História 10/09/2019 21h58 Atualizado às 21h07

O cemitério dos farrapos ainda guarda mistérios em Novo Cabrais

No Cemitério do Cedro, na localidade de Cortado, estariam enterrados combatentes que tombaram em uma sangrenta batalha com soldados imperiais, durante a Revolução Farroupilha

Antigas cruzes de ferro espalham-se, cravadas no chão, pela área de pouco mais de meio hectare do Cemitério do Cedro, na localidade de Cortado, em Novo Cabrais. Com pontas que mais parecem lanças, muitas delas são a única referência a indicar onde pessoas foram enterradas. Sepulturas erigidas acima do solo são um luxo raro no local. A ação da ferrugem, porém, dificulta a leitura das inscrições nas chapas de metal presas às cruzes, onde outrora constavam os nomes dos mortos e as datas de nascimento e falecimento. Um das poucas ainda legíveis é de 1930.

Em alguns pontos há lápides mais nobres, esculpidas em pedra grês. Mas a ação do tempo também deixou nelas as suas marcas: muitas estão caídas, outras tomadas pelo musgo. Uma delas, de 1913, equipada com uma capelinha para o acendimento de velas, desafia a força da gravidade. Outra ainda preserva, esculpido na pedra, o brasão da República, mas já não há como saber quem está sepultado ali.

A vegetação é abundante no Cemitério do Cedro. De longe, mais parece uma pequena mata, isolada entre dois imensos açudes e uma área de pastagem. Além de muitas palmeiras, há fileiras de uvas japonesas, espécie estrangeira plantada por familiares das pessoas ali sepultadas. Mas a árvore que mais chama a atenção dos visitantes é o cedro centenário que dá nome ao cemitério. Não só pelo tamanho, mas pela história que guarda.

Segundo relatos transmitidos de geração em geração, sob o cedro estão sepultados os corpos de combatentes farrapos que tombaram ali mesmo, em uma sangrenta batalha com soldados imperiais durante a Revolução Farroupilha. Conta-se que os corpos foram deixados em uma cova rasa e, sobre ela, os rebeldes sobreviventes espetaram uma cruz tosca, feita com galhos verdes de cedro. Da cruz brotaram ramos que teriam dado origem à imensa árvore.

Trata-se de uma história que, sem ter chamado a atenção de especialistas, ainda aguarda comprovação. Mas que, apesar disso, povoa o imaginário e nutre a fé da comunidade de Cortado, que até hoje reza aos espíritos dos guerreiros mortos, em busca de bênçãos e proteção.

“Aconteceu mesmo”

Como toda pessoa nascida em Cortado, Gabriel Domingos de Souza ouviu dos mais velhos a história do combate e do enterro improvisado. Hoje com 80 anos, o servidor público aposentado vive em Sobradinho, mas não cansa de pesquisar, por conta própria, os meandros da luta supostamente ocorrida naquela que viria a ser sua terra natal. Há 15 anos ele se dedica a estudar a Revolução Farroupilha. Leu todos os livros que encontrou sobre o assunto e apresenta indícios de que o combate no atual Cortado realmente aconteceu.

Souza conta que, segundo registros, o próprio Duque de Caxias – nomeado presidente da província pelo imperador Dom Pedro II, em 1842 – despachou uma guarnição à caça de farroupilhas que se movimentavam rumo à região de Santa Maria. Na época, grande parte do exército imperial estava acampada no Passo de São Lourenço, às margens do Rio Jacuí, nas imediações de Cachoeira do Sul. “Caxias deixou escritos onde informa que o ‘inimigo havia se retirado rumo a Santa Maria da Boca do Monte’, e que mandou tropas em seu encalço”, narra Souza. Na época, uma estrada de tropeiros ligava Cachoeira ao centro da província, passando por onde hoje fica Cortado. A escaramuça teria ocorrido nesse trajeto.

Quando os imigrantes italianos chegaram a Cortado, em 1875, o Cemitério do Cedro já se espalhava ao redor do ponto onde os combatentes teriam sido sepultados. Conforme Souza, moradores de Cortado já encontraram estribos de cavalo, adagas e outras armas nas imediações do cedro. Ele conta que durante as escavações de uma vala, para proteger o cemitério da umidade dos açudes vizinhos, um cunhado seu encontrou um mosquetão. A arma foi entregue a um policial, amigo da família, para que investigasse a procedência. Porém, nunca mais se teve notícias dela. “São evidências de que o combate realmente ocorreu nas imediações de onde hoje fica o cemitério. Muitos duvidam, mas eu tenho certeza: aconteceu mesmo.”

Morador de Cortado, João Batista Bataioli, 54 anos, acredita que o cemitério deve guardar mais relíquias sob a terra. “O povo aqui se pergunta o que poderia ser encontrado se houvesse uma escavação abaixo do cedro. Acredita-se que os soldados foram enterrados com suas armas e deve haver espadas e lanças.” Guia da reportagem na visita ao local, Bataioli afirma que esteve no cemitério pela primeira vez aos 10 anos. “Escutei a história dos mais antigos e vim de curioso.” Segundo ele, há mais de 40 anos não ocorrem sepultamentos ali, por falta de espaço. “Só os mais humildes eram enterrados aqui. Mesmo onde não há cruzes, tem gente enterrada. Antigamente eram feitas cruzes de madeira, que já apodreceram.”

