Saúde mental 23/05/2020 15h32

Isolamento não impacta nos índices de suicídios em Santa Cruz

Nos primeiros meses do ano, município registrou seis mortes. Psicóloga aponta preocupação com o período após a pandemia

A pandemia do novo coronavírus causou uma série de alterações na rotina de todos, forçando a maior parte da população ao isolamento social – e este distanciamento da rotina e das atividades tem impacto na saúde mental. Até o momento os dados apontam que não houve um aumento no número de casos de suicídio e tentativas em Santa Cruz do Sul. No entanto, a preocupação dos especialistas é com o período de retomada das atividades.

A psicóloga Marliza Schwingel, coordenadora do Comitê Municipal de Prevenção do Suicídio e Promoção da Vida em Santa Cruz, disse em entrevista ao programa Estúdio Interativo, da Rádio Gazeta 107,9 FM, que a taxa de casos se mantém em normalidade na comparação com o mesmo período nos últimos cinco anos. Nos primeiros meses de 2020, o município registrou seis casos de suicídio, sendo o maior número em fevereiro, ainda antes da pandemia, quando ocorreram três casos. Já os meses de março e abril tiveram um caso cada, menos do que em anos anteriores. Os números de tentativas também caíram no período.

Para a psicóloga, a Covid-19 é uma crise externa, que de certa forma afasta as pessoas de suas próprias crises internas. “Neste momento de pandemia, as pessoas estão buscando formas de se manterem vivas. A nossa questão enquanto serviço de saúde mental é para depois que a pandemia passar. Vamos ver as pessoas saindo deste isolamento fragilizadas.” Uma das preocupações, segundo a profissional, é com aqueles que perderam entes queridos durante o período e não puderam elaborar o processo de luto, por meio de rituais como o velório e o apoio de amigos e familiares.

Marliza conta que muitas perdas podem estar ocorrendo no período, não só de pessoas queridas, mas de conquistas sociais, como emprego e estabilidade financeira. “Isso pode gerar situações de depressão. Agora, existem pessoas fragilizadas buscando ajuda, mas temos que pensar no pós-pandemia, porque talvez estas questões que ainda não estão aparecendo hoje possam aparecer depois.”

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Manter a rotina, com cuidados
Situações altamente estressantes como a da pandemia podem agravar casos de doença mental, conforme o psiquiatra Fernando Godoy Neves, que é pesquisador e membro do Comitê de Prevenção ao Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. “As preocupações com a saúde, com a vida e com os familiares, mais o prejuízo econômico e também as orientações de distanciamento social, todas em conjunto, aumentam o risco de doença mental. Em função dessas situações, pode haver o aumento dos casos de suicídio”, adverte.

Uma das formas de se adaptar a esta nova realidade de uma maneira mais saudável, de acordo com Neves, é manter uma rotina de normalidade. “Dentro do que é possível e seguro, cumprindo as orientações feitas pelos órgãos governamentais, procure manter uma rotina.” Um dos alertas do psiquiatra diz respeito ao elevado consumo de álcool durante o isolamento, já que houve um aumento de cerca de um terço na venda de bebidas no país durante a pandemia. Por estarem mais ansiosas, preocupadas e tensas e com suas possibilidades reduzidas, as pessoas aumentam o consumo de álcool, mas a substância está associada à piora da doença mental e ao aumento do risco de suicídio