Exclusivo 08/10/2019 21h25 Atualizado às 09h36

O que revela o depoimento do ex-assessor de Lersch

Carlos Henrique Gomes da Silva, que foi preso junto com o ex-vereador em junho, confirmou o esquema de captação de salários

Apontado pelo Ministério Público na denúncia que levou o ex-vereador de Santa Cruz Paulo Lersch à cadeia em junho, o ex-assessor Carlos Henrique Gomes da Silva confirmou ao Ministério Público a existência do esquema de captação de salários de servidores da Câmara. Em depoimento, afirmou ainda ter sido obrigado a fazer empréstimos em seu nome para Lersch e ter sido pressionado por ele, dentro do Presídio Regional, a não colaborar com a investigação.

O depoimento de aproximadamente 65 minutos, ao qual a Gazeta do Sul teve acesso, foi prestado no início de agosto, dias antes da soltura de Carlos, e está anexado a um procedimento que tramita em sigilo. Nas ações judiciais movidas pelo MP contra Lersch, Carlos e a mãe do ex-vereador, Nersi Ana Backes, Carlos é acusado de ser o responsável por orientar e advertir os servidores quanto à obrigação de recolherem as parcelas de seus salários.

Ao promotor Érico Barin, porém, Carlos, que passou a trabalhar para Lersch durante a campanha de 2012, afirmou que também era obrigado a repassar ao ex-vereador parte de seus vencimentos na Câmara e que isso era uma condição para permanecer no cargo. Embora a denúncia do MP tenha sido feita com base nos depoimentos de duas assessoras, que teriam repassado em torno de R$ 60 mil ao ex-parlamentar, Carlos indicou que a cobrança era feita sobre todos os servidores indicados por Lersch, inclusive na Prefeitura.

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Preso há 126 dias, Lersch aguarda uma decisão da juíza da 1ª Vara Criminal, Luciane Glesse, em relação ao terceiro pedido de soltura protocolado por sua defesa. A fase de depoimentos do processo terminou no último dia 27. Agora, defesa e acusação têm prazo para apresentar as alegações finais antes da sentença. Lersch aguarda ainda o julgamento de um habeas corpus no Tribunal de Justiça, em Porto Alegre, e de um recurso extraordinário junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Lersch, Carlos e Nersi respondem por concussão, associação criminosa e coação no curso do processo.

Dinheiro seria guardado em caixa dentro do gabinete
Mais um ex-assessor de Paulo Lersch confirmou ao Ministério Público o esquema de captação de salários. Em depoimento prestado em junho, dias após a prisão do ex-vereador, Nestor Metz, que trabalhou na Câmara por três anos e depois ocupou cargo na Prefeitura, disse que chegou a entregar 80% do que ganhava para Lersch.

Metz foi assessor do gabinete de Lersch entre dezembro de 2013 e novembro de 2016. Em janeiro de 2017, por indicação de Lersch, assumiu um cargo na Secretaria Municipal de Habitação, onde permaneceu até o mês passado.

Ao MP, Metz contou que estava desempregado quando recebeu o convite de Lersch para trabalhar como seu assessor. Logo após sua posse, soube que teria de repassar parte de seu salário para o vereador. Segundo Metz, ficou claro que essa era uma condição para permanecer no cargo.

Conforme ele, Paulo Lersch alegava que os recursos seriam utilizados para fazer “caixa” para a próxima campanha e quitar despesas da campanha anterior, além de “ajudar pessoas carentes”. Em certo momento, Metz teria feito um apelo ao vereador, argumentando que sua situação financeira particular estava difícil, mas as cobranças continuaram. A orientação de Lersch era de que sacasse no banco a integralidade do valor do salário e a parcela fosse deixada em uma caixa no gabinete.

Quando assumiu a função na Prefeitura, as parcelas repassadas a Lersch teriam ficado menores – em torno de 30%. Nesse período, o dinheiro era entregue diretamente ao vereador, geralmente na saída das sessões da Câmara.As declarações de Metz levaram à instauração de um novo inquérito pelo Ministério Público.

