Vimos de perto 22/05/2019 23h30 Atualizado às 08h11

Nenéu passa mal e espera 40 minutos por socorro

Figura pitoresca da cidade aguardou mais de meia hora por ambulância. Cortes nas ligações seriam a causa da demora

O relógio marcava 13h45 dessa quarta-feira quando percebemos a cena. Percorríamos o Bairro Santo Inácio, para entrevistar moradores sobre o número de casos notificados de dengue naquela área de Santa Cruz do Sul. Ao chegar na Rua Conselheiro Trockel, um aglomerado de moradores chamou nossa atenção. Estavam todos em volta de uma cadeira, onde um homem chorava, reclamando de muita dor. Ao chegar mais perto percebemos que a pessoa sentada era uma das figuras mais populares de Santa Cruz: o Nenéu.

Ele se queixava de dores fortes no abdômen e peito. Os moradores relataram que já esperavam há meia hora pela ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O telefonema à regulação do Samu, pelo 192, teria caído e ninguém retornou, enquanto Nenéu continuava chorando. “Ajuda eu tio, eu quero a minha mãe”, dizia ele.

A situação parecia grave e tentamos uma nova chamada para o Samu. A ligação telefônica logo foi completada, no entanto, a regulação com o médico, último passo antes do deslocamento da ambulância, não ocorreu. Após mais sete minutos de espera, a nossa chamada caiu, sem chegar à resolução. Nenéu continuava chorando e reclamando de dores entre o peito e a barriga; e ninguém tinha coragem de sair dali e deixá-lo sem amparo.

Em busca de socorro, ligamos então para o secretário municipal de Saúde, Régis de Oliveira Júnior. Foi uma ação fora dos protocolos, mas desesperada, uma necessidade de emergência. Talvez até um reflexo da emoção se sobrepondo à razão, como talvez muitos fariam ao ver alguém querido passando mal. Nunca passamos por um aperto destes.

Além disso, tínhamos diante de nós um doente que é quase como um membro da família santa-cruzense. Não nos perdoaríamos se algo de ruim acontecesse a Nenéu, porém, descartamos a possibilidade de transportá-lo em um carro comum, sem conhecimento e aparatos médicos. De idade avançada – que ninguém sabe ao certo –, queixando-se de mal-estar e dores que ora eram no peito, ora na barriga, Nenéu poderia estar sofrendo um infarto.

Ao telefone, o secretário Régis entendeu a angústia, perguntou nossa localização e garantiu: “Já estaremos chegando aí.” Passava das 14 horas quando escutamos a sirene do Samu. Após a chamada feita ao secretário, a ambulância não levou dez minutos para chegar até o local, e Nenéu foi levado na maca, ainda chorando, ao veículo.

Tem gente que dá cachaça para ele, por brincadeira
Quando Nenéu entrou na ambulância, nosso relógio marcava 14h17. Enquanto era colocado na maca, ele lembrou de seus pertences – depositados no carrinho de supermercado que empurra pelas ruas de Santa Cruz. “Eu guardo para ti, não te preocupa. Vai para o médico que a dor vai passar, depois volta aqui”, tranquilizou um morador.

Já com o Nenéu dentro da ambulância, um dos socorristas contou que ele poderia ter ingerido bebida alcoólica por engano. O profissional revelou que isso já teria ocorrido antes: Nenéu chega em alguma casa, pede água, mas recebe uma dose de cachaça. Bebe por desconhecer do que se trata e, por não ter o hábito da bebida, passa mal e necessita de atendimento. Nenéu foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Esmeralda.

Depois de passar pelo médico, a suspeita de consumo de álcool foi confirmada. Já não seria a primeira vez que alguém engana Nenéu. Enquanto muitas pessoas, acostumadas com a irreverência dele pelas ruas, vestido de Fritz em outubro e de Papai Noel em dezembro, pagam-lhe sorvete e refeições, outras fornecem cachaça quando Nenéu pede água.

Contraponto
O secretário de Saúde de Santa Cruz disse que o Município não tem gerência sobre o atendimento telefônico do Samu. Conforme Régis de Oliveira Júnior, a Secretaria Estadual da Saúde é quem administra o serviço. Procurada via assessoria de imprensa, a secretaria se pronunciou acerca da demora no atendimento a Nenéu, que seguramente passou de 40 minutos. O órgão confirmou que a regulação realmente recebeu duas chamadas para o atendimento e que ambas caíram. A primeira, às 13h38, foi interrompida cinco minutos depois e a segunda, às 13h45, também teria sido interrompida. A pasta destacou que mesmo com a dificuldade do atendimento telefônico, uma equipe do Samu foi encaminhada ao local para prestar o atendimento.

Enquanto Samu não chega, importante é manter a calma
De acordo com o especialista em medicina de emergência, Carlos Fernando Drumond Dornelles, diante de uma situação de urgência com vítima, o importante é manter a calma. “Sendo um mal súbito, acidente ou mesmo uma agressão, é necessário que as pessoas em torno da vítima liberem o perímetro e afastem os curiosos. É o que chamamos de segurança da cena, procedimento que protege a vítima e as pessoas do entorno”, disse Dornelles.

Segundo o médico, que trabalhou como socorrista no caso da Boate Kiss em 2013, conforme a situação é importante coletar o máximo de informações sobre a vítima como nome, idade, onde tem dor, se tem algum problema de saúde, se usa medicamento e até mesmo um número de telefone útil. “Com isso, a pessoa que realiza a abordagem à vítima liga para o Samu, no 192, e relata com mais clareza a situação aos atendentes.”

O médico destaca que em um caso de dor no peito, como o ocorrido com Nenéu, fica difícil ao leigo analisar o que pode ter acontecido, diante das muitas situações possíveis. “Uma dor no peito pode ser sintoma de infarto, mas pode também ser um aneurisma, uma irritação no pulmão, espasmo ou mesmo uma crise de ansiedade. Mesmo assim, diante de qualquer opção, o importante é ligar para o Samu e manter a vítima calma na melhor posição possível para ela”, explica Dornelles.