BIOLOGIA 19/02/2020 20h44

Peixes elétricos são comuns nas águas da região

Mas não se assuste: as espécies encontradas no Estado produzem descargas de poucos ampères e podem ser pegas com as mãos

Você sabia que existem peixes elétricos no Rio Grande do Sul? Há mais de 120 espécies desses animais na América do Sul, sendo 15 conhecidas no Estado. Até poucos anos atrás, no entanto, os peixes elétricos eram quase desconhecidos nas águas gaúchas. O professor do Departamento de Ciências da Vida da Unisc, Andreas Köhler, explica que novas técnicas de coleta e análise taxonômica permitiram avanços e a descoberta de que essas espécies não são incomuns por aqui.

O peixe elétrico é uma denominação comum dada às espécies de peixe de água doce ou salgada, de gêneros diversos, dotadas de células na pele do seu corpo capazes de gerar diferenças de potencial elétrico, ou seja, de produzir descargas. Ao contrário de espécies que produzem grandes cargas elétricas, os peixes daqui geram descargas de poucos ampères, que não são perceptíveis. “É possível pegar com a mão todos os peixes elétricos do Estado sem sentir nada”, afirma o professor da Unisc.

Köhler ressalta que as descargas produzidas pelas espécies nativas da região servem para que elas se orientem nas águas escuras, encontrem alimento e possam se comunicar, mas não para defesa. Os peixes elétricos vivem em quase todos os ambientes alagados de água doce, bem como são frequentes em córregos e nos rios de pequeno porte, com até dez metros de largura. “No Vale do Rio Pardo, já registramos esses peixes em mais de dez municípios diferentes, em mais de 50 localidades”, salienta o biólogo.

Professor alemão pesquisa espécies no Vale do Rio Pardo
A Unisc, em parceria com a University of Veterinary Medicine de Hannover, da Alemanha, recebeu o professor Karl Heinz Willi Esser para pesquisas sobre a biodiversidade e o comportamento de peixes elétricos no Rio Grande do Sul. O trabalho, autorizado pelo Ibama e vinculado ao Laboratório de Zoologia do Departamento de Ciências da Vida da Unisc, é acompanhado pelo professor Andreas Köhler e por alunos e bolsistas.

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Esser é especialista em comunicação animal com base em sinais biológicos, como ocorre com peixes elétricos e morcegos, e trabalha há muitos anos com assuntos veterinários ligados a animais silvestres e domésticos. A cooperação entre as duas universidades já tem mais de dez anos e compreende visitas mútuas dos professores Esser e Köhler, no Brasil e na Alemanha. Com o apoio do professor alemão, ao longo dos últimos sete anos foi instalado o laboratório de fisiologia animal da Unisc, que hoje é um dos tecnologicamente mais avançados do País.

Köhler ressalta que a quantidade de dados levantados em poucos anos é bastante alta e os primeiros artigos em revistas internacionais já foram aceitos para publicação. “Com o andamento do curso de Medicina Veterinária, essa cooperação é importante para inserir o curso no cenário internacional, já que a Stiftung Tierärztliche Hochschule Hannover é uma das universidades mais bem-conceituadas no mundo”, argumenta. A expectativa é de que, nos próximos anos, o convênio possibilite a implantação de novas tecnologias de pesquisa na área de zoologia e ainda a mobilidade acadêmica para os estudantes.

Biólogo Régis Bohn, professor Andreas Köhler e professor Karl Heinz Willi Esser

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Características
As espécies do Rio Grande do Sul têm até 30 centímetros de tamanho e corpo alongado, que apresenta longas nadadeiras dorsais e ventrais. Devido a sua capacidade de se orientar com descargas elétricas, não podem ser capturadas com anzóis e dificilmente são apanhadas com redes.

Para o professor do Departamento de Ciências da Vida da Unisc, Andreas Köhler, esses peixes têm alta importância para os ecossistemas e teias alimentares da região, pois representam o elo ecológico entre os microrganismos e os peixes predadores. “Além disso, o estudo da sua ecolocalização (sinais elétricos) vai nos abrir possibilidades de melhor conhecer os ecossistemas da região, bem como criar novo sistema de monitoramento da qualidade da água”, ressalta.

Saiba mais
De abril a junho de 2020, a acadêmica Isabelle Tatge, da Stiftung Tierärztliche Hochschule Hannover, vai realizar os trabalhos experimentais de monografia na Unisc. Nesse período, irá estudar a espécie de peixe elétrico Eigenmannia trilineata, em conjunto com o biólogo brasileiro Regis Bohn. Em função dessa pesquisa, atualmente Bohn participa do curso sobre eletrofisiologia, realizado no Laboratório de Zoologia da Unisc. A expectativa é de que o trabalho fortaleça a cooperação entre as universidades e a inserção da Unisc no processo de internacionalização.

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