Santa Cruz 05/02/2020 11h03 Atualizado às 14h35

Justiça aceita denúncia e dois vereadores viram réus por “rachadinha”

Investigação feita pelo Ministério envolve Alceu Crestani, do PSDB, e Elo Schneiders, do Solidariedade

A juíza Lísia Dorneles Dal Osto, da primeira Vara Criminal de Santa Cruz do Sul aceitou a denúncia que envolve irregularidades cometidas por dois vereadores. A apuração foi feita pela Promotoria de Defesa Comunitária com base informações que chegaram ao Ministério Público (MP). A partir da aceitação da denúncia, Alceu Crestani, do PSDB, e de Elo Schneiders, do Solidariedade se tornam réus dentro do processo criminal que vai apurar a responsabilidade de ambos.

A denúncia contra Schneiders foi entregue pelo MP ao Poder Judiciário em dezembro. A partir de agora, o vereador e mais três ex-assessores vão responder pelos crimes de organização criminosa, concussão e peculato. As acusações envolvem exigência de salários de pessoas ligadas ao político na Câmara e na Prefeitura além de um esquema de entregas de materiais e prestações de serviços de forma irregular para agricultores. Essas operações seriam, na maioria, bancadas com dinheiro público e, em algumas ocasiões, se valendo de veículos do Município. Além de depoimentos de testemunhas, a denúncia conta com diálogos obtidos por meio de interceptações telefônicas autorizadas.

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Além de Elo Schneiders foram denunciados o ex-subprefeito de Boa Vista, Nelcindo Freese, demitido em fevereiro do ano passado, após um caminhão da Subprefeitura ter sido flagrado ao transportar silagem a uma propriedade particular em Linha Áustria; Leandro Genz, que seria o “braço direito” de Schneiders e foi demitido da Secretaria de Agricultura no início de dezembro; e Amauri Schaefer, assessor particular do vereador.

A outra denúncia criminal aceita pela Justiça atinge Alceu Crestani, do PSDB, acusado de concussão e de peculato. Ele está com os bens bloqueados e é acusado de supostamente exigir parte dos salários de um ex-funcionário da Câmara, além de manter um “assessor fantasma” no gabinete. A investigação teve início em agosto de 2017, a partir de uma denúncia do ex-secretário municipal de Habitação Cornélio Meyer, que é do mesmo partido de Crestani e ocupou um cargo na Câmara entre 2015 e 2016. À Promotoria, Meyer alegou que era obrigado a repassar metade do vencimento ao parlamentar todos os meses. Dentre as evidências apresentadas na ação, estão extratos que mostram saques rotineiros de valores da conta de Meyer logo após os depósitos dos salários.

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Ainda segundo a denúncia, um ex-assessor de Crestani, Júlio César Mahl, não cumpria expediente. O vereador alegou que ele atuava na própria residência, onde recebia demandas de eleitores, mas a investigação concluiu que, na prática, ele dedicava a maior parte do tempo a atividades particulares, embora recebesse salário da Câmara. Mahl também é alvo da ação e teve bens bloqueados pela Justiça.

Agora, Alceu Crestani e Júlio Mahl têm dez dias para se manifestarem dentro da ação criminal. O mesmo vale para Elo Schneiders, Nelcindo Freese, Amauri Schaefer e Leandro Genz.

Terceiro caso

Esse é a terceira denúncia de “rachadinha” na Câmara de Santa Cruz em menos de um ano. Situações semelhantes levaram ao ajuizamento de ações tanto na esfera cível quanto na criminal contra Elo Schneiders (Solidariedade) e Paulo Lersch – que foi condenado pela Justiça e está preso desde o dia 5 de junho e renunciou ao mandato na Câmara. Pelo menos outras duas investigações estão em andamento na Promotoria mas com detalhes ainda não divulgados pelo Ministério Público.

O que dizem os acusados

Alceu Crestani foi procurado pela reportagem mas preferiu não se manifestar. Já o advogado dele, Léo Henrique Schwingel, ressaltou em nota que “em respeito ao Poder Judiciário, as manifestações do cliente serão realizadas exclusivamente no processo, oportunidade em que restará provada a inocência porque a ação é descabida e injusta”.

Elo Schneiders não atendeu as ligações. Já o advogado que representa o vereador afirma que ainda não teve acesso ao processo. Marcos Morsch destaca que não há prova segura de todos os fatos que são alegados pelo Ministério Público. “No meu entendimento a investigação é antiga e foi ‘requentada’ após depoimento do ex-vereador Paulo Lersch, que está preso. Isso precisa ser visto com ressalva”, alega.