Sem fumaça 15/09/2018 01h40 Atualizado às 08h44

Philip Morris: futuro sem cigarro não significa futuro sem tabaco

Apesar da estratégia global da Philip Morris de buscar produtos de risco reduzido, produção de tabaco não deve ser afetada

Anúncios publicados no início deste ano no Reino Unido trouxeram preocupação ao Vale do Rio Pardo. Isso porque nas peças, a Philip Morris, que mantém uma das suas mais modernas fábricas em Santa Cruz do Sul, dizia que pretende deixar de vender cigarros tradicionais e substitui-los por um dispositivo de risco reduzido.

À primeira vista, a informação levantou dúvidas acerca do futuro da fumicultura. Afinal, a companhia é a maior fabricante de cigarros do mundo e uma boa parcela da matéria-prima utilizada é proveniente do Brasil. Além disso, outras empresas devem seguir por caminhos semelhantes. Passados alguns meses, a multinacional vem reforçando o discurso em torno da mudança, que está alinhada com a proposta global de um “futuro sem fumaça”.

Enquanto concentra esforços a fim de obter regulamentação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para dar andamento ao seu objetivo, a companhia amplia as estratégias focadas no desenvolvimento sustentável por meio de projetos que envolvem, por exemplo, a gestão e o aproveitamento das águas. Foi o que demonstrou a vice-presidente de Assuntos Corporativos para a América Latina e Canadá da Philip Morris International, Gabriela Wurcel. Participante do Congresso Brasileiro sobre Desenvolvimento Sustentável (Sustentável 2018), realizado terça-feira em São Paulo, ela disse que a meta, apesar de ousada, é necessária e precisa ser implementada o quanto antes. “Se imaginarmos três produtos que se deveria eliminar da face da terra, o cigarro seria um deles? A resposta é sim! Portanto, está na hora de agir”, afirmou. “Estamos conscientes de que fumar faz mal”, completou a executiva.

Na caminhada pela disruptura do atual modelo de negócios, a multinacional recorreu à pesquisa na busca de tecnologias. Já foram investidos cerca de US$ 5 bilhões em inovação e desenvolvimento. E graças a este esforço, chegou ao Japão em 2014 o IQOS, um dispositivo de tabaco aquecido que não emite fumaça, um dos principais efeitos nocivos do cigarro e responsável pela emissão de componentes tóxicos. Hoje disponível em pelo menos 22 países, o aparelho desenvolvido na Suíça deve atingir novos mercados até o fim do ano, segundo a companhia.

No caso do Brasil, além dos entraves burocráticos, o desafio da mudança, conforme Gabriela, é a conscientização a respeito do que vem sendo proposto. “Está claro que haverá um deficit de confiança no começo, mas a transparência é o que podemos fazer de melhor para esclarecer. Estamos à disposição para estabelecer o diálogo”, afirmou para a plateia que lotou o Teatro Santander.

Antes de participar do painel Que sociedade nossos negócios estão construindo, a argentina Gabriela Wurcel, que atualmente vive em Nova York, afirmou à Gazeta do Sul que, apesar de tudo, o tabaco segue como matéria-prima. Ao lado do diretor de Assuntos Corporativos da multinacional, Fernando Vieira, ela deixou claro que um futuro sem cigarro não significa um futuro sem tabaco. Além disso, eles destacaram a importância da fábrica santa-cruzense no cenário global e as ações desenvolvidas diretamente com os produtores.

Entrevista

Foto: Divulgação

Fernando Vieira - Diretor de Assuntos Corporativos da Philip Morris Brasil
Gabriela Wurcel - Vice-presidente de Assuntos Corporativos para a América Latina e Canadá da Philip Morris Internacional

 

Gazeta do Sul – Qual o desafio da Philip Morris diante da inserção de um produto que chega para substituir o cigarro no mercado global? Isto pode representar uma mudança, tanto em termos de mercado como de produção?

Gabriela Wurcel – A Philip Morris está comprometida com um futuro sem fumaça. Isso quer dizer que queremos deixar de vender cigarros o quanto antes possível. E para as pessoas que seguirem fumando, estes produtos (no caso o IQOS) representam uma melhor alternativa. É um desafio, uma mudança disruptiva no modelo de negócios da empresa. Estamos mudando um modelo exitoso por outro baseado num produto novo que acabamos de inventar com a mais sólida tecnologia. Acreditamos que esta é uma das maiores contribuições que podemos dar para a sustentabilidade do planeta, como também para nosso negócio e a sociedade em geral.

