Artigo de opinião 20/11/2020 12h19 Atualizado às 12h45

"Feliz" 20 de novembro

Músico e produtor audiovisual fala sobre responsabilidades, inseguranças e reflexos do racismo, no Dia da Consciência Negra e após caso brutal acontecer em Porto Alegre

*Escrito por Jonatan Pach a convite do Portal Gaz.

Este não é um artigo explicativo. Não vou falar dados. Não vou citar nomes. Não vou relatar fatos. E se tu veio aqui com a intenção de saber mais sobre mais um caso isolado, veio ao lugar errado. Aliás, quantos casos precisam acontecer para deixarem de ser isolados?

No dia 20 de novembro de 2020, eu dormi e acordei chorando. Quem sente a dor do pensamento constante de “poderia ser da minha família” está bem ciente do que a gente passa. Enquanto o 20 de novembro e casos de genocídio refrescam a memória dos brancos de que, de vez em quando e quando convém, nossas vidas importam, nós, negros, só queríamos conviver socialmente de uma forma digna, ter mais oportunidade de emprego, da mesma forma que pessoas brancas têm, poder colocar comida na mesa.

Vamos imaginar um quadro de ascensão social de uma pessoa negra. Um ótimo cargo, um bom carro, uma boa casa, independência financeira, com zero possibilidade de passar fome. Sim, o ato de “pôr comida na mesa” é muito significativo para nós, é a prioridade. Mas voltando ao quadro de ascensão social, muitas famílias brancas mandam seus empregados e empregadas ao mercado para fazer suas compras, muitas vezes por questão de otimização de tempo. Uma família preta em condições de ter uma empregada ou empregado branco, mais do que questão de otimização de tempo, seria uma questão de segurança.

Nunca me senti confortável em supermercados. Já ouvi de amigos brancos que já roubaram, mas não conta, porque foi em mercado e foram coisas pequenas como, por exemplo, uma barra de chocolate. A gente morre por muito menos. Inúmeras vezes paguei minhas compras no caixa e estava saindo sem as compras de tanta pressa e angústia que sinto nesse ambiente.

Como eu disse no início, esse não é um caso isolado. Vai continuar acontecendo. E as pessoas pretas vão sentir o baque sempre da mesma forma. Entretanto, eu gostaria de chamar a atenção para uma outra situação pessoal, e recorrente com pessoas negras de voz ativa: a gente não tem tempo de descansar, muito menos em novembro. Não estou falando de desgaste físico, nós, apesar de muitos brancos reforçarem o discurso de que negros são preguiçosos, não temos medo de trabalhar. Mas agora, falando especificamente com negros, para quantas atividades vocês foram chamados em novembro em que não te deram nenhum retorno além do desgaste emocional? Trabalhar sendo pago com desgaste? Isso soa familiar? E agora, falando especificamente com brancos, com quantos profissionais negros vocês entraram em contato nesse mês de novembro com a intenção de remunerá-los?

No mês de novembro, ou toda vez que acontece alguma atrocidade genocida, nossa agenda lota. Nos concedem (sim, porque, pelo visto, ele tem que ser concedido) o lugar de fala, como se a nossa fala fosse um favor. Eu sou um dos poucos pretos privilegiados que são ouvidos nessa cidade e, ainda assim, não acho que sejam muitas pessoas que me escutam de verdade. Então hoje quero usar minha voz (e neste caso, escrita) para falar em “lugar de trabalho”. Se a sua empresa não tem uma pessoa preta para exercer tal função, pague uma pessoa preta para isso. Ou melhor, contrate. É simples.

No exato momento em que publicava em uma rede social que passaria o resto do dia afastado das timelines, recebi o convite para vir escrever aqui. E, como eu disse, para quem foi dormir e acordou chorando pelo mesmo motivo, fiquei com a sensação de não poder respirar, consequentemente o choro aumentou. Eu nem iria me pronunciar em redes sociais pois todo mundo sabe do meu posicionamento, e decidi respeitar esse momento, respeitar o meu momento de luto. Não foi possível.

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O personagem principal do racismo é o branco, não o negro. Quem pratica o racismo é o branco, não o negro. Quem é expert em racismo é o branco, não o negro. Então sugiro que nos deem mais oportunidades quando o assunto principal forem outros também. Têm surgido trabalhos lindos e diversos sobre tudo quanto é tipo de assunto através da nossa ótica. O ano tem mais onze meses além de novembro. E quando for para falar sobre assassinato de pessoas negras, enxerguem-se pela ótica de quem assassinou, esse é o lugar de fala de vocês.

É importante nós, negros, vivermos bem, não é luxo. Até porque mesmo que a gente conquiste um ótimo cargo, vai ter branco dizendo que a gente não merece estar ali. Mesmo que a gente compre um bom carro, corre o risco de levar 80 tiros. Mesmo que a gente quite uma boa casa, ainda não estaríamos seguros. Mesmo que a gente alcance a independência financeira, com zero possibilidade de passar fome, podemos ser assassinados dentro do supermercado.

Eu estou cansado. Estamos cansados. Nos poupem. Então suplico: só pensem em nos chamar para gastar nossa energia quando a consciência sobre negros começar a fazer parte, de verdade, dos brancos.

*Jonatan Pach é músico e produtor audiovisual.

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