Arquivo histórico 30/11/2019 16h03

Rio Pardo expõe obra pioneira do Romantismo

Público pode conferir cópia digitalizada do livro de poesias Brasilianas, de 1863, do rio-pardense Manuel Araújo Porto-Alegre

O Arquivo Histórico Municipal Biágio Soares Tarantino, de Rio Pardo, desde essa sexta-feira, 29, disponibiliza para consulta ao público mais uma obra inédita no seu acervo. Com mais de 100 mil arquivos que acolhem os períodos Colonial, Imperial, Republicano, datados de 1760 até nossos dias, o espaço no segundo andar do prédio da Prefeitura conta agora com a exposição permanente da obra de poesias Brasilianas, de 1863, pioneira do Romantismo no Brasil, de autoria do rio-pardense Manuel José de Araújo Porto-Alegre, primeiro e único barão de Santo Ângelo.

Resultado de 15 anos de estudos sobre o escritor, o pesquisador Emiliano Limberger entregou ao prefeito Rafael Reis Barros uma cópia digitalizada com os três tomos da coletânea de poesias Brasilianas e do poema épico Colombo. Limberger afirma que levou cinco anos para convencer a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a ceder o material para ficar disponível no Arquivo Histórico. “São três CDs de uma obra pioneira no País, com 2.550 versos e 1.315 páginas da obra Brasilianas, que agora será possíveis consultar em Rio Pardo”, destacou, lembrando que o autor completaria nessa sexta-feira 213 anos de nascimento.

Em uma estante, também doada por Limberger, está exposto no Arquivo Histórico de Rio Pardo o desenho da cruz invertida, emblema (escudo) da tradicional família Araújo, válido em Portugal e no Brasil. O símbolo ainda aparece no solar da Rua da Ladeira, número 242, em Rio Pardo, onde nasceu o escritor. No espaço do arquivo também há uma cópia da capa do jornal O Mensageiro, de 13 de janeiro de 1930, com destaque para a chegada dos restos mortais de Araújo em Rio Pardo seis dias antes. O túmulo do artista está no Cemitério Municipal da cidade. Além disso, os visitantes encontram uma cópia do texto Observação, uma espécie de prefácio na obra Brasilianas, e reproduções de caricaturas feitas pelo artista.

Base do estudo
As principais obras que serviram de base para os estudos de Limberger foram História do Rio Grande do Sul, publicada originalmente em 1924 por João Pinto da Silva, e História da Literatura do Rio Grande do Sul, escrita no ano de 1956 por Guilhermino Cesar. Limberger destaca que os dados do texto introdutório da obra Brasilianas, com o título Observação, provam que Manuel de Araújo Porto-Alegre foi o introdutor do romantismo literário no Brasil. “Ele mostrou uma postura importante de nacionalismo”, ressalta o pesquisador.

Dedicação a diversas profissões com proficiência
Os estudos de Emiliano Limberger mostram que Araújo Porto-Alegre exerceu 15 profissões com proficiência, tendo a qualidade reconhecida pelo imperador D. Pedro II. Araújo Porto-Alegre introduziu o estilo romântico na arquitetura brasileira, com o projeto do Cassino Fluminense, onde hoje é a sede do Automóvel Clube do Brasil, no Rio de Janeiro. No alto da construção há a escultura de um índio com um ramo de pitangueira, substituindo as clássicas obras até antes nos prédios, com símbolos romanos ou gregos. Também inovou com a publicação de charges políticas em revistas especializadas e criou peças de teatro de vários gêneros.

Araújo Porto-Alegre foi escritor do Romantismo, político e jornalista, pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro. Ele nasceu em Rio Pardo em 29 de novembro de 1806 e aos 10 anos mudou-se para Porto Alegre a fim de estudar. Na capital gaúcha, iniciou os estudos de pintura e desenho com o pintor francês François Thér e com os cenógrafos Manoel José Gentil e João de Deus. Em 1827, no Rio de Janeiro, matriculou-se na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba). Durante viagem para a Inglaterra e Bélgica, fundou com o poeta Gonçalves de Magalhães a revista Niterói, em 1836, um dos marcos iniciais do movimento romântico na literatura brasileira.

Porto-Alegre realizou a decoração das cerimônias de coroação e de casamento de D. Pedro II. Em 1843, participou da fundação da Revista Minerva Brasiliense, onde publicou alguns versos do poema Brasiliana, que foi publicado na íntegra apenas em 1863.

Projeto do antigo Cassino Fluminense introduziu o estilo romântico na arquitetura do País. Reprodução: Lula Helfer

Na área política
Nos anos 1850, ingressou na política e em 1852 assumiu suplência na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Em 1854 apresentou projeto de reforma do ensino da Aiba, a pedido do imperador. Dom Pedro II aprovou as ideias, e Porto Alegre tornou-se o novo diretor da instituição. Em 1860, entra para o serviço diplomático e é nomeado cônsul do Brasil em Berlim. Fica na cidade por dois anos, depois é transferido para Dresden, onde permanece até 1866, ano em que publica o poema épico Colombo, com mais de 20 mil versos. Segue para Portugal em 1867 e assume o cargo de cônsul-geral em Lisboa. Ele faleceu em 30 de dezembro de 1879, em Lisboa, Portugal.

Inovação: escultura de um índio. Reprodução: Lula Helfer