Altos custos 04/10/2019 20h15 Atualizado às 18h12

Tradicional videolocadora de Santa Cruz fecha as portas neste sábado

Todos os filmes – hoje em torno de 6 mil – estão à venda, inclusive lançamentos. Os mais baratos saem por R$ 5,00

A Tropical Video do Shopping Santa Cruz vai abrir suas portas pela última vez neste sábado, 5, a partir do meio-dia.
Criada em 1985, quando os videocassetes e fitas VHS eram uma novidade, a empresa funcionou em diferentes endereços até se fixar exclusivamente no shopping. Agora, a mais tradicional videolocadora de Santa Cruz do Sul encerra suas atividades, diante dos altos custos para manter o negócio e a redução da clientela, que tem optado pelos serviços de streaming e downloads. Para se adaptar ao novo cenário da concorrência digital, a empresa buscou diversificar com a venda de produtos criativos, especialmente relacionados com cinema. Há algum tempo, passou a vender os DVDs e blu-rays do acervo. Todos os filmes – hoje em torno de 6 mil – estão à venda, inclusive lançamentos. Os mais baratos saem por R$ 5,00. Para os interessados, neste sábado a loja estará aberta até as 21 horas.

“É uma pena. Vamos sair daqui com o coração apertado, sobretudo por causa dos clientes com quem tínhamos ótima relação”, disse Clodoaldo de Souza, que adquiriu o ponto do antigo proprietário, Luiz Moraes. E a clientela realmente não era de se desprezar: a Tropical tem um cadastro com cerca de 103 mil nomes. Mesmo que muita gente não tenha aparecido mais, ou uma ou duas vezes por ano, o número impressiona de qualquer modo. “Faltou pouco para termos a população toda de Santa Cruz”, brincou Souza. Sob a direção dele, ao lado da esposa Jábia, a Tropical Video Store começou a funcionar em 1º de outubro de 2015. Naquela época, a Netflix já existia e as perspectivas não eram as mesmas de outros tempos, mas ainda havia bom movimento. Souza decidiu apostar por causa do ponto, além da ótima clientela, e pretendia transformar aos poucos a locadora em uma loja de presentes.

No início, era possível fazer até 300 locações em um sábado, dia de maior procura. “Isso era um terço do que se locava nos áureos tempos da Tropical, mas um resultado positivo para nós.” Os lançamentos mais promissores eram disponibilizados em várias cópias. Esse ritmo de compras diminuiu com o encolhimento do mercado, mas a loja nunca deixou de oferecer novidades. Rocketman, por exemplo, cinebiografia do cantor Elton John que fez sucesso nos cinemas recentemente, está em uma das prateleiras. E até clientes novos têm aparecido. “Havia gente abrindo ficha na semana passada”, contou Souza.

Ele faz questão de reforçar o bom atendimento como uma das marcas da empresa. Nesse quesito, se a Tropical teve um “rosto” nos últimos anos, sem dúvida foi o de Rosângela Thies. Funcionária durante 11 anos, ela estará também neste sábado atendendo o público. “As pessoas saem perdendo com o fechamento da locadora. A maioria dos filmes não está na Netflix”, comenta. Sobre o acervo, Souza planeja formas de manter o atendimento aos clientes preferenciais com a venda dos filmes restantes, que também estarão disponíveis pela internet.

Entusiasmo para seguir em frente
Com o fechamento da Tropical, pelo menos duas locadoras seguem em atividade na área central de Santa Cruz: a Center Vídeo, que mantém uma loja na Senador Pasqualini, além da matriz na Senador Salgado Filho, e a Distaky Vídeo.

“Sou apaixonada por meu serviço”, afirma a proprietária da Distaky, Geni Petry. À frente do empreendimento desde 1995, ela tem seu espaço junto ao Posto Nevoeiro, no cruzamento da Marechal Floriano com a Senador Pinheiro Machado. Além de filmes, também vende lanches e produtos de beleza, entre outros itens, como em uma loja de conveniências. “Eu me viro. Se a locadora não dá, vendo perfumes”, brincou.

Mas a paixão de Geni, sem dúvida, são os filmes. Ela não esconde o entusiasmo quando fala do assunto. Faz questão de elogiar a Associação dos Amigos do Cinema de Santa Cruz do Sul, que promove exibições gratuitas todas as terças-feiras, na sede do Sindicato dos Bancários. “Um bom filme conta uma boa história, mostra coisas que não conseguimos ver, pessoas diferentes, vidas diferentes. Tudo isso é cultura”, ressaltou. Ela mantém a Distaky funcionando das 9 da manhã às 21 horas da noite, sem fechar ao meio-dia. Só não abre aos domingos.

Geni recorda da época em que empregava cinco funcionários e chegava a locar até 500 filmes em um sábado – hoje, no máximo, chega-se a 80. “A gente não sabia nem pra que lado ia, de tanto que trabalhava. Era um tempo em que comprávamos até 20 filmes por semana. Hoje, não adquirimos nem dez por mês.” Pirataria, internet e por fim recursos como a Netflix fizeram a procura arrefecer. Na década de 1990, quando o ramo estava em alta, as diversas videolocadoras santa-cruzenses se organizaram em uma associação. Geni Petry foi a primeira presidente da entidade, cargo que ocupou durante um ano.

Com 8 mil filmes no catálogo, ela também pôs seu acervo à venda – com exceção dos lançamentos, que são exclusivos para locação. Por R$ 10,00, dá para comprar três títulos dos mais antigos. A unidade sai por R$ 3,50. Os DVDs seminovos ficam na faixa de R$ 5,00 a R$ 7,00. Já os filmes em blu-ray custam R$ 15,00 a unidade. O fone/Whats é 99868 4094.

Foto: DivulgaçãoNa Distaky, que funciona junto a um posto de combust´íveis, Geni ainda resiste e lança mão de alternativas para manter seu espaço
Na Distaky, que funciona junto a um posto de combust´íveis, Geni ainda resiste e lança mão de alternativas para manter seu espaço
Foto: Alencar da RosaNa Distaky, que funciona junto a um posto de combust´íveis, Geni ainda resiste e lança mão de alternativas para manter seu espaço
Tradicional locadora santa-cruzense encerra as atividades neste sábado, a partir do meio-dia. Todo o acervo está à venda

Além do saudosismo
Seria só nostalgia ou saudosismo que explica o apego aos DVDs? Talvez não. TV a cabo, Netflix e outros recursos dão a impressão, à primeira vista, de que disponibilizam todos os títulos capazes de satisfazer a curiosidade dos cinéfilos mais exigentes. Porém, quem já está familiarizado com esses meios geralmente sente falta de alguma coisa, seja em termos de novidades, seja no que se refere a filmes mais antigos ou clássicos.

Para os colecionadores, nada substitui a satisfação de guardar o produto físico em sua estante. O equivalente a uma biblioteca pessoal, só que de DVDs ou blu-rays com seus filmes preferidos. Fetichismo? Pode ser.  Mas é uma forma específica de fruição. Pois a questão é que, assim como os livros, certos filmes merecem ser guardados. Vale a pena tê-los por perto, porque são especiais. E não se sabe por quanto tempo ainda haverá meios de cultivar esse tipo de paixão “esquisita” (para alguns, claro). Mas, enquanto há tempo, minha recomendação é: aproveite os preços acessíveis e as boas oportunidades, porque é provável que não se repitam. (L. F. F.)

 

Foto: Alencar da Rosa