Vida 08/09/2018 00h20 Atualizado às 15h23

Setembro Amarelo: precisamos falar sobre suicídio

Existe um problema silencioso, porém cruel, que paira sobre centenas de famílias de Santa Cruz do Sul e região: o suicídio

Existe um problema silencioso, porém cruel, que paira sobre centenas de famílias de Santa Cruz do Sul e região: o suicídio. Ao lado de Venâncio Aires, o município é um dos que tem índices acima da média, o que chama atenção das autoridades e de pesquisadores da área da saúde.

Às vésperas do 10 de setembro, instituído pela Organização Mundial da Saúde como a data para chamar a atenção para a questão e as formas de prevenção, a Gazeta do Sul conta, nesta reportagem, o drama vivido pela jovem Monyque Schmidt, hoje com 24 anos, mas que aos 19 tentou tirar a própria vida. O depoimento dela destaca duas convicções, compartilhadas por quem estuda e convive com o problema. Suicídio não é solução para os problemas e, quem fala nisso, não está apenas querendo chamar atenção.

Ficar atento ao comportamento de pessoas próximas e, em caso de alteração brusca, procurar ajuda imediatamente é a melhor saída. Veja o que fazer e a quem recorrer ao enfrentar esta situação.

LEIA MAIS

 

“Não é a solução”

Chovia na tarde de 6 de novembro de 2014 em Venâncio Aires quando Monyque Schmidt decidiu acabar com a própria vida. Poucos dias antes de comemorar o aniversário de 20 anos, a jovem não suportou o peso das frustrações que vinha sentindo. A vida profissional e pessoal não ia para a frente. Monyque tentava passar em uma universidade federal e não estava satisfeita com o emprego que tinha. Queria mudar, mas não conseguia. Pequenas coisas faziam a jovem brigar com os familiares e se isolar cada vez mais.

Decidida, planejou tudo naquele dia. Encontrou a arma do pai, registrada, e atirou contra o próprio peito, num ato desesperado. O tiro, no entanto, não acabou com a vida de Monyque, mas foi responsável pelos obstáculos que ela teria de superar. A bala atingiu uma vértebra e a medula óssea da garota de então 19 anos, que ficou sem os movimentos das pernas.

O processo entre as frustrações e a decisão de Monyque foi complicado. Ela chegou a recorrer à irmã, psicóloga, quando percebeu que algo estava errado. A distância geográfica, no entanto, impediu que a irmã mais velha desse a ajuda que a caçula precisava. “Eu não conseguia enxergar as coisas por outro ângulo. Queria mudar a minha vida e não conseguia”, conta Monyque. Quando as mensagens da irmã começaram a incomodar, a jovem mentiu. Disse que estava bem.

“Tudo pesava, eu nunca tinha sentido isso na minha vida. Eu não tinha nem vontade de levantar da cama e ainda assim eu queria fazer tudo ao mesmo tempo. As coisas que eu sentia eram horríveis.” A dor desde a morte do avô, dois anos antes, não havia passado. “Não ter meu avô para conversar era muito difícil. Na casa dos meus avós era onde eu me sentia diferente. Depois disso eu me fechei.” Se fechou tanto que se afastou dos amigos. As atividades que antes amava já não tinham muito sentido.

Mas nem só de dor foi construída a decisão: foi de medo também. “Eu tinha na minha cabeça que se falasse para alguém que estava com vontade (de cometer suicídio), as pessoas iriam me julgar, diriam que estava de frescura, que queria chamar atenção. E meu objetivo não era esse, era só acabar com a minha dor. Eu achava que era um problema para todo mundo. Pensava que minha família ia ficar melhor sem mim.”

Foi só depois de tentar acabar com tudo que Monyque percebeu que era amada. A jovem conta que ficou lúcida enquanto era resgatada – por isso, conseguiu ver o desespero dos familiares. “E isso me fez ver, por mais triste que fosse, o quanto eu era amada, ver que eu não era um problema.”