Gazeta – Quais as expectativas para um mercado de tamanha importância econômica, tendo em vista que o objetivo, neste momento, está diretamente ligado a aspectos de caráter sustentável e ainda não há liberação no Brasil?

Gabriela – Esses produtos não existiam quando a regulação do tabaco foi criada no mundo. É uma inovação. A inovação vem primeiro, a regulação vem depois. Então agora estamos trabalhando em parceria com as autoridades e sociedade civil para tornar esse futuro sem fumaça uma realidade.

Gazeta – O futuro sem fumaça requer uma série de mudanças e adaptações como já vêm ocorrendo. No caso do mercado de tabaco, em especial da produção, qual seria o impacto?

Gabriela – É importante deixar claro que um mundo sem fumaça não quer dizer um mundo sem tabaco. Esses produtos novos utilizam tabaco que, ao ser aquecido e não queimado, emite uma quantidade drasticamente menor de componentes nocivos que a fumaça do cigarro.

Gazeta – E como a empresa tem atuado para estimular ações de caráter sustentável, em especial junto aos produtores brasileiros?  

Fernando Vieira – Neste cenário, a Philip Morris mantém uma série de programas com os produtores de tabaco, como as práticas agrícolas. Estes programas sempre acompanharam os agricultores e a ideia é que continuem e vão se adaptando à realidade futura. O que podemos falar no curto e no médio prazo é que não imaginamos que vá ter mudanças significativas na produção. Em relação ao futuro, é muito especulativo falar isso.

Gazeta – Embora ainda se aguarde regulamentação da Anvisa para produção e venda do IQOS no Brasil, quais seriam os planos em relação à fábrica de Santa Cruz do Sul?

Vieira – A fábrica da Philip Morris de Santa Cruz é uma das mais completas do mundo. Ela tem todos os processos, desde a semente até a exportação de cigarro. No futuro, imaginamos que à medida que estes novos produtos avancem na América Latina, nós vamos ter provavelmente a produção deles em algum lugar nesta região e o Brasil pode ser um candidato, no futuro, a manufaturar este novo produto. Independente do que for produzido, Santa Cruz do Sul faz parte da nossa história há 45 anos.

Gazeta – Em havendo regulamentação do novo produto pela Anvisa e sua liberação no mercado nacional, em quanto tempo haveria toda esta mudança que vem sendo programada pela empresa, de parar de vender cigarros?

Gabriela – Nosso objetivo como empresa é chegar a um mundo sem fumaça no menor tempo possível. O Brasil é um país que está na vanguarda do controle do tabaco. Estamos seguros que este marco regulatório será baseado na ciência muito sólida e pública que vem sendo validada pelas autoridades. Então estamos seguros de que é uma questão de tempo.

Gazeta – Quanto aos investimentos, o que vem sendo feito?

Vieira – Em nível global já foram investidos quase US$ 5 bilhões em ciência e tecnologia. Existem investimentos de cerca de US$ 1,5 bilhão em conversão de fábricas em países como Alemanha e Grécia. Ainda há outros projetos. Para o Brasil é cedo para falar em mudanças. A fábrica de Santa Cruz é relevante, independente do tipo de produto que venha a fazer.

Boas práticas nas lavouras e na indústria

Hoje a Philip Morris Brasil (PMB) atua desde a compra direta do tabaco de mais de 6 mil produtores na região Sul, exportado para vários países, até a operação de uma das mais completas e modernas fábricas de cigarro da empresa em todo o mundo.

Neste processo, a empresa passou a adotar uma política global de boas práticas junto aos produtores com foco na promoção de condições de trabalho adequadas e seguras. Um exemplo é o programa de Práticas de Trabalho Agrícola (ALP).

Por meio de treinamento contínuo, monitoramento e ações específicas – seja com o uso da tecnologia, pelo Portal do Produtor ou pessoalmente, com o Programa +Campo –, o programa vem atingindo importantes resultados quando o assunto envolve produção.

Dentro desta política são também contempladas ações com o objetivo de auxiliar os agricultores a obterem ganhos de produtividade e a diversificar suas culturas, incrementando a renda familiar, assim como questões relacionadas ao meio ambiente, como redução de emissões de carbono, preservação da água, conservação da biodiversidade e combate ao desmatamento.

Foto: Rodrigo AssmannEmpresa investiu R$ 113,5 milhões na nova fábrica de Santa Cruz, inaugurada em 2013
Empresa investiu R$ 113,5 milhões na nova fábrica de Santa Cruz, inaugurada em 2013

 

Pelo meio ambiente

Globalmente, a Philip Morris International estabeleceu o Science based target para reduzir suas emissões de carbono, em linha com o acordo de Paris. Em 2017, a empresa alcançou uma redução de 31% em todas as emissões, superando a meta inicial de 30% até 2020. Além disso, a empresa faz parte das listas A do CDP (Carbon Disclosure Project), tanto para clima como para água, como reconhecimento dos seus esforços em relação às mudanças climáticas e administração de recursos hídricos, sendo uma das 25 empresas do mundo que obtiveram nota A nas duas áreas.

