General Mourão 07/08/2019 00h48 Atualizado às 09h28

Como foi o dia em que um vice-presidente almoçou em Santa Cruz

De pé, convidados concederam um longo aplauso. O vice-presidente saudou o protocolo de autoridades e, quebrado o silêncio, em voz alta, bradou um “bom dia”

Cercado por um forte aparato de segurança, que desde as primeiras horas do dia mobilizou forças militares e alterou o trânsito nas ruas centrais, o vice-presidente da República, general Antônio Hamilton Martins Mourão, almoçou nessa terça-feira, 6, em Santa Cruz do Sul. Antes disso, durante 60 minutos, falou sobre política, desigualdades sociais, economia e superação. O vice-presidente pôde rever antigos colegas militares, que enfrentaram distâncias para prestigiar o ilustre convidado.

A reunião-almoço, no Hotel Águas Claras Higienópolis, foi uma edição especial do Projeto Gerir, da Gazeta Grupo de Comunicações. A convite do diretor executivo da Gazeta, e também presidente da Associação de Oficiais Militares de Santa Cruz (AOMSCS), Jones Alei da Silva, Mourão compartilhou a experiência de governar o Brasil frente aos desafios mundiais e às dificuldades fiscais, financeiras e de organização social e política do País.

>>> VÍDEO: veja como foi a palestra-almoço com o vice-presidente Mourão

Uma recepção impecável

Desde as primeiras horas dessa terça, a rotina de Santa Cruz do Sul foi alterada. O dia histórico seria marcado pela vinda do vice-presidente da República para o município. A rua que dá acesso ao Hotel Águas Claras Higienópolis, a Pedro Werlang, foi isolada às 8 horas da manhã, e assim permaneceu até as 14h30, mais de uma hora depois de o general Antônio Hamilton Martins Mourão deixar o local.

Vestindo ternos com corte justo e impecável, dezenas de militares orientavam a chegada de visitantes ao restaurante do hotel. Segurança redobrada para garantir a tranquilidade do evento. Após serem identificados na lista de presença, os convidados receberam um adesivo da Presidência da República – o passe livre para o salão, para conferir a palestra do general.

Meio-dia, todos a postos. A comitiva de Mourão já estava a caminho. Um dos assessores cochicha: “Estão tomando um café em um lugar chamado Casa Cheia. Agora está perto”. Começa uma movimentação silenciosa da segurança. Os convidados parecem ter percebido que algo estava para acontecer, e logo na sequência Leandro Siqueira, na ocasião o mestre de cerimônias do Projeto Gerir, anunciava a entrada de Mourão.

De pé, convidados concederam um longo aplauso. O vice-presidente saudou o protocolo de autoridades e, quebrado o silêncio, em voz alta, bradou um “bom dia”. A plateia respondeu, em coro. Começava ali a narrativa do general Mourão. A palestra dele durou rigorosos 60 minutos. Tempo em que o vice expôs o cenário mundial, no qual nações que lideram continentes lutam para enfrentar dificuldades comuns, como a fome, a migração, a mudança do clima e o baixo crescimento econômico. Atentos, os convidados ficaram em silêncio.

Quando o vice-presidente começou a falar do Brasil, e dos problemas de Brasília, o bufê passou a ser preparado para servir, liberando o perfume da gastronomia santa-cruzense. Ao encerrar, o general Mourão fez a frente, abrindo o almoço. Já passava das 13 horas. Após a sobremesa – sorvete de creme com frutas vermelhas –, a comitiva do general deixou Santa Cruz. No ar, ficou a expectativa de um novo tempo, sobretudo no que se refere à gestão pública federal, com a possibilidade de uma redução do tamanho do Estado e o aceno para a retomada do crescimento do Brasil.

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Sem meias-palavras

Como o objetivo do Projeto Gerir é promover a discussão em torno de temas relevantes ao desenvolvimento da região, nada mais justo do que, na presença do vice-presidente do Brasil,  tratar da situação econômica e dos desdobramentos dos problemas administrativos do País na vida dos brasileiros.

Mourão começou a falar sobre o Brasil, detalhando a preocupação do governo federal com a pobreza da população. Disse que o que a sociedade chama de “comunidade” ele conhece como favela – sem rodeios. E a vida humilde das periferias preocupa o Palácio do Planalto, especialmente sob o ponto de vista da segurança. “O Estado não coloca água, não coloca luz, não coloca esgoto. O traficante coloca tevê a cabo, coloca o médico. O traficante controla as escolas e o ir e vir da população. Se nós não buscarmos a solução contra esse problema social, será um eterno enxugar gelo”, comentou.

Mourão criticou a organização política do Brasil. Segundo ele, o número de 26 partidos políticos cria um ambiente de difícil compreensão. “Nosso sistema político-partidário é doido. Nós precisamos modificar isso. O partido político precisa ser a representação da população. É impossível que em uma sala como esta existam 26 posicionamentos diferentes.” Na política, o vice-presidente defende o voto distrital, para tornar o processo mais barato e coerente com os anseios da população.

