Santa Cruz 18/06/2019 22h52 Atualizado às 07h54

Saída de Telmo Kirst do PP esquenta o clima político

Prefeito diz que não há condições de permanecer no grupo ao qual é vinculado há décadas e que buscará outro partido

Após um ciclo de atritos e desgastes com alguns de seus mais antigos aliados, o prefeito de Santa Cruz do Sul Telmo Kirst confirmou ontem que vai deixar o PP, partido ao qual é vinculado há mais de quatro décadas e pelo qual disputou 12 eleições. Sua promessa é definir uma nova legenda até o fim do mês que vem.

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A saída era vista como uma forte tendência devido a movimentos recentes de Telmo. No fim de maio, o prefeito solicitou formalmente que fosse retirado do diretório municipal da legenda, sob alegação de que não havia autorizado a inclusão de seu nome na chapa que foi eleita em convenção. Desde o ano passado, quando começou a articular pessoalmente uma debandada de integrantes do PP para outros partidos, Telmo vinha se afastando aos poucos da sigla. O rompimento foi selado com o episódio da suposta expulsão da vice-prefeita Helena Hermany de seu gabinete, em março.

Nos últimos dias, rumores de que a desfiliação era iminente vinham circulando entre CCs da Prefeitura. O fato de a Justiça ter tornado Telmo réu por improbidade administrativa na ação ajuizada pelo Ministério Público em relação ao caso da vice teria acelerado a decisão, que foi comunicada no fim da tarde, após uma reunião com o secretariado. Por meio de uma curta nota, Telmo disse que o PP ignora a sua liderança e que o partido tentou afastá-lo do governo “em um espetáculo teatral deplorável” – em alusão à denúncia encaminhada por Helena ao MP.

A desfiliação deve ser formalizada nos próximos dias. Essa é a segunda vez que Telmo se desliga do PP, sigla com a qual elegeu-se duas vezes vereador, seis vezes deputado federal, uma vez deputado estadual, uma vez vice-prefeito e duas vezes prefeito. Em 2005, quando cumpria mandato na Assembleia Legislativa, migrou para o MDB e, com isso, presidiu a Corsan e a CRM nos governos de Germano Rigotto (MDB) e Yeda Crusius (PSDB). O retorno ao PP se deu apenas em 2011, um ano antes de eleger-se prefeito. À época, sua ficha foi abonada pela então senadora Ana Amélia Lemos.

AS REPERCUSSÕES

Foto: Divulgação
  • “Estamos preparados para caminhar sem ele”

O presidente estadual do PP, Celso Bernardi, diz que respeita a decisão do prefeito. “É a segunda vez que ele sai. Deve ter os motivos dele”, afirmou. Bernardi também criticou a postura de Telmo em relação à vice-prefeita Helena Hermany, alegando que a atitude do prefeito no episódio do gabinete “não deveria ter sido tomada”. “A eleição não foi apenas do Telmo. A população votou em uma chapa e a vice precisa ter espaço.” Embora tenha reconhecido “os méritos de Telmo enquanto gestor”, Bernardi negou que a sigla saia enfraquecida. “Evidente que não queríamos perder ninguém, mas o partido está preparado para caminhar sem ele”, falou.

  • “Não havia razão para um rompimento”

Próxima à cúpula do PP em Santa Cruz e cabo eleitoral de Telmo nas duas campanhas à Prefeitura, a ex-senadora Ana Amélia Lemos disse lamentar “profundamente” a desfiliação e também criticou o tratamento dado pelo prefeito à vice-prefeita. “A Helena sempre foi muito leal ao prefeito. Não havia nenhuma razão para um rompimento”, disse. Ana Amélia também defendeu a postura de Helena, que acionou o Ministério Público após a suposta expulsão do gabinete. “Quando se vai além do que o razoável permite, é preciso tomar outras atitudes, até mesmo jurídicas”, disse. Diante da saída de Telmo, a ex-senadora disse que o partido deve investir na candidatura de Helena a prefeita no ano que vem. “Ela tem todas as condições, pela experiência e até pela forma como se comportou nesses episódios.”

