Sustentabilidade 24/04/2020 17h16

FOTOS: recicladora cria horta e pomar só com doações

Além das mudas que ela obtém com outras pessoas, os resíduos orgânicos encontrados no lixo tornam-se sementes

A reciclagem e a sustentabilidade fazem parte do cotidiano de uma moradora do Bairro São João, em Santa Cruz do Sul. Em uma casa simples, mas muito bem cuidada, na Rua Jonatas de Barros, mora Angelita da Silva Plate, de 50 anos, e os dois filhos, Fernando, 11 anos, e Andressa, de 9. Há quatro anos, a recicladora adquiriu o terreno com a ajuda da mãe, hoje falecida. Os materiais para a construção da casa foram doados pela Prefeitura. Já a obra foi erguida por muitas mãos.

No terreno de 251,45 metros quadrados, a recicladora e ex-moradora de rua construiu uma horta e um pomar somente com materiais doados ou que ela recolhe na rua. “Eu saio para coletar os materiais e, se no caminho encontrar algum tipo de chá que ainda não tenho, peço um galho. As batatas que encontro no lixo e já estão brotando, levo para casa e planto, assim como sementes de manga, maracujá, miolo de pimentão e outros.”

Angelita não planta só para ela: para a ex-moradora de rua, compartilhar é uma alegria

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Ela já tem diversas espécies de árvores frutíferas e hortaliças, como pimentão amarelo, verde e vermelho, além de rúcula, alho, cebolinha, alface, couve e tomate-cereja. Conforme Angelita, o gosto por plantar foi herdado dos pais adotivos, que, mesmo morando em cidade grande – Porto Alegre –, mantinham uma pequena horta no terreno. “Quero repassar esses valores aos meus filhos. É preciso plantar para colher. O sentimento que tenho ao ver um pé de mamão ou de maracujá carregados de frutos, sem agrotóxicos e plantados por mim, não tem explicação. E o fato de poder repartir com outros é algo que também me deixa muito feliz.”

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Terreno baldio transforma-se em plantação
Quando o espaço na área onde Angelita mora começou a ficar pequeno, a saída encontrada pela recicladora foi implantar uma horta em outro local, desta vez em um terreno baldio perto de casa. O trabalho de limpeza do mato e retirada de entulhos teve início ainda em novembro do ano passado. Após conseguir pedaços de tela, também de doação, ela cercou a área e começou o transplante de mudas e semeadura de sementes. “Minha vizinha reclamava bastante da sujeira do terreno, do acúmulo de lixo e da proliferação de ratos, baratas e outros insetos. Então, resolvi limpar e plantar. Se o dono aparecer, eu devolvo.”

Na nova plantação foram cultivados milho, batata-inglesa, batata-doce, pepino, gengibre, moranguinhos, abacaxi e feijão, além de diversos tipos de chás, todos plantados à beira da cerca. “Já me disseram para não plantar ali, porque outras pessoas poderiam pegar. Mas é esse o propósito: poder ajudar quem precisa. Se alguém tiver uma gripe ou outro problema de saúde, pode pegar um pouco.”

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Solidariedade
Com problemas de saúde, como fibromialgia e de coluna, Angelita conta que a única fonte de renda da família vem da reciclagem e do Bolsa Família. Sem muitos recursos, ela depende da solidariedade das pessoas. “Houve um dia que eu saí para coletar material e não tinha nada para dar de comer às crianças. Então, em frente a uma casa, dentro de uma sacola separada e pendurada na grade, encontrei pão, bolo e pizza. Eu chamo isso de amor ao próximo. Alguém separar alimentos para quem não tem o que comer.”

Além de alimentos, ela já recolheu do lixo roupas, calçados, brinquedos, móveis, eletrodomésticos e até panelas. “Coloco tudo no carrinho de mão e levo para casa. Tudo sempre é útil. Outro dia, achei o motor de um liquidificador e agora estou tentando encontrar um copo que sirva para ele funcionar”, afirmou.

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Além dos materiais da reciclagem, ela também recebe doações de móveis e alimentos vindos de vizinhos e do Grupo do Bem. No entanto, quem quiser contribuir com alimentos, roupas femininas e infantis, além de outros itens, pode entrar em contato através do telefone (51) 99681 7956.

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