A recuperação física em si teve também como degrau a adaptação com a cadeira de rodas. “A recuperação foi mais fácil do que parece. Quando fui fazer reabilitação, em Brasília, convivi com muitas pessoas iguais a mim, tive outra perspectiva de sofrimento. Eu vi que podia ter uma vida normal”, conta Monyque.

Quatro anos depois, ela leva uma vida normal, com independência, muita superação e um sorriso largo no rosto. Hoje, a venâncio-airense busca conscientizar outros jovens sobre o suicídio, afirmando com toda certeza que “não é solução”. “A cabeça das pessoas ainda é muito fechada sobre isso. Eu sempre digo que não se compara uma dor à outra. Todo mundo tem o direito de sofrer. Ninguém sabe o que aquela pessoa viveu ou está vivendo.” Por isso, o julgamento só piora o quadro de quem está sofrendo.

O que fazer

É comum ficar assustado quando alguém próximo dá sinais de que quer acabar com a própria vida ou diz isso abertamente. É fundamental tomar alguns cuidados:

Escute
Esse é o primeiro passo e um dos mais importantes. Naquele momento, a pessoa que pensa no suicídio precisa falar sobre suas frustrações e colocar para fora os sentimentos ruins.

Não dê opiniões
Mais importante do que falar, neste momento, é ouvir. Opiniões podem atrapalhar.

Não julgue
Se a pessoa não se sentir acolhida por você, ela não irá mais falar – e o desfecho pode ser muito pior. Portanto, não julgue o seu familiar ou amigo, tente entendê-lo e, acima de tudo, respeite a dor que ele está sentindo.

Não repreenda
Repreender a pessoa que está se sentindo mal não irá ajudá-la. Frases como “tente olhar o lado positivo” ou “você está exagerando” poderão, ainda por cima, piorar a situação.

Mantenha contato
Mostre que você está ali e fique de olho para possíveis crises.

Fique atento
Caso você ache que a pessoa está em risco iminente, entre em contato com o serviço de emergência.

Ajude
Além de ouvir, oriente a pessoa que tem pensamentos suicidas a procurar ajuda profissional, seja no serviço público ou clínicas de psicologia privadas. É importante que um profissional preparado ajuda o seu familiar ou amigo nesta situação.

A prevenção

Tabu, o suicídio ainda é rodeado de mitos. Conforme a psicóloga e professora da Unisc, Alba Regina Zacharias, é necessário que estas crenças sejam esquecidas, embora o trabalho seja árduo. “É preciso falar sobre o suicídio nas escolas, nas famílias, nas faculdades, nas empresas. Falar, falar, falar. Até que as pessoas vejam que existe saída.” A prevenção, também no ponto de vista de Monyque Schmidt, deve ser feita através do diálogo e da ajuda. “O que eu diria para alguém que pensa em tirar a própria vida é: respire fundo e procure ajuda, porque não tem coisa pior no mundo do que sofrer sozinho. Não precisa ter medo de procurar ajuda. Não é porque a gente quer. Não é uma frescura, não é um exagero. As pessoas não querem só chamar atenção”, garante.

Justamente para promover a conscientização, foi criada a campanha Setembro Amarelo. Em 2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também instituiu o 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Assim, durante todo o mês são planejadas e organizadas em todo o mundo ações de prevenção.

A psicóloga Alba lembra que a família e amigos devem ficar atentos a sinais de que a pessoa não está bem. Acima de tudo, é importante olhar para o outro, praticar a empatia. Um dos principais alertas, conforme a profissional, é a mudança de comportamento. “A pessoa sempre gostava de se arrumar, gostava do trabalho. De repente se descuida da aparência, do trabalho, das suas relações. Fica diferente e não fala o que é. Alguma coisa está acontecendo. E muito grave. Às vezes o gatilho pode ser uma coisa mínima”, pontua. É importante, de acordo com Alba, questionar as mudanças e procurar um profissional caso os sinais sejam verificados.

Números que assustam

Nos municípios do Vale do Rio Pardo e Centro-Serra, o número de notificações de tentativas de suicídio aumentou consideravelmente entre 2013 e 2017, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Conforme o psiquiatra Ricardo Nogueira, a estimativa da Associação Brasileira de Psiquiatria é de que as tentativas de suicídio superem pelo menos dez vezes o número de óbitos. “Atualmente o suicídio é a terceira causa de morte na faixa dos 15 aos 35 anos e, nas últimas décadas, tem aumentado o percentual entre os jovens em todo o mundo.”