Foto: Divulgação

 

Não há surpresa, diz Henrique

Logo após o comunicado de Telmo, o presidente do PP em Santa Cruz, Henrique Hermany, se manifestou, também por meio de nota. No texto, alegou que se trata de “uma decisão pessoal de um filiado” e que a sigla recebeu a notícia “sem surpresa”. “Até mesmo porque não é a primeira vez que ele sai do partido”, falou. Henrique disse ainda que o partido “segue firme, unido e terá candidato forte para vencer mais uma vez as eleições municipais”.

Ex-líder do governo Telmo na Câmara e um dos principais fiadores de seu retorno ao PP em 2011 e de sua candidatura a prefeito, o vereador Hildo Ney Caspary se limitou a afirmar que a desfiliação do prefeito é “uma lástima”. “A decisão é dele. E o partido deve seguir trabalhando por Santa Cruz”, falou. Procurados, a vice-prefeita Helena Hermany e o vereador Edmar Hermany não quiseram comentar o assunto. “Quem fala é o presidente do partido”, disse Helena.

O PASSO A PASSO DA CRISE

Maio de 2018 - Telmo começa a articular pessoalmente a transferência de integrantes de peso do PP para outros partidos. Manobra é encarada como uma forma de esvaziar a própria sigla e um indicativo de que o prefeito pretende formar o sucessor fora do ninho progressista. Dentre os que deixaram o PP desde então estão os secretários de Meio Ambiente, Raul Fritsch, e de Administração, Vanir Ramos de Azevedo, o chefe de gabinete Délsio Mayer e o diretor de Segurança Marcelo Diniz.
18 de dezembro - Movimento arquitetado por Telmo sem a anuência do PP sepulta acordo que havia sido firmado na base governista para eleger Alex Knak (MDB) presidente da Câmara de Vereadores. Com isso, Bruna Molz (PTB) é escolhida. Manobra racha a base e abala relação de Telmo com o PP.
28 de fevereiro - Henrique Hermany pede demissão do cargo de secretário de Segurança. Saída expõe crise na relação de Telmo com os progressistas.
8 de março - Em reação a dissidências na votação de um veto de Telmo ao projeto de lei que instituía o IPTU Verde no município, prefeito demite servidores indicados por vereadores, inclusive do PP.
20 de março - Um dia depois de ser afastada do cargo de secretária municipal de Habitação, a vice-prefeita Helena Hermany vai ao Ministério Público denunciar que fora expulsa de seu gabinete por determinação do prefeito. Episódio convulsiona o universo político e gera um inquérito contra Telmo.
30 de maio - Após eleição interna do PP, Telmo pede para que seu nome seja retirado do diretório municipal do partido.
Semana passada - Telmo torna-se réu em ação de improbidade administrativa ajuizada pelo Ministério Público por conta do episódio da vice-prefeita. Situação teria acelerado sua decisão de anunciar a desfiliação do PP, o que ocorreu nessa terça-feira.

Destino vai indicar postura na eleição

Nos bastidores da política local, a decisão de Telmo de se desfiliar do PP foi encarada como um sinal claro de que o prefeito não irá se abster em relação à eleição do ano que vem. “Se ele não estivesse preocupado, não teria porque sair do partido. Com a desfiliação, fica evidente que ele vai tentar controlar a sucessão”, analisa um integrante do governo.

A expectativa agora gira em torno do futuro partido de Telmo – que, por enquanto, é um mistério. Pessoas ligadas ao prefeito acreditam que a tendência é que ele migre para uma sigla de sua atual base de apoio. O DEM e o PRB, por exemplo, foram os destinos de ex-progressistas que trocaram de legenda a pedido do próprio Telmo. Além disso, no fim do ano passado o líder de governo na Câmara, Gerson Trevisan, revelou ter convidado o prefeito a se filiar ao PSDB. Também integram a base o SD e o PDT – o último, porém, é pouco provável, já que o presidente Bruno Faller está afastado do governo. Uma segunda alternativa seria migrar para outro partido como forma de atraí-lo para a base e, com isso, calibrar o grupo para a eleição.

A saída de Telmo também pode levar a outras desfiliações do PP. Atualmente, o único membro do primeiro escalão do governo que é filiado à sigla é o secretário de Saúde Régis de Oliveira Júnior. Em maio, Régis teve o seu nome barrado para compor o diretório municipal na convenção da sigla. Procurado ontem, ele não foi localizado.


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