Quanta história 07/07/2018 02h19 Atualizado às 15h50

União da Júlio completa 95 anos de resistência

Festa na noite deste sábado vai destacar esses quase cem anos em defesa da cultura afro em Santa Cruz do Sul

Histórias dos mais velhos e planos dos mais novos se cruzam entre as paredes de um salão em reformas na Rua Júlio de Castilhos, 1.585. Gerações lembram dos carnavais, do batuque da bateria e de uma luta sempre tão pertinente, tão presente: a representatividade negra. Em festa, a Sociedade Cultural Beneficente União comemora neste sábado 95 anos de existência, e convida os santa-cruzenses a participarem da celebração. Vai ter feijoada, samba e a alegria característica de uma comunidade que, mesmo sem Carnaval, dá o jeito de fazer o seu. “Nosso nome é resistência”, resume Vilma Nunes, uma das sócias mais antigas do clube.

O Uniãozinho criou muitos “filhos e filhas” e uma dessas herdeiras que receberam como missão disseminar a cultura afro é a hoje diretora de comunicação, Cíntia Luz. Aos 39 anos – todos vividos dentro do Clube –, ela sabe dos desafios que a Sociedade tem pela frente. E não nega trabalho. Com o apoio de uma diretoria formada 100% por mulheres (lá o feminismo também é uma bandeira), resgata a função beneficente do clube. Não é à toa que, ao lado da diretora cultural e educacional, Marta Nunes, organiza um cursinho popular. Se tudo der certo, alunos que almejam obter aprovação em concursos públicos ou no próprio Enem terão no Uniãozinho acesso a uma grade de estudos gratuita a partir de agosto.

"Sempre tivemos como lema esse trabalho social. A ideia é trazer isso cada vez mais forte aqui para dentro”, diz Cíntia.  
O desejo de mostrar que todos têm o mesmo potencial – basta que o acesso seja oportunizado – caminha lado a lado com outra batalha fortificada lá dentro: impedir que a cultura afro seja apagada em uma terra com raízes predominantemente germânicas. “Não é ressentimento. É só mostrar a nossa existência. Ajudamos a construir a identidade da região, assim como as demais culturas”, complementa.  

Foi no colo da mãe, a presidente do clube Maria Barreto, e no meio das prosas da velha guarda, que as promessas do clube, Cíntia e Marta, lapidaram essa força. Dona Eva Garibaldi e seu Adão Francisco Pedroso foram alguns desses “professores”. “Não podíamos entrar nos clubes do Centro porque somos negros. Então, aqui era o nosso lugar”, lembra Adão. “E quando entravam, era pela porta dos fundos, só porque a bateria da escola ia se apresentar”, complementa Cíntia, que também estuda a temática negra no mestrado em Desenvolvimento Regional da Unisc.

Foto: DivulgaçãoIsolina Pedroso, a mãe do seu Adão, foi eleita a rainha do clube em 1935. Isolina Pedroso, a mãe do seu Adão, foi eleita a rainha do clube em 1935.

Samba mais feijoada!

O aniversário do Uniãozinho vai ser comemorado neste sábado, a partir das 20h30, na sede do clube, na Rua Júlio de Castilhos, 1.585. Os ingressos podem ser adquiridos na hora pelo valor de R$ 20,00.

A casa está aberta

O cenário em que se mantém o clube vai ao encontro do que a diretora cultural e educacional, Marta Nunes, a filha da dona Vilma, relaciona com visibilidade e permanência ativa. “Os clubes sociais negros também tinham esta função frente a uma sociedade branca racista que sempre associou a imagem do negro à falta de competência.” Quase cem anos depois, é essa história que mobiliza e faz muita gente se orgulhar. “Só o fato de o clube ter chegado até aqui, aberto, se renovando, sem esquecer da sua missão – o trabalho da cultura negra –, já é uma vitória.”

A data oficial de aniversário do clube fundado por João Lopes, Juvenal Bibiano e Romualdo Teixeira é 1º de julho. À época, a entidade foi idealizada para abrir espaços de integração e divertimento aos negros, já que seu ingresso nos clubes “centrais” era vedado. Dessa alternativa, criou-se uma grande família: os Nunes, Garibaldis, Barretos, Santos e quem mais quiser. A casa está aberta.  

Foto: DivulgaçãoE o seu Adão, no tradicional Carnaval de rua da Marechal Floriano:todo estiloso! 
E o seu Adão, no tradicional Carnaval de rua da Marechal Floriano: todo estiloso!

Descida da Júlio: Carnaval feito com as próprias mãos

Se não tem Carnaval, o Uniãozinho dá um jeito de colocar a sua bateria para ser ouvida em outra festa. É por isso que organizou nos últimos dois anos a Descida da Júlio. Trata-se de uma caminhada animada pelas ruas centrais cujo foco é manter a chama dessa festa popular bem acesa no município. “O Carnaval é a hora em que a empregada doméstica é a rainha e o operário e o pedreiro são os mestres. Não pode parar!”, diz Cíntia. O evento, que em 2018 chegou a sua segunda edição – e com ainda mais adeptos –, tem caráter de protesto pela ausência do Carnaval por aqui. A passeata acontece em parceria com a Associação das Entidades Carnavalescas de Santa Cruz do Sul. “E vai ter mais”, adianta Cíntia.

Projetos focam na cultura afro

Em meados de fevereiro, representantes do SCB União organizaram um projeto cujo foco foi arrecadar valores para levar crianças carentes da cidade para assistir ao longa-metragem Pantera Negra no cinema. A iniciativa, conforme Cíntia Luz, foi um sucesso e teve como intenção mostrar aos pequenos um filme de heróis com elenco e produção majoritariamente negros. “A maneira como o filme retrata o continente africano, as mulheres e os guerreiros, o país Wakanda sem a influência dos colonizadores, é incrível. Estão presentes no filme a filosofia africana dos antepassados, com uma mensagem positiva, de que a tecnologia não exclui a tradição e ancestralidade do povo”, disse Cíntia Luz, na época da mobilização. A intenção é que mais projetos como esse – entre eles, peças de teatro de contos afro, leitura e produção de textos e oficinas de percussão – sejam cada vez mais latentes e mobilizem os membros do Uniãozinho.

Foto: DivulgaçãoOlha dona Vilma Nunes na conhecida Ala das Malandras. “Só tinha nega bonita”,lembra.
Olha dona Vilma Nunes na conhecida Ala das Malandras. “Só tinha nega bonita”, lembra.
 

Reforma

Com a ajuda de doações da comunidade e serviços braçais feitos com auxílio dos próprios membros, o clube também corre para reformar o prédio. Banheiros e pintura já foram feitos. Agora resta a fachada, que precisa de uma forcinha para ficar nos trinques, assim como o clube merece. Interessados em auxiliar com o clube podem entrar em contato pelo telefone (51) 98595 2096.

Foto: DivulgaçãoUma das principais atividades do clube em meados dos anos 70 era o esporte.
Uma das principais atividades do clube em meados dos anos 70 era o esporte.