A fábrica da PMB localizada em Santa Cruz foi a primeira do Brasil e da América Latina a receber a certificação concedida pela Alliance for Water Stewardship (AWS). O documento leva em conta não apenas o uso racional da água nos processos internos, mas também as iniciativas que a empresa mantém junto à comunidade, incluindo a preservação das bacias hidrográficas e as necessidades da comunidade do entorno. Este é o caso do programa Protetor das Águas, executado em parceria com produtores de tabaco do Vale do rio Pardo.

Por meio do uso sustentável, a empresa reduziu em mais de 30% o volume de água utilizado para a fabricação de cigarros entre 2010 e 2017. No ano passado, mais de 30 mil metros cúbicos de água passaram por tratamento antes de retornar ao meio ambiente e outros 9 mil metros cúbicos foram reutilizados no próprio sistema produtivo. Para este ano, a meta é alcançar uma nova diminuição de 2,8% no consumo.

Na área da educação, uma série de projetos desenvolvidos em Estados da Região Sul desde 2011 também beneficiaram mais de 2 mil alunos nos últimos anos, a maioria deles filhos de produtores.

Para entender

No caminho para substituir o cigarro tradicional e ainda colaborar com o meio ambiente, a Philip Morris desenvolveu o dispositivo batizado de IQOS. Nele, é introduzido um aquecedor do tamanho de uma caneta que contém um bastão de tabaco chamado de heets. A partir de um sistema eletrônico o tabaco é aquecido a uma temperatura de 350 graus. Como não há queima, ao invés de fumaça é gerado vapor de nicotina.

Ao final, o bastão de tabaco permanece intacto sem gerar cinza ou qualquer outro tipo de resíduo. Todo o processo leva em torno de seis minutos e rende até 14 tragadas. No Brasil, o IQOS ainda não está à venda. Na Europa, o aparelho custa em torno de 70 euros, algo na faixa dos R$ 350,00. Uma caixinha com os heets tem preço semelhante ao do cigarro convencional.

Grandes empresas se unem pelo desenvolvimento sustentável

Um compromisso em torno do desenvolvimento vem aproximando algumas das maiores empresas presentes no Brasil. Este foi o tema central do Congresso Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável. Com o desafio de discutir qual o País que as empresas e seus modelos de negócio estão construindo, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) colocou lado a lado dirigentes de algumas das suas principais associadas, como Banco Santander, Shell, Ambev, Vestas, BRK Ambiental e Siemens, assim como diretores da Philip Morris, Vale, Itaú e Natura, para debater o que vem sendo feito neste cenário que envolve bilhões de reais e milhares de empregos todos os anos.

Entre os painelistas o consenso é de que, apesar de o tema ter adquirido visibilidade e espaço nos últimos tempos, o setor privado e a sociedade devem fazer sua parte. Os primeiros, investindo e buscando práticas que reduzam os impactos e assegurem a manutenção dos negócios em um mercado altamente competitivo. À população, hoje mais atenta ao seu papel como consumidora, caberia o compromisso de atentar às práticas cotidianas – reciclar, usar menos o carro ou buscar fontes de energia renovável.

Durante o evento, que reuniu a mais alta de liderança de grandes empresas brasileiras – responsáveis por gerar mais de 1 milhão de postos de trabalho –, foi apresentada a Agenda Cebds por um País Sustentável. O documento contém dez propostas elaboradas pelos CEOs das próprias empresas associadas à organização e destinadas aos candidatos à Presidência da República. Aumento da participação de fontes renováveis na matriz energética, segurança hídrica, expansão do saneamento básico, soluções para transição a uma economia de baixo carbono, mecanismos financeiros de estímulo a práticas sustentáveis e equidade de gênero no mercado de trabalho são alguns dos temas abordados.

“Independentemente da polarização e das paixões políticas, o momento das eleições é para questionarmos: para onde estamos indo? Essa crise tem solução? Tem algo que eu possa fazer?”, provocou a presidente do Cebds, Marina Grossi, destacando que a transição para um modelo de desenvolvimento sustentável depende de todos.

Foto: DivulgaçãoMarina: momento para unir esforços
Marina: momento para unir esforços

Nota: O jornalista viajou a convite do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds)