Incertezas 21/03/2020 09h42 Atualizado às 11h19

Momento instável preocupa produtores de tabaco da região

Além da estiagem, o medo de não ter lucro tem tirado o sono de quem depende do campo para viver

Com o tabaco já seco e estocado nos galpões, os produtores do Vale do Rio Pardo vivem certa angústia. O clima no interior é de muita dúvida, dada a instabilidade enfrentada pelo mercado por conta do coronavírus. Foi o que a Gazeta do Sul constatou ao visitar propriedades em Rio Pardinho, interior de Santa Cruz do Sul, nessa sexta-feira. Alguns moradores preferiram não se manifestar, mas não esconderam a aflição diante do quadro. Além dos prejuízos causados pela estiagem, há receito de, em meio à crise causada pela pandemia, não se conseguir vender bem a safra.

O agricultor Vanderlei Ivan Porath, 42 anos, mora com a esposa Rosangela Mare Ebert, 37, a filha Francilene, 8, e o pequeno Iago Artur, de 4 meses, em um sítio de pouco mais de 6 hectares. O tabaco, vendido direto para duas fumageiras da região, é a principal fonte de renda da família, que ainda diversifica a produção com as lavouras de milho e mandioca, gado, galinhas e porcos. “Começamos a colher no final de outubro e terminamos nos primeiros dias de fevereiro. Plantamos 30 mil pés, mas a seca nos cortou. A chuva veio na hora errada e faltou quando foi preciso”, relata.

A família planta dois cultivares da variedade Virgínia. A seca fez com que as plantas não se desenvolvessem, deixando as folhas pequenas e pouco enxutas. “Os últimos colhidos ficaram muito secos. Moramos aqui há 14 anos e nunca vimos uma safra tão ruim como essa. Vamos ter um prejuízo do tamanho da lavoura. Com seguro, insumos e sementes, gastamos cerca de R$ 10 mil e não sabemos ao certo o que vai nos sobrar”, desabafou.

O produtor rural relatou que a família enfrenta algumas dificuldades econômicas desde a safra passada, quando ele e a esposa não conseguiram vender o produto por um bom preço. Além disto, Vanderlei Porath e a esposa trabalham sozinhos e se desdobram com os demais serviços na propriedade. “Agora estamos parados, não temos como separar e surtir o tabaco, que está muito seco devido à baixa umidade, se quebra e se esfarela.” Porath não esconde a frustração com os efeitos da estiagem e, agora, da ameaça do coronavírus ao mercado. “Eu brinco, digo que vou largar tudo. Mas o que vou fazer daí?”, questionou.

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O clima já não mudou
Vanderlei torce para que as empresas sejam sensíveis no momento da compra. “Não está ruim, mas podiam comprar um pouco melhor, já ia amenizar um pouco a nossa crise. O custo de produção é muito alto. Não chegamos a vender ainda, mas os comentários dos produtores da região são de que as empresas estão endurecendo na negociação.” 


Atenta à pandemia da Covid-19, a família tem buscado se informar sobre os possíveis impactos na região, entre eles, a paralisação na indústria. “Recebemos a mensagem da nossa orientadora (na tarde dessa sexta-feira) dizendo que as fumageiras vão parar por conta do coronavírus. Esperamos que, com isso, elas venham a estender o prazo de compra. Acho difícil, mas estamos na expectativa que esse período seja prolongado.”

Por conta da dificuldade em manusear as folha secas, Vanderlei entende que esse não é um bom momento para comercializar seu produto. “Se está ruim vender com tabaco bom, imagina nós, com o tabaco ruim. Vamos acabar vendendo do jeito que está, mas não sabemos quanto vão nos pagar. Bem ou mal será vendido”, comentou. “O ideal seria se pudesse estocar, como a soja, em silos, e ir negociando conforme o valor, mas não temos esta condição. Na agricultura tudo é uma aposta, você planta não sabendo se vai colher ou vender bem.”

A família de Vanderlei Porath mantém a colheita em três galpões, ao lado da casa. Boa parte da produção ainda aguarda o melhor momento para surtir, manocar, classificar, enfardar e vender. Paralelo a isto, o agricultor terá que preparar a terra e criar caminho para que a próxima safra venha farta. Sempre torcendo para que o clima ajude.

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Vanderlei quer mais tempo até a venda

Mesmo com seca, produto está bem cotado nas empresas 
O diretor do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Santa Cruz do Sul, Sérgio Reis, relatou que a entidade está acompanhando a venda do tabaco. “Boa parte das empresas interrompeu as negociações diretas com o produtor. Não conseguimos falar muito com os agricultores nesses últimos dias. O produtor está compreendendo bem. O temor se dá pela comercialização pós, se o tabaco será ou não comprado com rigor maior. Mas ainda é prematuro avaliar agora. A safra teve uma queda, mas acreditamos que este fator de qualidade não irá alterar”, ressaltou. 

Reis ainda afirmou que os produtores não terão dificuldades de armazenar o produto, pois o calor e a baixa umidade contribuem para manter a qualidade do tabaco. “A estiagem castigou muito. As perdas podem ser maiores em questão de quantidade do que vinha se imaginando. Projetávamos até 30% na região e Estado, mas alguns indicativos apontam que esse número será maior. Porém, mesmo com a diminuição em volumes, na grande maioria dos casos a qualidade tem sido boa, dado o rigor do clima, e isto está sendo reconhecido pelas fumageiras na hora da compra”, disse. “É a maior seca nos últimos 50 anos, pelo menos.” 

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Aquisição de alimentos continua
Está garantida a manutenção do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) nas escolas públicas, mesmo durante o recesso escolar por causa do coronavírus. A informação foi dada nessa semana pela ministra da Agricultura , Pecuária e Cooperativismo, Tereza Cristina, e pelo secretário da Agricultura Familiar e Cooperativismo , Fernando Schwanke. A demanda havia sido encaminhada pelo presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária Gaúcha , deputado Edson Brum (MDB), ao secretário Schwanke.

De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, o setor emprega mais de 10 milhões de pessoas no Brasil, o que representa 67% do total de pessoas ocupadas na agropecuária. A legislação prevê que 30% dos recursos do PNAE precisam ser destinados à compra de produtos provenientes da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações. O secretário Schwanke explicou que as escolas estarão fechadas, mas a alimentação será distribuída uma vez por semana para os alunos, para que seja preparada em casa.

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