Para o psiquiatra, é preciso investigar as causas que estão relacionadas com o aumento do número de suicídios entre os jovens, o que ele define como “a baixa resiliência às frustrações”. Segundo a psicóloga Alba Zacharias, é justamente na forma de lidar com estas decepções que está o problema. “Os jovens têm essas pressões sociais. Têm aquela idealização: ‘Ah, com 25 anos eu quero estar assim’. Não é uma realidade, essa exigência deixa a pessoa muito insegura. Mas ainda tem a questão do relacionamento, da autoestima. Também é um horror cobrar do jovem com 18 anos decidir o que quer fazer da vida”, comenta.

O suicídio no Vale do Rio Pardo também foi objeto da tese de doutorado da enfermeira e professora Rosylaine Moura, defendida em agosto de 2016 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Para a doutora, o comportamento suicida é um fenômeno humano muito complexo para que se indique uma única causa. “São vários fatores que contribuem para que ele ocorra. Atualmente há uma tendência de se creditar todos os comportamentos suicidas a doenças psiquiátricas individuais, especialmente a depressão.”

Na região, conforme Rosylaine, o elevado número de suicídios pode estar ligado à cultura de colonização. “As taxas elevadas de suicídio nesta região, comparáveis as maiores do mundo, podem ser explicadas pelo ‘caldo de cultura’ existente aí, que inclui a cultura alemã pautada na rigidez de conduta pessoal, familiar e social; dificuldade de lidar com frustrações e expressar sentimentos; projeto de vida pautado no acúmulo de bens materiais e na demonstração de posse como sinônimo de sucesso”, explicou.

Foto: Gazeta do Sul

 

Violência

Além de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, outros aspectos estão ligados aos casos de suicídio. Conforme a coordenadora do Comitê Municipal de Prevenção do Suicídio de Santa Cruz, Marliza Schwingel, um estudo da Vigilância Sanitária do Estado, chamado de Observatório do Suicídio, concluiu que a violência é um dos grandes fatores relacionados aos casos registrados em 2016 na região da 13ª Coordenadoria Regional de Saúde.

Dos 31 casos de suicídio estudados pela equipe, 23 estavam ligados à violência. Destes, sete vítimas haviam sofrido violência durante a vida, nas suas mais diversas formas (emocional, física, verbal, psicológica e outras). Ainda entre os 23, outros sete que tiraram a própria vida eram agressores. Nove casos atendiam às duas tendências: foram agredidos e agrediram. “A violência pode gerar violência, até o atentado contra a própria vida. É um ciclo.”

A partir da chamada autópsia psicossocial, o comitê definiu a violência como tema das ações do Setembro Amarelo deste ano. “É uma das raízes do suicídio.” Durante as ações no município acontecerão atividades voltadas aos profissionais da saúde, além de escolas e da comunidade em geral. O objetivo é conscientizar e, segundo Marliza, mostrar que a sociedade precisa ser “intolerante com o suicídio”.

Além da violência, o uso de substâncias psicoativas, como explica a psicóloga Alba, também está diretamente ligado ao suicídio. Muitas vezes, as drogas são utilizadas como uma espécie de fuga da dor e dos problemas. “Mas essa fuga vai ter uma consequência. O suicídio é um problema silencioso, que pode acometer qualquer um.”

Ajuda!

Centro de Valorização da Vida (CVV)
Ligue 188

Samu
Ligue 192

Centro de Atenção Psicossocial Infância e Adolescência (Capsia)
Rua Presidente Rodrigues Alves, 729 
(51) 3715-2079

CAPS II
Rua Venâncio Aires, 311
(51) 3713-3077

CAPS AD III
Rua Marechal Floriano, 1592
(51) 3713-3103

Coordenação de Saúde Mental
Rua Venâncio Aires, 311 (2º andar)
(51) 3717-6307