Educação 04/10/2019 22h44 Atualizado às 09h03

Afinal, qual será o futuro da Escola José Mânica?

Declaração do chefe da 6ª CRE em entrevista à Gazeta preocupou diretora. Ela interpretou que a escola poderia, inclusive, ser fechada

Entra ano e sai ano, a situação da Escola Estadual de Ensino Médio José Mânica, em Santa Cruz do Sul,  mantém-se na mesma. No último mês de setembro completaram-se sete anos da interdição de um dos prédios do educandário, que, posteriormente, em janeiro de 2013, foi demolido. Desde então, parte dos alunos vem tendo aulas em salas modulares. A cozinha e o refeitório foram alocados em um contêiner e o único prédio de alvenaria existente hoje no terreno da escola já apresenta indícios de deterioração, a exemplo do que precisou ser demolido.

Foto: Cristiano Silva Diretora guarda pasta com notícias veiculadas na Gazeta sobre a situação do Mânica
Diretora guarda pasta com notícias veiculadas na Gazeta sobre a situação do Mânica

Diante de todos os problemas estruturais da escola, em entrevista à Gazeta do Sul publicada na edição de 13 de setembro, recém-empossado pela segunda vez seguida como coordenador da 6ª Coordenadoria Regional de Educação (6ª CRE), Luiz Ricardo Pinho de Moura, o Chiquinho, disse acreditar que talvez “não seja preciso uma obra tão faraônica” para a escola. Também comentou que seria necessário “fazer estudos sobre o que a comunidade projeta para o futuro”, pois se poderia estar “investindo em regiões onde o cenário será diferente em breve”.

A fala revoltou a comunidade escolar da José Mânica, que pediu explicações sobre o futuro da instituição de ensino, por ora incerto. “Essa declaração do coordenador nos decepcionou muito. Estão todos revoltados, pois nos pareceu que a escola José Mânica corre o risco, inclusive, de fechar as portas e de ter seus alunos e funcionários distribuídos para outras da região, mesmo com a nossa sendo a única instituição de ensino médio do Distrito Industrial e das proximidades”, comentou a diretora do educandário, Daiane Lopes. Segundo ela, essa possibilidade já havia sido levantada pela 6ª CRE. “Como o coordenador já nos disse que não descartava essa possibilidade de fechar, e que deslocar para outras escolas seria a solução, interpretamos dessa forma”, ressaltou a diretora.

Contatado pela Gazeta, Moura nega que fechar o Mânica seja algo cogitado por ele. “Hoje, entendo que não há possibilidade e nunca foi cogitado por nós, até mesmo porque é a única escola que oferece ensino médio naquele bairro.” Sobre a obra do tão sonhado novo prédio “não precisar ser tão faraônica”, Chiquinho revela que quando chegou na 6ª CRE, em 2015, encontrou um Plano de Necessidades de Obras (PNO) que tinha sido planejado pela administração anterior, onde estava incluída a construção da José Mânica.

“O projeto era de uma estrutura muito significativa, onde o custo estava orçado em cerca de R$ 4 milhões. Analisando a necessidade e a importância dessa obra para a escola, entendemos que não havia motivo dela ter um custo tão alto”, frisou. “No fim de 2018 conversamos com a diretora Daiane e solicitamos que a escola pensasse em um projeto que atendesse às necessidades, tornando-se mais acessível e com maior possibilidade de ser executado. A escola, com o apoio da 6ª CRE, realizou essa solicitação.”

Secretaria confirma início das obras para o mês que vem
Chiquinho citou na entrevista à Gazeta o fato de haver “obras mais urgentes para o Estado”, em outra declaração que desagradou à comunidade escolar da José Mânica. “Não sou só eu. Todo mundo ficou revoltado com as declarações dele. No ano passado, ele veio aqui e fez reunião com o Conselho Escolar, o CPM e o Grêmio Estudantil e não só garantiu que a obra do novo prédio sairia como disse que era prioridade, sendo que agora, na entrevista, disse que há obras mais urgentes”, frisou a diretora do Mânica, Daiane Lopes.

Para Luiz Ricardo Pinho de Moura, a obra continua sendo prioritária. “Reforço que há necessidade da construção de um novo prédio. Foi uma vitória para 6ª CRE e para toda a comunidade escolar quando, no fim de 2018, dentre os critérios estabelecidos pelo governo do Estado da época, ela passou pelo Comitê Gestor e foi aprovada para realizar os projetos arquitetônico, elétrico, estrutural e hidráulico no decorrer de 2019. A sondagem do solo, necessária para as demais etapas, já está em fase de contratação”, disse, lembrando que na própria escola já foi concluída uma sondagem de solo em agosto deste ano para a reforma do prédio existente.

