Memória 25/05/2019 00h02 Atualizado às 08h36

E a fachada do Cine Apolo se materializa sob chuva fina

Fixada no imaginário de gerações de santa-cruzenses, contorno do antigo cinema reaparece graças às obras de reforma

Uma chuva fina, fininha, um cisco, quase uma poeira celestial que cai da nuvem cinza, muito lentamente, para encharcar a terra e as cabeças desprotegidas. “Uma chuva de molhar bobos”, como dizia minha vó. E lá fui eu, o bobo, dar uma volta na quadra. Uma volta na quadra para reparar em algo em que ainda não havia reparado: o Apolo. Não o deus grego, aquele, da infinita beleza e perfeição. Mas o prédio, do cinema, aquele em que passavam os filmes de western e do Tarzan.

LEIA MAIS: No escurinho do cinema

Na altura do número 567 da Rua Júlio de Castilhos, onde até há bem pouco tempo funcionava a Câmara de Vereadores, e agora, sem aquele imenso painel da igreja (que ainda funciona por ali) que escondia sua fachada, eis que o Apolo reaparece: imponente, resplandecente (apesar do tímido amarelo-outono que o envolve de tintas), com toda a rachadura e a ferrugem que o tempo impõe. E dos muitos anos que corroem aos poucos sua presença, sólida, de alvenaria bruta, com janelas de ferro, no Centro de Santa Cruz, agora aos cuidados de um futuro qualquer por conta da empresa de engenharia que me informa o tapume.

Muita coisa mudou desde sua inauguração, no começo do século passado. A cidade mudou, as pessoas mudaram, eu também mudei, embora tenha ainda a sensatez de perceber o quanto de importância deve ter tido o Apolo na vida das muitas pessoas que o frequentaram, em suas décadas douradas. “Eu vendia osso e garrafa durante a semana para ir ao matinê, no domingo à tarde”, me conta um. “Eu ia até a sua frente para trocar revistinhas”, diz outro. “Eu só gostava dos filmes de faroeste”, confidencia um terceiro. Apolo, um ponto de encontro entre as gentes dos bairros e as do Centro. Teve até quem lembrasse que lá, em determinado período, mulheres não podiam entrar de calças compridas (?).

É só dar uma esticadinha mais de braço sobre ele, e fico sabendo outros detalhes. Era a casa de diversão das gentes menos abastadas, digamos assim, quando surgiu a concorrência. Estes, os dandies, iam no Victória, no primeiro andar do Hotel Charrua, que era o mais chique. No meio do caminho, onde hoje funciona a Iluminura, ainda havia o Astro, cujo carro-chefe eram os rolos (de filme) com um conteúdo mais... mais... mais para adultos, picante, libidinoso, com um pezinho no escandaloso. As chamadas pornochanchadas. E os pornográficos, mesmo!

Vou caminhando até o Apolo, saindo da Gazeta. Quando cheguei à cidade, o cinema não mais existia, mas o prédio, claro, permanecia lá, firme e forte. Foi Imcosul e depois danceteria, a Zeppelin, onde eu e mais uns seis vimos aquele histórico show do Djavan. O Paralamas também tocou ali. Foi Câmara e segue sendo igreja, sem o painel que escondia a fachada. Passa por reforma, que o transformará na sede de uma outra coisa. Não sei o quê! “Lá nos fundos, entrando por esta garagem aqui, ó, tinha um jardim... O jardim mais lindo que esta cidade já viu.” Todos têm um pedacinho de memória para falar do Apolo.

A chuva, fina, não cessa nunca, e parece ter sido retirada da fotografia de um filme velho, mas com história futurista tipo Blade Runner ou algo que o valha. Faço a metade da quadra, o meio quarteirão, tentando me proteger sob as folhas das árvores e por baixo das marquises. Paro na calçada oposta, nas proximidades da Maju, e observo o prédio que meus olhos não viam. A construção é carrancuda. Triste, até. Fria. Tem algo, sim, da cultura germânica, daqueles tempos de guerra, da Europa devastada.

Penso em ligar para meu amigo Ronaldo (Wink) para pegar os detalhes de estilo, escola, época e tal. Penso melhor. Melhor não! É o velho Apolo que está ali, sob uma chuva fina, teimosa. A sua história fala por si. Estico o pescoço, espicho o ouvido e tenho quase certeza de que ainda consigo ouvir o som das risadas das crianças, papéis de balas sendo amassados... E aquele eterno grito ooooooooh de Tarzan, o Rei da Selva. Um grito que é facho de farol estendido no final de uma tarde fria e úmida, driblando os finos pingos desta chuvinha sacana. Chuva que é pó se desfazendo ao cair da noite. E que não cessa nunca!

Um ponto de encontro para toda a cidade

Romar Beling
romar@editoragazeta.com.br

Para o fotógrafo Lula Helfer, que capturou imagens para esta matéria, ficar diante da fachada do Cine Apolo foi um reencontro com seu próprio passado, ativando memórias de um tempo em que os cinemas de rua “bombavam” na cidade. Essas histórias são de quando ele era adolescente, na década de 1960, e estudava no São Luís, na quadra acima. Como residia no Bairro Arroio Grande, fazia o percurso em geral a pé.

“A gente levava revistas em quadrinhos, que já tinha lido, para trocar por outras, que a garotada também trazia”, frisa. No início da tarde de domingo, antes da matiné, os meninos ficavam pela Júlio, em frente ao cinema, negociando, trocando, informando-se acerca dos títulos que os outros haviam trazido. Eram revistinhas de personagens como Zorro, Capitão Marvel, Pato Donald e de outros personagens de Walt Disney.

A programação da matiné geralmente compunha-se de três ou quatro filmes. Um filme inesquecível? “Os do Charlie Chaplin, sem dúvida! Em Busca do Ouro. Os faroestes americanos! E as chanchadas, comédias brasileiras... o eterno Mazzaropi, o mexicano Cantinflas”, elenca.

A sessão começava por volta de uma e meia e seguia até 17 horas, 17h30. “Saíamos de lá à tardinha”, frisa. “Daí ainda havia o trajeto a pé, ora eu sozinho, ora com algum amigo, até o Arroio Grande. Para completar, no caminho de volta tinha a parada para um sorvete logo depois da ponte seca, junto ao quartel, onde havia uma sorveteria. Que, aliás, depois se transferiu para defronte do quartel.”

Lula recorda que uma vez ia ter apresentação de uma trupe no Apolo, o que envolvia algumas mulheres “meio desnudas”, e a sociedade local não recebeu nada bem a ideia. Houve protestos em frente ao cinema para que esse “escândalo” não ocorresse. “Mas, se não me engano, saiu do mesmo jeito, e creio que até com mais público”, ri Lula.

Havia ainda os festivais de música no local, na época áurea deles, nos anos 70, um deles vencido pelo seu ex-colega de Gazeta Ênio Giovanella. “Eu já tocava em banda na época, e nossa banda acompanhava alguns dos concorrentes, que não tinham uma própria montada”, salienta. É o Apolo com suas inúmeras facetas de inserção cultural, e com muitas histórias para serem contadas.

Foto: Lula HelferDiante do Apolo, a garotada trocava revistinhas enquanto aguardava o começo da matiné, que se estendia pela tarde de domingo
Diante do Apolo, a garotada trocava revistinhas enquanto aguardava o começo da matiné, que se estendia pela tarde de domingo