60 anos de história 15/10/2020 19h10 Atualizado às 14h37

A Banca: um lugar de resistência para difusão da cultura no município

Avanço da tecnologia é hoje um dos maiores desafios para manter o hábito da leitura impressa em Santa Cruz do Sul

Presente há mais de 60 anos em Santa Cruz do Sul, a Banca é um dos pontos mais tradicionais da cidade. Abraçada pelo Túnel Verde, na Rua Marechal Floriano, no Centro, tem de tudo um pouco: jornais, livros, gibis, almanaques e revistas dos mais variados gêneros, entre eles tecnologia, esporte, saúde, horóscopo, vida dos famosos, trabalhos manuais.

São centenas e centenas de exemplares expostos nas longas prateleiras do estabelecimento. Palavras, notícias, poemas, receitas e fofocas, contos e histórias prontas para serem lidas e tocadas pelas pontas dos dedos de quem ainda mantém o hábito da leitura impressa.


A Banca foi fundada em Santa Cruz por Albino Osvaldo Jordan, pai de Raul e Renê Jordan, atuais proprietários. Albino, que era bancário e trabalhava meio expediente por dia, à época também era agente do jornal Diário de Notícias. Iniciou o empreendimento em sociedade com um dos colegas do banco.

A data específica de fundação os filhos não se recordam, pois ainda eram muito jovens. “Lembro que em 58, na Copa do Mundo na Suécia, a banca já existia, pois eu vinha pegar a revista Fatos e Fotos para olhar as reportagens sobre os jogos”, recorda Raul.

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Renê foi ajudar na loja pouco antes do falecimento do pai, em 1985. Raul começou a se envolver com os negócios da família logo depois, inicialmente à noite. “Sem intervalos, estamos aqui já há cerca de 35 anos, sete dias por semana, inclusive feriados. De uma forma inédita na história, ficamos 15 dias de portas fechadas por causa dessa pandemia, do contrário, estaríamos aqui”, relata Raul.

O atual momento é complicado e desafiador para o segmento. Além da facilidade de acesso por meio da internet, a pandemia contribuiu para que alguns clientes fiéis, no geral, pessoas de mais idade, acabassem não frequentando mais o local, por causa do distanciamento social. Os dois acompanharam o boom da venda de revistas e jornais, época não muito distante – menos de dez anos atrás –, em que a Banca recebia mais de 300 pessoas diariamente em dias de movimentação normal.


Tecnologia modificou os hábitos de muitos clientes

Os proprietários da Banca também presenciaram a queda das vendas no setor. Segundo eles, aos poucos, a tecnologia foi entrando nos lares e os hábitos das pessoas já não eram mais os mesmos. Com a pandemia, as coisas ficaram ainda mais difíceis. A restrição do número de clientes nas lojas, menos circulação nas ruas, a própria crise financeira foram alguns dos principais motivos elencados pelos irmãos Jordan para justificar o enfraquecimento nas vendas.

No entanto, eles enfatizam que ainda há consumidores. “Tem muita gente que não quer ler um livro de 200 páginas na tela de um celular ou computador. Muitas pessoas mantiveram o hábito. Elas querem sentir o papel na mão.” Renê garante que ainda tem público para a manutenção do negócio na cidade por muitos anos. Para ambos, embora a tecnologia avance cada dia mais, eles pretendem manter a tradição familiar e continuar fomentando a cultura e o hábito da leitura.

O que interfere no rendimento hoje, de acordo com Renê, é a falta de mercadoria. Ele explica que, por causa da pandemia, há muitos exemplares de revistas que simplesmente não estão mais chegando. “Esse mês não recebemos ainda nenhuma revista mensal e algumas semanais, como Claudia, Marie Claire, Caras, Vogue, Veja e, principalmente, as de novelas e horóscopo, que são produtos com muita saída.”

Outros fatores, como crise nas grandes empresas de papel, fechamento de editoras e falhas na distribuição também interferem na chegada do produto final nas prateleiras. “É só a gente receber a mercadoria normalmente que tem público para a gente”, esclarece Raul.

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O Zé da banca

José Manoel de Menezes, o Zé da Banca, figura conhecida em Santa Cruz por seu estilo marcante e o jeito espontâneo com que recebe os clientes, resgata uma das muitas memórias que tem com a Banca, do tempo em que ainda nem era funcionário. “Eu era um ‘gurizote’ e lembro-me que havia uma bancada de engraxar sapato, à direita, logo na entrada. O pessoal saía da missa aos domingos e vinha engraxar os sapatos aqui e ler o jornal. Eu aproveitava que não tinha um engraxate fixo e fazia uns ‘bicos’ e ganhava um dinheirinho. Belos tempos, belos dias”, relembra.

Ele, que não revela a idade de jeito nenhum, trabalha há mais de 20 anos na Banca. Na verdade, não sabe precisar, mas deduz que seja até mais tempo do que isso. Ao longo dos anos, o Zé construiu uma imagem presente na vida dos santa-cruzenses. Segundo ele mesmo conta, muitos clientes que frequentavam a banca há anos ainda hoje retornam para ver se o encontram. E lá está ele, alcançando o jornal do dia, ou o cigarro, de vez em quando um livro, e, ultimamente, muito mais revistas de palavras cruzadas. “O isolamento social e o afastamento das atividades fizeram com que as pessoas buscassem alternativas para passar o tempo e exercitar a mente”, explica.

Conhecido por seu estilo espontâneo, Borges trabalha há mais de 20 anos no local


Quanto ao futuro, Zé da Banca almeja que a pandemia passe logo, mas sabe que serão muitos os desafios a serem enfrentados. “A maior empreitada que teremos a partir de agora é, justamente, a ‘explosão digital’. Nós já tínhamos algumas dificuldades antes, quando as coisas eram mais tradicionais, imagina agora que é tudo tecnológico. É tudo muito mais instantâneo, e já fico perplexo diante do que está por vir. ‘O que será, que será?”, diria Chico Buarque.”

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