Procurada pela Gazeta do Sul, a Secretaria Estadual da Educação reafirmou o compromisso de iniciar as obras do novo prédio em novembro. Ainda conforme a secretaria, o projeto arquitetônico está pronto, porém há ainda algumas situações a serem finalizadas, e “se mantém, por enquanto, o prazo”. O custo total da obra do novo prédio será de R$ 1 milhão, oriundo do Tesouro do Estado.

Recurso para reforma retornou ao Estado
Ainda em julho do ano passado, a escola foi contemplada com recurso de R$ 150 mil, repassado pela Secretaria da Educação por meio do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), para utilizar em reformas no prédio de alvenaria que ainda existe no terreno. Com o dinheiro já na conta, no entanto, a escola não foi autorizada a utilizá-lo. Passado quase um ano, no último mês de junho veio a notícia que ninguém esperava: o dinheiro retornaria ao governo do Estado, sem ser utilizado no prédio.

A assessoria da secretaria alegou à Gazeta que as escolas que não tinham projetos prontos até 31 de maio tiveram que devolver o valor e que ele seria utilizado pelo Estado em outras demandas. De acordo com a pasta, os projetos seriam de responsabilidade das secretarias estaduais da Educação e de Obras, junto com a escola. A diretora do Mânica contesta a informação. “Foi nos dito que era para aguardar e que, a partir das demandas que a escola já tinha mandado, do que precisava da reforma, a Secretaria de Obras do Estado iria fazer o projeto. Nós não temos como custear um projeto desses, sendo que é de responsabilidade deles. Em junho, então, nos chamaram para uma reunião e comunicaram que não conseguiram fazer os projetos a tempo e que o valor retornaria.”

Deterioração de prédio assusta também os pais
Conforme Daiane Lopes, a relação com a 6ª CRE começou a piorar a partir do momento em que foi pedido para que algumas turmas fossem unidas. “Toda semana eles querem fechar turmas. As salas modulares não comportam mais do que 20 alunos, e mesmo assim o professor nem consegue circular pelas classes. Aí querem que a gente una turmas para diminuir custos de professor e superlote esse prédio que ainda tem e que já começa a apresentar os mesmos problemas do que foi demolido. Não vou correr esse risco”, afirma, citando que, pela movimentação do prédio, as janelas mal abrem e lascas acabam soltando das paredes.

A situação do prédio existente já foi apontada por pais como justificativa para tirar os filhos da escola. “Já perdemos alunos pelo fato de os pais estarem assustados com o estado em que está este prédio. Perdemos o dinheiro do Bird, com tanta coisa que há para fazer na escola, sendo que tínhamos prometido aos pais que iríamos reformar o prédio com esse dinheiro. Aí agora os pais pensam que é a gente que não administrou, quando na verdade o dinheiro nem pôde ser usado”, referiu.

Outra situação que assusta a comunidade escolar da José Mânica está no Plano de Prevenção e Proteção contra Incêndios (PPCI) do educandário, que estaria vencido desde 2016. A cozinha e o refeitório do Mânica ficam em um contêiner e contam com um fogão, forno e ar-condicionado próximos a uma parede de PVC, material altamente inflável, causando preocupação à diretoria. Conforme a Secretaria da Educação, não há prazo para os PPCIs serem implementados, pois encontram-se “em fase de avaliação e de organização de projetos para elaboração”. Sobre a reforma no prédio da escola, a secretaria diz que obras que não puderam ser concluídas com o recurso do Bird, em razão da falta de projeto, serão feitas com recursos do Tesouro do Estado.

A diretora ainda brinca sobre o fato de a José Mânica ter recebido um prêmio recentemente. “Dentro do projeto Jovem Conectado, do governo do Estado, recebemos o selo Escola Criativa pelo trabalho que nossa comunidade escolar vem desenvolvendo aqui. Como não vamos ser criativos numa situação dessas? Precisamos nos virar com caixa de fósforo, com alunos pintando paredes, reciclando material, fazendo bancos de pneus”, disse. “Jamais esquecemos da parte pedagógica e motivamos os alunos. Eles não podem ser punidos por essa desorganização que fazem conosco.”

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