Alimentação 10/07/2019 23h25 Atualizado às 10h37

O resgate de uma tradição milenar em favor da saúde

Plantas alimentícias não-convencionais e plantio de sementes crioulas foram tema de encontro em Passo do Sobrado

Por muito tempo esquecidas, as plantas alimentícias não-convencionais (Pancs) são apontadas como solução para os problemas nutricionais e para a própria falta de alimentos ao redor do mundo. Elas entram como ingredientes de pães, bolos e farofas, e podem até ser o prato principal, basta saber utilizar e valorizar o que é da terra. O tema alimentação saudável foi a base do 4º Encontro Regional de Sementes Crioulas e Mostra de Agroindústrias, realizado pelo escritório regional de Soledade da Emater/RS-Ascar, nessa quarta-feira, 10, em Passo do Sobrado. Além do conhecimento para o plantio e manejo corretos, é necessário saber utilizar plantas e sementes para tornar a alimentação melhor.

A professora de ciência dos alimentos, da Escola Família Agrícola de Vale do Sol (Efasol), Cláudia da Rosa Gonçalves, conta que parte das plantas comestíveis utilizadas na preparação de alimentos no passado foi esquecida. “A gente valoriza este conhecimento, assim como o uso das sementes, como o próprio pinhão, que está quase em extinção. Este encontro é um resgate da alimentação de nossos antepassados”, destaca.

Para o encontro regional de Passo do Sobrado, ela preparou pães, geleias e doces. Todos feitos à base de plantas e sementes crioulas. Um dos ingredientes que entram na composição do pão são as folhas de ora-pro-nóbis. A planta, rica em nutrientes e proteínas, garante uma receita saudável (veja no quadro). “Isto faz parte do que chamamos de diversidade no prato. O tipo de alimento que consumimos está ligado à qualidade de vida que temos, isto é certo. É mais que segurança alimentar, é saúde na mesa”, ressalta.

O consumo de plantas não convencionais, as Pancs, segundo a professora, é milenar. No entanto, a classificação destes vegetais, que crescem de forma espontânea na natureza, surgiu no fim da década passada e tomou corpo quando começou a ser utilizada pela alta gastronomia. “Estas plantas podem ser cultivadas em pequenos espaços, elas fazem parte da nossa cultura alimentar. É preciso ter a informação, que é uma bênção. Agora é necessário propagá-la, para tornar popular novamente o consumo destes alimentos, que são da origem da nossa cultura e alimentação”, complementa a professora Cláudia.

As sementes crioulas podem evitar doenças

Entre as opções de alimentação saudável, o uso de sementes crioulas desponta como a principal ferramenta no cultivo de alimentos mais naturais. Oldi Helena Jantsch, de Cruzeiro do Sul, coordena o Banco de Sementes da Solidariedade, órgão vinculado à Diocese de Santa Cruz do Sul. Segundo ela, as sementes crioulas são aquelas que se renovam, de forma automática, sem fertilizantes ou defensivos. “É preciso acompanhar as fases da lua, corrigir o solo com biofertilizantes e deixar a natureza agir”, explica Oldi. A produção de produtos agroecológicos passa pelo uso da semente crioula. Parte é semeada, outra parte vira estoque, para o plantio do ano seguinte, e outra fração é usada na troca entre produtores.

Oldi é uma entusiasta no uso das sementes crioulas. De acordo com ela, a biodiverisidade e as propriedades das plantas e sementes naturais estão entre as principais fórmulas para a prevenção de doenças. “Somos o que comemos. O cuidado com estas sementes faz parte de um comportamento que é dos avós.”

Conforme o assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar de Soledade, Evandro Scariot, os encontros regionais ocorrem para valorizar as técnicas e as entidades que viabilizam a atividade no campo. “É para que possamos produzir alimentos mais saudáveis, associados à qualidade de vida das famílias”, justifica. O 4º Encontro Regional de Sementes Crioulas e Mostra de Agroindústrias foi organizado pela regional da Emater com apoio da Prefeitura de Passo do Sobrado e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município.

Receita de pão com ora-pro-nóbis

1 kg de farinha de trigo;
2 colheres de sopa de fermento biológico;
6 colheres de sopa de açúcar mascavo;
1 colher de chá de sal;
100 gramas de folhas frescas de ora-pro-nóbis trituradas;
150 ml de água;
300 ml de leite;
2 colheres de sopa de manteiga;
3 gemas.

Modo de preparo

Misture os ingredientes, começando pela farinha de trigo, fermento biológico, o açúcar mascavo e o sal. Misture as folhas trituradas à água, ao leite, à manteiga e às gemas, junte aos demais ingredientes. Amasse bem e deixe crescer. Depois de crescer, amasse novamente, divida em porções (pães) e deixe crescer nas formas. Pincele com óleo e leve ao forno.

Conhecimento também para faturar mais no campo

O produtor rural Éricles Raymundo, de Linha Malhada, no interior de Passo do Sobrado, é egresso da Escola Família Agrícola de Santa Cruz. Aos 24 anos ele revela que a família se dedica a produzir geleias e doces de frutas, molhos e pimentas, com ingredientes cultivados na propriedade familiar. Ele expôs sua marca junto a outras agroindústrias, dentro da mostra da produção, durante o 4º encontro regional. “A gente vende de tudo um pouco. Geleias com pimenta fazem muito sucesso. Vendemos em Passo do Sobrado e Santa Cruz, assim como em feiras itinerantes no Estado”, conta Raymundo.

Ele aplica a teoria do curso na realidade da propriedade. Da produção agrícola de frutas, foi adaptando caminhos e processos para rentabilizar a agroindústria. Até mesmo a marca, Nossa Casa, passa por uma transformação. “Vamos lançar uma marca nova, a Ferreiro Sabores, com geleias e molhos, para melhorar e ampliar a oferta de produtos ao consumo”, detalha. 

Foto: Lula HelferRaymundo e as geleias especiais de Linha Malhada
Raymundo e as geleias especiais de Linha Malhada