Comércio 27/09/2019 23h14 Atualizado às 14h32

Tradicional Bazar Santa Cruz encerra as atividades nesta segunda-feira

Quase meio século após a abertura, empresário Renê Krueger afirma que são vários os motivos para fechar

"É bem mais fácil conseguir alguma coisa com um sorriso do que com a força da espada.” E sorrisos não faltam ao empresário Renê Krueger. Talvez por isso o negociante tenha cativado gerações e prosperado à frente do seu comércio por mais de 46 anos. Abusando de frases de efeito como a citada, atribuída a William Shakespeare, Krueger recebeu a equipe da Gazeta do Sul na tarde desta sexta-feira, 27, três dias antes de encerrar as atividades de um dos mais tradicionais pontos comerciais da cidade, o Bazar Santa Cruz.

“Quando fui guardar umas caixas que estavam em um fundo falso embaixo da escada, me deparei com centenas de papéis e documentos da loja. Ali tive a verdadeira dimensão do quanto trabalhei“, disse. Há dois anos ele já havia decidido que iria encerrar as atividades do seu ponto, localizado no coração da principal rua de Santa Cruz, a Marechal Floriano. Conforme ele, os motivos para fechar são vários. “Eu vinha mantendo isso sob segredo. Quero descansar, mas sei que não vou conseguir ficar parado. Tenho amor pelo trabalho. Gosto mesmo de trabalhar”, frisou.

Quem viveu em Santa Cruz pelo menos nas últimas duas décadas e foi à loja em algum momento deve ter se deparado com os famosos jogos de dados mágicos que Krueger vendia no Bazar. Aliás, segundo o próprio, o que ele vendia era o segredo. “A dor ensina a gemer. Tive de aprender com o tempo as táticas das vendas. Quando mostrava o segredo dos dados mágicos para as pessoas, elas acabavam não comprando. Foi quando decidi mostrar o produto, mas ensinar o segredo somente depois da venda. Desse modo, vendi milhares dessas caixinhas de dados mágicos”, relembra o vendedor, que mora no Centro de Santa Cruz.

Colono de Ferraz, como se autodenomina, Krueger ajudava a família na lavoura quando jovem. Depois, fez carreira no Exército, passando pela Prefeitura de Santa Cruz e por outros serviços antes de abrir a loja ao lado do Colégio São Luís. Das recordações mais queridas, lembra dos filhos. “Ele se criaram aqui dentro. Lembro quando meu filho completou quatro anos e festejamos aqui o aniversário dele”. Krueger é formado em Ciências Biológicas e Comunicação Social.
 

Foto: Alencar da RosaSorriso é a marca registrada do empresário Renê Krueger, que foi o proprietário do Bazar Santa Cruz nos últimos 46 anos
Sorriso é a marca registrada do empresário Renê Krueger, que foi o proprietário do Bazar Santa Cruz nos últimos 46 anos

 

Falar alemão era estratégia de Krueger para os negócios

Comerciante de primeira, Renê Krueger precisou adaptar o atendimento e a organização da loja ao longo dos anos. “A gente fica calejado na vida. Hoje em dia, quando uma pessoa entra pela porta, tiro um raio X dela e vejo como abordar”. Conforme ele, pelo perfil que enxergava quando o cliente entrava na loja, sabia exatamente que tipo de LP queria. Os LPs, assim como os livros e, posteriormente, os CDs, tiveram seu tempo na loja e depois saíram de linha. “Uma época a gente vendia LPs de lotes por pessoa aqui no bazar. O tempo era outro”, diz.

A história de Krueger se confunde com a do Bazar. “O dia mais feliz da minha vida foi em 10 de janeiro de 1986. Nessa data, meu antigo sócio me vendeu a parte dele da loja. Até então, detinha 30% do negócio. A partir dali, paguei a parte dele, comprei meu carro e as contas ficaram todas em dia”.

E negócio entra até quando o assunto é futebol. Inquirido acerca do time pelo qual torce, Krueger não titubeia: “Depende do cliente. Se ele vier com a camiseta do Inter, pergunto como vai ser o jogo do ‘nosso time’ no fim de semana. Se vem de Grêmio, da mesma forma.” Por fim, a revelação: para alegria de uns amigos e tristeza de outros, é gremista.

Falar alemão era estratégia de venda. “Quando chegava alguém do interior e só falava alemão, me dava bem, pois sei falar fluentemente.” Segundo ele, isso ocorria também quando chegava um americano na loja. A primeira pergunta era: “Do you speak german?” Se sim, a venda se tornava mais fácil. Se não, o comerciante buscava outras estratégias. Um segredo para se manter ativo por tantos anos é trabalhar e pouco descansar, garante. A loja era uma das poucas da Marechal Floriano que se mantinha aberta o dia inteiro, de segunda a sábado. “Se eu ficar em casa dormindo, não entra nenhum centavo. Então venho trabalhar”, comenta.

“Eu me senti muito feliz aqui dentro”

Chegando a hora da despedida do local em que trabalhou por quase meio século, Renê Krueger analisa friamente o fim do Bazar Santa Cruz, mas deixa escapar a emoção quando lembra dos clientes. “Deus colocou a cabeça acima do coração para que os sentimentos não predominem sobre o juízo. Mesmo acreditando nisso, é evidente que a gente sente. Hoje mesmo uma cliente minha comprou uma mercadoria e na hora de nos despedirmos eu me emocionei, pois ela fez questão de vir me dar um abraço”, salientou.

Com a memória fresca, Krueger lembra com exatidão o tempo dedicado ao Bazar Santa Cruz. “Comecei em 28 de junho de 1973. Na próxima segunda-feira, quando encerrarei as atividades, fecho 46 anos, 3 meses e 7 dias com a loja. Passaram tantas pessoas e posso dizer que eu me senti muito feliz aqui dentro.” Para finalizar, outra frase de efeito: “Peço a todos que tratem bem as pessoas, pois é bom ser importante, mas o importante mesmo é ser bom.”