O que Carlos Henrique disse:

Divisão de salário
Carlos Henrique relatou ao MP que conheceu Paulo Lersch antes da vereança e trabalhou de forma voluntária para sua campanha em 2012. Quando Lersch se elegeu, convidou Carlos para ser seu assessor e este se demitiu do antigo emprego em um escritório. Logo após a nomeação, porém, Lersch teria lhe informado que deveria repassar a ele parte do seu salário, sob alegação de que, na condição de vereador, suas despesas iriam aumentar. “Ele questionou quanto eu recebia no escritório, equiparou o meu salário ao do escritório e a diferença eu repassava para ele”, contou. Segundo o ex-assessor, o repasse se dava da seguinte forma: parte das despesas de Lersch (como patrocínios a entidades, manutenção de veículos, auxílios a eleitores e até gastos da empresa de refeições da qual era sócio) era feita por meio do cartão de crédito de Carlos e outra parte era repassada diretamente ao vereador – o que ocorria “sempre da forma mais discreta possível”. Conforme Carlos, aproximadamente metade de seu salário ficava com o vereador. Em 2017, quando foi exonerado do cargo de assessor parlamentar e nomeado assessor da Mesa Diretora da Câmara, todas as verbas indenizatórias teriam sido repassadas a ele.

“Todo mundo queria trabalhar”
Conforme o ex-assessor, o recolhimento de parte dos salários era imposto a todos os assessores ligados a Lersch e durante todo o período em que ocupavam os cargos. Questionado pelo promotor Érico Barin se em algum momento teria havido “revolta” dos assessores em relação à situação, Carlos alegou que estava “subentendido” que aquela era uma condição para a manutenção do emprego. “Todo mundo queria trabalhar, né”, observou.

Empréstimos
Carlos também afirmou que, a pedido de Paulo Lersch, empréstimos foram feitos em seu nome para cobrir despesas do então vereador. Um desses financiamentos teria sido tomado em 2017, ano em que Lersch tornou-se presidente da Câmara. Na ocasião, ele teria alegado que havia comprado imóveis no Bairro São João e estava no fim do prazo para pagar, mas não possuía crédito suficiente. Por causa disso, precisaria usar o nome do assessor para fazer um empréstimo consignado de R$ 54 mil. Durante o período em que as parcelas foram abatidas de seu salário, Carlos deixou de repassar valores a Lersch.

Conta bancária
Uma conta bancária cujo titular era Carlos teria sido usada por Lersch para efetuar depósitos durante um período. O dinheiro, que provavelmente vinha da captação de salários de servidores da Câmara, seria uma espécie de “caixa” para futuras campanhas eleitorais. Essa conta chegou a receber R$ 40 mil.

Cargos
Carlos detalhou todos os cargos que foram indicados por Lersch tanto na Câmara quanto na Prefeitura. Algumas situações chamam a atenção: o ex-vereador teria, por exemplo, indicado a esposa para trabalhar como dentista na Casa da Criança, que à época fornecia profissionais para a Secretaria Municipal de Saúde. Também teria indicado pessoas para trabalhar como copeiras por meio de uma empresa terceirizada da Câmara. Em 2018, Lersch teria tentado negociar com o governo para se tornar secretário municipal, mas o Palacinho não quis, devido à sua filiação com o PT. Em compensação, teria recebido o direito de indicar mais um cargo no Executivo, o que aconteceu após a aprovação da polêmica Lei dos Vales, em julho, quando ele votou a favor do governo.

Recados no Presídio
Paulo Lersch e Carlos Henrique passaram as primeiras semanas dividindo o setor de cozinha no Presídio Regional. Nesse período, segundo o depoimento, Lersch costumava dizer ao ex-assessor que a situação dos dois seria resolvida e ele não deveria repassar informações à Promotoria. Depois, quando já não frequentavam os mesmos ambientes da penitenciária, Lersch teria mandado recados a Carlos, por meio de intermediários, indicando que ele sabia da sua decisão de colaborar com a investigação. “Ele deu a entender que pessoas que teriam de ajudá-lo estavam deixando ele de lado”, afirmou. Lersch teria tentado, inclusive, passar um recado por escrito a Carlos, mas sem sucesso.

“Entendo que eu errei”
Ao ser perguntado se tinha ciência de que era cúmplice de atos ilegais, Carlos alegou que só descobriu como as coisas funcionavam quando já havia se demitido do antigo emprego para assumir o cargo na Câmara e tinha medo de ser prejudicado caso se rebelasse contra a situação. “Entendo que eu errei, mas eu só quis trabalhar.”