes da Prefeitura e ele veio com aquele aparato, aquela fama de grande gestor. Isso me preocupou um pouco. Mas como o Hermany saiu em outra chapa, eu relaxei. Aí a campanha estava andando, redondinha, e quando faltavam quatro ou cinco dias para a eleição, o Hermany desistiu e se acoplou à campanha do Wenzel, um negócio totalmente imprevisível. Confesso que, na quinta-feira que antecedeu a eleição, eu achava que ia perder. Aí nos movimentamos e conseguimos reverter, mas foi por muito pouco. Pra ver como obra e trabalho não dão resultado nenhum. Tanto é verdade que o Telmo fez meio Acesso Grasel e uma ciclovia no Arroio Grande, foram as únicas obras que ele fez, e estourou na votação. Obra não dá voto, o que dá voto é mídia.

Gazeta – O senhor tem alguma mágoa ou decepção com alguém?
Moraes –
Eu só tenho um inimigo, que é o Telmo. Mas não por causa de política e sim por um fato que ele cometeu contra a minha família e que me incomodou demais, então eu rompi com ele. Mas fora disso, eu bato boca com outras pessoas, mas no outro dia não vale mais nada, porque é política e não pessoal.

Gazeta – O senhor nunca pensou em tornar público o que o Telmo fez contra o senhor?
Moraes –
Ele sabe o que é.

Gazeta – Kelly e Marcelo são seus grandes herdeiros políticos. Quando viu potencial neles?
Moraes –
A Kelly começou lá no Faxinal. Naquela época, nós mandávamos nos bairros, o que nós falávamos era ordem. E a Kelly trabalhava muito nessa parte, atendendo as pessoas, levando para o médico, buscando remédio, e aquilo fortaleceu muito ela. Mas eu só descobri isso quando entrei na Prefeitura. Quando eu lancei ela para deputada federal, aí eu vi o tamanho da Kelly. Foi assim: na abertura da Expoagro, fui buscar o Zambiasi e no caminho ele me mostrou uma pesquisa em que eu aparecia estourado para deputado na região. Ele disse que eu tinha de concorrer, mas eu queria ficar na Prefeitura. Aí eu disse: ‘De repente eu lanço a Kelly’. Quando chegamos na Expoagro, vieram entrevistar ele e ele disse que a Kelly concorreria. Ela estava escutando em casa,  me ligou e disse: ‘Vocês estão é doidos, eu não concorro’, e chorou uma semana sem parar.  Eu tive que convencê-la. Em muitos comícios na região ela não foi, por causa das crianças que eram pequenas. Aí no dia da eleição, ela me perguntou: ‘E aí, Sérgio?’. E eu: ‘Parabéns, deputada’. Não deu outra. E ela se transformou numa força grande. Aliada a mim, ela é muito forte.

Gazeta – Quando ela concorreu contra vocês em 2014, isso te magoou muito?
Moraes – 
O que aconteceu foi que o presidente do partido, hoje prefeito de Canoas (Luiz Carlos Busato), se aproveitou de um momento de fraqueza, da nossa separação, e convenceu ela a concorrer contra mim e o Marcelo. E pior, para apoiar ele aqui na região. Ele veio com dinheiro, montou comitê, ou seja, se aproveitou de um momento para poder me destruir. Não foi legal. Mas aí logo depois ela entendeu e hoje somos bons amigos, está tudo resolvido.

Gazeta – E o Marcelo? Espera ver ele prefeito algum dia?
Moraes –
Não sei se eu desejaria isso para um filho meu. O Serginho é o mais político da família. Eu tô tentando desviar ele, ele sempre fala em concorrer a vereador e eu não digo nada, fico quieto, queria evitar. Mas se um dia alguém da minha família quiser disputar, eu sou cabo eleitoral permanente.

Gazeta – Qual o principal conselho que o senhor daria para o Marcelo hoje?
Moraes –
O Marcelo é muito tímido. As pessoas acham que ele é nariz empinado, mas na verdade ele é envergonhado. Ele tem que aprender a perder essa timidez, começar a entrar mais no meio das pessoas, a criar grupos de amigos. Ele trabalha como louco, ninguém trabalha como ele na política, mas na minha opinião produz pouco. Não na produção como deputado, mas na parte de angariar votos. Ele é um cara muito preparado, é um bom deputado, estuda muito, está sempre afiado, mas é encolhido. E tem mais um problema: as pessoas querem enxergar ali o Sérgio Moraes, que chega na praça, abraça todo mundo, ri com todo mundo. E aí chega o Marcelo, meio duro. É o jeito dele, é isso que as pessoas têm de entender.

