Realização 13/06/2018 12h05 Atualizado às 12h36

Aluna de escola pública, santa-cruzense realiza sonho de estudar na Alemanha

Ex-estudante da escola Guido Herberts, de Santa Cruz, aterrissa hoje em Braunschweig, cidade onde vai passar um ano para estudos

Foto: Bruno Pedry

Jovem realiza o primeiro de muitos sonhos: aprimorar o alemão em terra germânica
Jovem realiza o primeiro de muitos sonhos: aprimorar o alemão em terra germânica

Ela trabalhou como caixa de supermercado, atendeu clientes numa pet shop, cumpriu horário em um posto de gasolina e agora conta as horas para aterrissar na Europa. Às 18 horas desta quarta-feira, 13, a santa-cruzense Haanara Silveira, 22 anos, chegará na Alemanha. É o início de um sonho projetado desde a infância. O começo de uma jornada que inclui o estudo da língua alemã e um mundo de descobertas na cidade de Braunschweig, sua nova morada pelo próximo ano.

“Filha” da Várzea, Haanara reviveu uma série de lembranças quando entrou nessa terça-feira em um avião pela primeira vez. Dos dias em que foi obrigada a  caminhar dentro da própria casa com a água até as canelas até os planos arquitetados nos recreios da Escola Municipal Guido Herberts. “Eu venho de um bairro onde a enchente era rotina e carrego a experiência de só ter estudado em escola pública.”

A condição social menos privilegiada, porém, nunca foi empecilho para Haanara, filha de safreira e instalador hidráulico, se acomodar. Focada, formou-se no ensino médio já projetando os estudos lá fora. Foi nesse processo que ela entendeu que a vida é feita de escolhas; por isso abdicou do ingresso imediato no ensino superior para investir no futuro a longo prazo. “Como não poderia fazer faculdade aqui e viajar por questões financeiras, decidi trabalhar para juntar dinheiro e uma hora ir.”  


Jovem deve chegar na Alemanha ainda nesta quarta-feira
Foto: Bruno Pedry

Demorou quatro anos para Haanara concretizar um projeto desenhado devagarinho, desde que assistia às aulas de alemão no ensino fundamental. Em 26 de dezembro do ano passado, encontrou uma antiga professora da Guido. “Ela me disse que o filho estava estudando na França e aquilo me ‘pegou’. Logo pensei: está na hora de eu tentar a vida fora.” Dois meses se passaram e a jovem encontrou outra professora, agora a que ensinara as primeiras lições em “deutsch”, Luciana Vogt. “Estava trabalhando no supermercado e encontrei a Lu. Logo falei: quero fazer um intercâmbio e retomar as aulas de alemão contigo.” Não tardou para o universo conspirar a favor dos sonhos de Haanara.

Enquanto aprimorava os conhecimentos no idioma, ela foi chamada para morar em uma casa de família, cuidar dos filhos e estudar alemão. Trata-se do programa Au Pair. “Foi tudo muito rápido. Encaminhei passaporte, entrei em contato com a família, consegui o visto e agora estou indo. A ficha demora para cair”, disse à espera do embarque.

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Relembre

Em abril de 2017, a Gazeta do Sul publicou uma reportagem sobre as possibilidades profissionais que a aprendizagem da língua alemã traz a jovens e adultos. Mostrou, inclusive, a história do passo-sobradense Davi Coswig Zell, que só foi contratado pela Elbe do Brasil – com sede em Bietigheim-Bissingen (Alemanha) – por apresentar fluência no idioma.

A professora Luciana Vogt, que ajuda a enviar, em média, oito alunos por ano à Alemanha, afirma que o intercâmbio é hoje um plus para jovens e adolescentes. “Estar em contato com outra cultura e aprender a conviver com as diferenças é, sem dúvidas, uma qualificação profissional que os deixa preparados para o mercado de trabalho.” Não é por menos que se orgulha ao lembrar de outros alunos de escolas públicas municipais (todas com o alemão na grade curricular) que incentivou a viajar e hoje vivem essa experiência no país europeu. “É provar que todos têm a oportunidade. Inglês é obrigatório, mas o Deutsch ist ein +: o alemão é mais”, conclui.

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“Quero ser exemplo”, diz a estudante

Não foram poucas as vezes em que Haanara Silveira se deparou com comentários negativos frente à sua vontade de viajar. “Teve muita gente que me disse que era loucura, que eu não ia conseguir. Mas eu insisti.” Ainda que não tenha recebido incentivos desde cedo para mergulhar na cultura germânica, ela escolheu a Alemanha em razão da história desse país e do seu desenvolvimento.

Basta conversar alguns minutos com Haanara, aliás, para perceber que ela não pensa pequeno. Mesmo que a jornada no velho mundo esteja só começando, ela adianta: quer mais. Leva junto na mala não só a vontade de mergulhar nas descobertas do Velho Mundo, mas a ambição de estudar comunicação em alguma universidade da Alemanha. “Aprendi que é preciso acreditar nos sonhos e se jogar.”

É assim que a santa-cruzense também almeja ser uma inspiração. Quando voltar para visitar a família, Haanara pretende visitar as turmas da Escola Municipal Guido Herberts, falar de onde veio e mostrar que o mundo é muito grande para se acomodar. “Se o governo hoje não proporciona grandes incentivos, que tenhamos força de vontade e façamos por nós mesmos”, conclui.

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Sobre o Au Pair

Conforme a professora de alemão e proprietária da escola Deutsche Schule, Luciana Vogt, para trabalhar como Au Pair na Alemanha, é preciso ter entre 18 e 26 anos e conhecimento básico da língua (Nível A1). Nesse programa, que dura de seis a 12 meses, o intercambista recebe da família hospedagem, alimentação e todo o suporte para se virar lá fora.

A contrapartida é o auxílio nos afazeres da casa, uma responsabilidade que não excede mais do que seis horas diárias e abrange o cuidado das crianças aliado a algum trabalho caseiro leve. O intercambista também recebe uma espécie de mesada, que irá ajudá-lo nos custos extras.  É com essa graninha que Haanara planeja viajar Europa afora. Mas antes vai se ambientar em Braunschweig.