O início da crise

O desequilíbrio fiscal, uma das chagas do desenvolvimento econômico nacional, foi um dos temas de Mourão. Para ele, a crise econômica pode ser comparada a uma tempestade, que tem nome, número e endereço. “Esta crise começa com a Constituição Federal de 1988. Na época, pensou-se nas despesas, mas não se previu as receitas. Na ocasião, o então presidente José Sarney disse que o País ficaria ingovernável. A conta chegou, senhoras e senhores.”

O vice-presidente relembrou que a hiperinflação do fim da década de 1980 e do início dos anos 1990 foi vencida pelo Plano Real, em 1994. “Foi a partir dele que se começa a buscar o equilíbrio entre as receitas e as despesas, o famoso ajuste fiscal. Ele foi feito na forma de aumento de impostos. A carga tributária aumentou de 25% para 31% do valor do Produto Interno Bruto (PIB).”

Crítico, Mourão disse que se essa carga de impostos, que agora cresceu um pouco mais, na faixa dos 33%, se refletisse em serviços de qualidade, os brasileiros, que hoje andam “curvados de tanto pagar”, estariam satisfeitos. “Se tivéssemos estradas alemãs, hospitais suíços e escolas britânicas, tudo bem. Mas, não. Pagamos tudo isso e não recebemos nada do Estado”, afirmou.

Segundo Mourão, no início da década de 2000, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a austeridade econômica, com o controle da inflação e a valorização do real frente às moedas estrangeiras, foi mantida. “Mesmo com mensalão, ele foi reeleito, porque a economia estava bem. No mandato seguinte, o pensamento do partido dele, continuado pela presidente Dilma, que é o gasto, foi a lógica.” Tal pensamento consistia em fazer girar a economia a partir da distribuição de recursos, partindo do governo federal, que arrecadaria mais em impostos.

Para o vice-presidente, com essa política criou-se uma nova matriz econômica, baseada na cessão de crédito e no endividamento, desvalorizando o real diante do dólar, com desonerações e subsídios que representam hoje mais de R$ 200 bilhões em renúncias fiscais.

“Com isso começou o endividamento do governo federal, que hoje alcança 80% do PIB. Depois veio a contabilidade criativa, o uso de recursos da Caixa, do Banco do Brasil e do BNDES, e, por fim, este déficit fiscal, escalonado de forma geométrica”, apontou. Mourão disse que o Brasil trabalha no “vermelho” desde 2014 e seguirá assim ainda no próximo ano, mesmo com os ajustes que o governo identifica como necessários.

Como virar o jogo?

Mourão afirmou que a mudança de paradigma começou com a eleição dele e de Jair Bolsonaro (PSL) no ano passado. Para o vice, foi um momento em que a maioria da população, contrariando pesquisas e sondagens, quis a ruptura. “Nós todos estamos buscando resgatar o nosso orgulho enquanto nação. Nosso compromisso é restabelecer a confiança no País e nas instituições”, frisou.

O vice-presidente abordou dois problemas estruturais na economia brasileira. O primeiro diz respeito ao ajuste fiscal, pois o governo gasta mais do que arrecada. O segundo é o baixo crescimento econômico. “Para começar a ajustar as contas públicas, é preciso fazer a nova previdência. Esperamos que o segundo turno de votação seja rápido e o quanto antes esteja no Senado”, ponderou.

O general Mourão frisou que a população está ficando mais velha e, por isso, é preciso criar uma nova previdência para não penalizar os mais jovens, que ainda não ingressaram no mercado de trabalho. “Nossos filhos e netos olharão para nós e perguntarão: onde vocês estavam, que não enfrentaram este problema?”, salientou.

>>> VÍDEO: veja como foi a palestra-almoço com o vice-presidente Mourão

O custo Brasil também é insustentável. Hoje, de cada R$ 100,00 que o governo federal arrecada, R$ 96,00 já têm destino certo. Ou seja, o orçamento do País está praticamente engessado, sem possibilidade de investimento. “Se nós não fizermos nada para mudar, no último ano de nosso governo a União irá pagar apenas salários. Não haverá dinheiro nem para pagar a energia, por exemplo. Precisamos modernizar a gestão, reduzir o número de cargos e o tamanho do Estado.”

Ressaltou que o Brasil precisa utilizar a tecnologia a seu favor. Reduzir a quantidade de papéis, de carimbos e burocracia. “O setor público passará por um enxugamento branco: como se faz isso? Assim que os servidores forem se aposentando, não serão substituídos. Ninguém será demitido.”

A outra parte da equação a ser resolvida é o crescimento da produtividade. Para tanto, o general tem na ponta da língua a solução: licitar e conceder. “É preciso privatizar tudo aquilo que é ineficiente. Vamos fazer as concessões de portos, estradas e aeroportos. Trazer a iniciativa privada. Só assim destravaremos o gargalo da infraestrutura”, enfatizou.

