NA ITÁLIA 26/03/2020 16h54 Atualizado às 17h45

“Passou a assustar quando as mortes começaram a subir”, diz candelariense

Até essa quarta-feira, país europeu tinha mais de 7,5 mil óbitos causados pela pandemia, com 69 mil contaminados

A Itália é atualmente o epicentro do coronavírus no planeta. A cada dia, o mundo fica estarrecido diante dos novos números de óbitos causados pela pandemia: até essa quarta-feira, 25, eram mais de 7,5 mil, com 69 mil contaminados no país. De acordo com as autoridades de saúde, o número real de infectados pode ser dez vezes maior, já que muitas pessoas não demonstram os sintomas.

A candelariense Krisna Pereira, de 35 anos, mora em Milão há dez anos e, desde o início da pandemia, convive diariamente com o caos. Casada com o brasileiro Magno Gama de Souza, a química trabalha em uma indústria cosmética autorizada pelo governo italiano a continuar operando: a empresa deve produzir 12 toneladas de álcool gel durante os dias de crise sanitária.

Os primeiros casos de Covid-19 na Itália foram registrados na metade de fevereiro. Desde esse dia, segundo Krisna, os números de casos e de mortes não param de crescer. No início da disseminação, por recomendação médica, ela própria ficou de quarentena por dez dias em razão de um resfriado. “Meu marido é personal trainer e, como as academias foram as primeiras a serem fechadas, está de quarentena, trancado em casa há um mês.”

Conforme a brasileira, o governo começou fechando academias, escolas e cursos, e pedindo para que a população evitasse aglomerações. “Depois de uma semana, viram que as medidas não funcionavam e começaram a fechar lojas, shopping centers e cinemas, e a forçar as pessoas a ficarem em casa.”

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Como as medidas iniciais não surtiram efeito, a Itália precisou fechar bares, restaurantes e empresas e colocou a polícia nas ruas para multar quem não tem uma autorização de trabalho ou saúde. “Nessa última semana, o governo fechou outras indústrias e mandou o Exército para as ruas para terminar com os últimos casos de gente circulando.” Krisna ressaltou que no início da pandemia muita gente achava que fosse apenas uma gripe ou algo similar. “Mas depois de pouco tempo já começaram a dizer que não era bem assim e a perceber que era mais perigoso. No início falavam também que havia mais risco para pessoas de idade. Quando os números de contágios e de mortes começaram a subir, aí passou a assustar mais”, contou.

Krisna reforçou que o coronavírus não é perigoso apenas para pessoas idosas ou com patologias, já que muitos jovens na faixa dos 30 anos têm apresentado quadros de pneumonia grave e até perdem a vida para a doença. “Nos dias de hoje a situação está muito complicada para o sistema de saúde em geral, ou melhor, está um caos. O sistema sanitário aqui na Itália é realmente muito bom, tudo funciona e ninguém tem a necessidade de planos de saúde particulares. Nesse período, mesmo com essa estrutura e profissionais, todos os hospitais estão superlotados, não tem mais lugar nem nos corredores para receber pacientes”, relatou a candelariense.

O país organiza tendas para atender doentes não tão graves, utiliza a rede hoteleira como hospitais e constrói novos centros de atendimento em grandes locais das cidades, normalmente antes usados para eventos e feiras.

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Outra rotina
Uma das imagens que mais choca o mundo é a que registra uma fila de caminhões do Exército italiano carregando corpos dos mortos pelo coronavírus para serem cremados. A candelariense Krisna Pereira reforçou que muitos dos mortos foram pessoas que ficaram dias em isolamento no hospital, respirando por máquinas e sem ver a família, que não consegue se despedir de seus entes queridos porque os órgãos de saúde querem evitar novos contágios. “As pessoas são mandadas direto da UTI para os crematórios. É terrível.”

A brasileira narrou que a vida de todas as pessoas mudou completamente. “Agora está todo mundo trancado em casa há um mês. Só podemos sair para ir ao mercado, por saúde ou trabalho com autorização.” Nos supermercados, só é permitida uma pessoa por família e respeitando a distância de um metro das outras, com o uso de luvas e máscara. Para driblar a vida em isolamento, conforme Krisna, os italianos de todas as idades têm participado de cursos sobre diferentes temáticas e de aulas de atividades físicas, todos online.

Diante do que vê, a maior preocupação da brasileira é com a chegada do vírus ao Brasil. “O sistema sanitário em geral, aí no Brasil, não está preparado para isso que está acontecendo aqui.” Em suas redes sociais, Krisna recomenda que todos se isolem casa. “Não tem remédio nem vacina, e nem vai ter por enquanto. Então, o único modo é não ser contagiado. Muita gente está pensando e esperando que tenha esse miraculoso remédio, mas não é bem assim”, lamentou. Para continuar trabalhando e evitar o contágio, a moradora de Milão reforçou todas as medidas preventivas. Na sua empresa, os funcionários usam máscara e têm a temperatura aferida duas vezes por dia.

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