Gazeta – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter conseguido na política e não conseguiu?
Moraes –
Eu acho que consegui tudo. Eu não quis ser ministro e não quis ser secretário de Estado, não aceitei nem um e nem outro. E por um motivo simples: eu tinha um mandato do qual eu era dono, e teria que abrir mão para ser mandado por alguém. E eu sou difícil de ser mandado. Por exemplo: tem deputado aqui no Rio Grande do Sul que quando recebe convite para viajar no avião presidencial para um evento no Estado na segunda, vai no domingo de noite a Brasília só pra poder aparecer ao lado do presidente. Eu nunca fiz isso. Nunca me fascinou esse tipo de coisa.

Gazeta – O que o senhor vislumbra para a política de Santa Cruz no futuro? Acha que a polarização PP-PTB está no fim ou ainda vai durar muito tempo?
Moraes –
Time que não joga não tem torcida. Quem mais briga aqui na cidade é o PP e o PTB. O resto até briga, mas briga pouco. Enquanto não surgir uma novidade nesse quadro, vai continuar essa disputa. O povo quer isso. Tem gente que é PP e quer ver o PP no poder, e tem gente que é PTB e quer ver o PTB lá. Agora, imagina se o PP não vai para uma eleição? Não tem como, eles estão empurrados, têm que ir. Então, acho que isso vai por alguns anos, talvez com pessoas um pouco mais eficientes, talvez o campo das ideias seja diferente, mas ainda acho que vai continuar. Assim como era antes Arena e MDB, e aí eu furei o esquema e entrou o PTB no meio.

Gazeta – À exceção do Marcelo, tem algum político jovem que chama a sua atenção?
Moraes –
O Mathias (Bertram) tem um potencial grande. A Bruna Molz tem um potencial grande. Estou falando de gente que pode abranger uma região maior, porque tem outros que são bons políticos mas têm uma região um pouco mais encolhida, que é o caso do Luizinho Ruas, do Elstor (Desbessell)... Mas que conseguem abranger uma região maior, é o Mathias e a Bruna. Não sei se vão seguir carreira e se vão me ouvir, porque sempre que me ouvem, dá certo. Tem os meninos do Hermany também, que estão se posicionando bem. E tem o próprio Alex (Knak), que agora levou esse, digamos, chega-pra-lá na Câmara. Estou aguardando o Alex: se ele ficar com os cargos quietos dentro do governo, vou me decepcionar, porque daí o homem é frouxo. Ouvi a entrevista dele, bateu nos colegas, chamou de covardes, mas não bateu no prefeito. Um líder assim dificilmente vai chegar longe. O povo quer ver um sujeito com firmeza. Mas é meu amigo, é um guri bom.

Gazeta – Pra encerrar: valeu a pena?
Moraes –
Valeu a pena. Aprendi muito, conheço tanta gente. Veja, eu sou um político que encerra a  carreira e que, mesmo sem o diploma de deputado a partir de 1o de fevereiro, se eu quiser falar com o presidente da República ou com o governador do Estado, eu posso, e serei recebido por eles. E a minha voz vai ter força. Se eu precisar ir na Assembleia Legislativa ou lá em Brasília falar com todos os deputados, eu tenho as portas abertas. Não sou um sujeito que sai acuado ou desmoralizado, saio com todas as pompas. Eu já disse tanto para o (Eduardo) Leite quanto para o (Jair) Bolsonaro que, se um dia me encontrarem na antessala deles, só tem duas coisas que eu poderei estar fazendo: ou passando para dar um abraço, ou pedindo alguma coisa para a região. Qualquer cidade onde chego, as pessoas me abraçam, me apertam a mão. E tu acredita que ainda pedem pra tirar foto comigo?  Essas coisas me orgulham, dá uma massageada boa no ego. Vou encerrar em paz e tocar minha vida.