A meta do governo

O ajuste fiscal, para que o Estado recupere a sua capacidade de investir, é apontado como meta do Planalto. Com recursos livres para movimentação, o governo federal pode realizar obras que são de sua competência e não podem ser privatizadas. “Isto será possível com a reforma tributária. Nosso sistema tributário é um manicômio: nós temos tributos federais, estaduais e municipais. São mais de 5,7 mil municípios, cada um tem as suas leis e o empresário é que precisa saber as regras do jogo.” 

Conforme Mourão, o custo operacional do sistema tributário é de R$ 70 bilhões anuais, mais R$ 400 bilhões em evasão, por meio de fraudes e sonegações de impostos. A proposta é reduzir a carga para mudar a base de pagamento. “Já está em discussão, e a sociedade já entendeu isso. Nós temos propostas na Câmara e no Senado, mais a proposta do ministro Paulo Guedes. Nossa ideia é que esta discussão também seja rápida, assim que resolvida a nova previdência. Sem a reforma tributária, a gente não tira o peso do cangote daqueles que empreendem.”

No mundo, o Brasil é visto com interesse, conforme Mourão, especialmente a partir da agenda de mudanças propostas pelo governo federal. “Temos de perseguir nossos interesses. Sofremos uma pressão enorme sobre o governo Bolsonaro, no que se refere ao clima. O Brasil não é o culpado pela situação mundial; nossa matriz energética é 88% limpa, enquanto no resto do mundo é de apenas 25%.”

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Uma amizade com mais de 40 anos na plateia

O militar reformado Amado Martins da Silva, de 88 anos, recorda com frescor na memória dos anos de 1975, 1976 e 1977, período em que dividiu, no quartel de Cruz Alta, as tarefas militares com Mourão. “Eu havia ingressado no Exército em 1950, já estava no serviço há tempo”, diz.

Amado conta que Mourão era um militar vibrante, apaixonado pelo Exército e de postura retilínea. “Ele merece todo este reconhecimento, pois teve uma carreira brilhante. Tudo que era correto era com ele. Com muito orgulho, eu o vejo na condição de vice-presidente do Brasil.”

O reencontro de Silva e Mourão ocorreu durante a reunião-almoço do Projeto Gerir. “Ele logo me reconheceu. Disse: ‘tu vieste de Cruz Alta para me ver?’. Eu respondi: ‘sim, estou aqui te esperando há um ano’”, contou, em meio ao riso. Seu Amado está, de fato, residindo há um ano em Santa Cruz. Veio para o município para ficar próximo de familiares.

A experiência do octogenário lhe sugere que Mourão na vice-presidência é motivo de tranquilidade. Ele diz que a postura do vice, aliada ao seu conhecimento, dá esperança ao povo. “Eu acredito que podemos sonhar com dias melhores daqui para a frente”, projetou.

Foto: DivulgaçãoAmado Martins da Silva e o vice-presidente são amigos desde os tempos de caserna
Amado Martins da Silva e o vice-presidente são amigos desde os tempos de caserna

 

Casal viaja quase 300 quilômetros 

A visita do vice-presidente da República trouxe também admiradores que viajaram horas para tirar uma foto e trocar algumas palavras com ele. Foi o caso de Dari Ernesto e Neila Tschiedel, que saíram de Augusto Pestana, no Noroeste gaúcho, a 270 quilômetros de Santa Cruz.

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Foto: DivulgaçãoDari e Neila saíram cedo de Augusto Pestana, no Noroeste gaúcho, para participar da reunião-almoço com o vice-presidente
Dari e Neila saíram cedo de Augusto Pestana, no Noroeste gaúcho, para participar da reunião-almoço com o vice-presidente

Novo membro na associação de oficiais

O general Mourão foi engajado nessa terça na Associação de Oficiais Militares de Santa Cruz (AOMSCS). A entidade, que foi uma das articuladoras, junto com a Gazeta Grupo de Comunicações, da vinda do vice-presidente para o município, reconheceu o militar com o título de sócio honorário.

O presidente da AOMSCS e diretor executivo da Gazeta Grupo de Comunicações, Jones Alei da Silva, destacou que a distinção é uma forma de agradecimento por Mourão ter colocado Santa Cruz em sua agenda. “É um reconhecimento ao trabalho dele, pela disponibilidade em vir a Santa Cruz também.” Na entrega da honraria, o vice-presidente da AOMSCS, João Bosco Dilelio Maracci, participou da entrega do certificado ao vice-presidente da República.

O Projeto Gerir é uma iniciativa da Gazeta Grupo de Comunicações com o patrocínio da Associação das Entidades Empresariais de Santa Cruz do Sul (Assemp), da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e da Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo, e com o apoio de Cucas da Rosana.

Foto: Bruno Pedry