Sorte no amor? 04/10/2019 21h02 Atualizado às 10h33

O Lado Pessoal: Seu Carlos procura alguém

Ele quer encontrar uma pessoa que possa fazer com que se sinta feliz de novo. Alguém com quem compartilhar a vida que ainda lhe resta

Já fiz muita coisa estranha nesta minha vida, mas a função de Cupido é a primeira vez. Seu Carlos (ele achou melhor omitir o sobrenome) chegou até mim por meio de um anúncio nos Classificados da Gazeta do Sul. Meus colegas recortaram e colocaram na minha mesa, com um bilhetinho: “Esta é daquelas que tu gosta. É a tua cara.” Recuei a cadeira da mesa, torci o nariz e me pus a ler aquilo que seria o meu semblante.

“COMPANHEIRA! Viúvo, mais de 65 anos, boa saúde, mora sozinho, perímetro urbano, procura companheira com mais de 55 anos. Oferece salário, plano de saúde médica e dentária, moradia, direito em pensão do INSS. Informações somente das 14h às 20h, diariamente, fone...” Bem, o número do telefone eu vou publicar lá na última linha, que eu não sou um Cupido muito fácil. É que é, também, uma maneira de te segurar aqui, nesta leitura, até o finalzinho, ok. Ficou curioso, né?

De fato, a minha cara. Meus colegas tinham razão. Gosto de histórias, de boas histórias, histórias que envolvam “gentes” e o inusitado dessas “gentes”. Liguei para o seu Carlos e marquei um encontro, mas fui logo avisando que não se tratava de mais uma pretendente. Se não faço isto, imagine a decepção! Ao ouvir a sua voz, caiu por terra qualquer tipo de apreensão que eu pudesse ter com relação ao fato de ele, com todo o direito, não querer me atender. Mas seu Carlos é esperto, bom marqueteiro. Cordial, me passou seu endereço, me avisou que a casa estava meio bagunçada, que eu não reparasse, e disse que, sim, eu seria muito bem-vindo.

Bah, larguei tudo, peguei a viatura e me mandei lá para o... para a... Bem, seu Carlos também não me autorizou a dizer onde mora. Mas lhes asseguro com toda a minha sinceridade, garotas, ele mora bem. Muito bem. Sozinho. E eu não vi nenhuma bagunça, pelo contrário: uma casa bem cuidada, com um bom pátio, de frente e fundos, cozinha totalmente aparelhada, limpinha, com todo luxo e conforto – inclusive com um bom fogão a lenha –, forno elétrico, micro-ondas, panelas elétricas para arroz, etc. Seu Carlos fez questão de me mostrar tudo, antes da nossa conversa. Fiquei encantado. Realmente impressionado. Para um solitário, de uma certa idade, tem gerenciado muito bem a sua vida. Quase me ofereci como pretendente... Hehe!

Enfim, sentamos na sala e ele começou a me contar a sua história. Com lágrimas nos olhos, nas partes mais tristes. Seu Carlos é viúvo recente. Sua esposa, a mulher com quem esteve casado por uma vida inteira, faleceu no dia 6 de março e, desde então, é como se ele houvesse penetrado num mundo de trevas. “Preciso ter uma companheira para todas as situações, mas principalmente para acabar com esta nostalgia, tirar este escuro da minha frente, a solidão, a depressão.” Ele tem, de fato, um pouco mais do que os 65 anos que colocou no anúncio, mas garante estar apto e habilitado para toda e qualquer situação que um relacionamento a dois sugere ou necessita. E seu Carlos é “bem apessoado”, como se dizia antigamente. Tem olhos azuis.

Pergunto quantas pretendentes já apareceram após a publicação do anúncio e ele disse que a coisa começou a bombar quando ele passou da seção “Recados” para a seção “Outras funções”. Entre visitas e telefonemas, foram cerca de vinte pessoas, mulheres de tudo quanto é tipo, desde as mais recatadas e contidas até as mais atrevidas e afoitas, que já vão logo propondo uns... Bem, você sabe.

Mas seu Carlos está mesmo interessado é em uma pessoa legal, inteligente, de cabeça feita, sem problemas; uma companheira fiel, para livrá-lo da solidão e acompanhá-lo na caminhada que ainda lhe resta nesta vida. “Mas nenhuma lhe interessou?”, pergunto, curioso. Os seus olhinhos azuis brilham na penumbra do fim da tarde: “A que vem amanhã (sexta-feira, no caso) me parece boa gente. Vou fazer uma lasanha para ela.”

Para um clima mais intimista e aconchegante, começa a chover. Choveu toda a madrugada de quinta e na manhã de sexta. Os deuses estão do lado dos enamorados. Nossa conversa vai chegando ao fim e seu Carlos me acompanha até o carro: “Ah, não esquece de colocar o número do meu telefone, tá”. Boa, bem lembrado, está lá, nos Classificados, no Outras Funções: 3711 1591. “E, Mauro, só mais uma coisinha: se der tudo certo, tu vai ser o meu padrinho, ok?”