Foto: Bruno Pedry

 

Lanças, adagas e outros indícios

As narrativas acerca do Cemitério do Cedro também são bem conhecidas pelos extensionistas da Emater de Novo Cabrais, que prestam assessoria aos agricultores de Cortado. O chefe da unidade local, Edson Sobroza, observa que a idade do cedro sugere que a árvore pode ter brotado nos últimos anos da Revolução Farroupilha, que se estendeu de 1835 a 1845. “Pelo diâmetro do tronco, calculamos que tem, no mínimo, 165 anos. Mas isso é relativo, pode ter bem mais.” Edson já ouviu duas versões da história pela boca dos moradores mais antigos. Em uma delas, os farrapos foram atacados pelos imperiais. Em outra, foram os rebeldes que assaltaram uma carga de suprimentos do Império, na rota dos tropeiros.

Atualmente, uma iniciativa da Prefeitura de Novo Cabrais busca mais informações sobre a história do Cemitério do Cedro, para preservar a memória em torno do lugar. Os extensionistas da Emater, além de seu Gabriel de Souza, são colaboradores. Flávia Borstmann, colega de Edson, confirma que moradores de Cortado já encontraram muitas relíquias no local, mas boa parte do material acabou se perdendo, passando de mão em mão. A equipe da Emater tem fotos de uma ponta de lança e do cabo de uma adaga encontrados nas imediações do cedro e preservados por um habitante. “O que sabemos é o que ouvimos dos moradores. Mas é certo que esse local merece um estudo arqueológico.”

Foto: DivulgaçãoPonta de lança e cabo de adaga encontrados no local
Ponta de lança e cabo de adaga encontrados no local

 

Histórias de fé (e de arrepiar)

Valesca Luchese de Franceschi, 77 anos, adota um tom carinhoso, quase maternal, ao se referir aos homens que estariam sepultados sob o imenso cedro. Chama-os de “soldadinhos”. E garante: “Eles fazem milagres”.

Parte do Cemitério do Cedro fica na propriedade de Valesca e foi pelo pai, Vergílio Luchese, falecido aos 87 anos em 1994, que ela ficou sabendo da história do combate, já narrada pelos bisavós, imigrantes italianos que se estabeleceram em Cortado. Valesca conta que a comunidade costuma rezar, em busca de bênçãos e graças, aos espíritos dos combatentes mortos. Até nas missas são comuns, ainda hoje, intenções pelas almas dos farrapos. A viúva relata curas milagrosas atribuídas a eles e diz que um sobrinho, que ficou como suplente no vestibular para Medicina em Santa Maria, garantiu a vaga porque acendeu uma vela no Cemitério do Cedro.

Valesca recorda que, quando era menina, um longo período de estiagem castigou as lavouras da localidade. A comunidade então passou a rezar o terço no cemitério, pedindo que os espíritos dos farroupilhas intercedessem pela chuva. “Ao nono dia desde o início das novenas, uma das mulheres disse que Deus havia se esquecido de nós. Logo em seguida, nuvens escuras surgiram no céu. Corremos para casa abaixo de chuva forte.”

Ela conta também histórias arrepiantes. Lembra que certa feita o pai rezou para que os farrapos espantassem ladrões que vinham furtando melancias das lavouras. Desde então, as frutas permaneceram intocadas até a colheita. “Quem tentava levar nossas melancias escutava gritos e gemidos de dor, e fugia assustado.” Situação parecida teria acontecido com malandros que invadiram a propriedade à noite para pescar em um dos açudes. Primeiro, os invasores começaram a ouvir ruídos estranhos, de coisas caindo no cemitério ao lado. Depois começaram os gritos, e o grupo bateu em retirada deixando para trás os apetrechos de pesca.

Há também uma história triste, envolvendo um empregado de seu Vergílio. Valesca conta que o peão arava a terra nas proximidades do Cemitério do Cedro, com uma junta de bois, quando foi interpelado por um desconhecido, um homem de barba e bem vestido, com terno e gravata. “Tu vais trabalhar para mim”, sentenciou o estranho. O peão deu de ombros e disse que estava satisfeito a serviço dos Luchese. Quando voltou a olhar para o desconhecido, ele havia desaparecido. Quinze dias depois, o empregado faleceu.
Ainda assim, Valesca garante que os espíritos dos farrapos são bons para a comunidade de Cortado. “Os soldadinhos nos protegem”, afirma. “Basta rezar para eles.”

Foto: Bruno Pedry
Foto: Bruno PedryOs pais de Valesca, Vergílio e Maria Conceição Cerentini Luchese
Os pais de Valesca, Vergílio e Maria Conceição Cerentini Luchese
Foto: Bruno PedryValesca Luchese de Franceschi: “Os soldadinhos fazem milagres”
Valesca Luchese de Franceschi: “Os soldadinhos fazem milagres”