Morte no Carrefour 20/11/2020 14h34

“É como se fosse uma pessoa da nossa família morrendo”, diz Cíntia Luz

Produtora cultural e ativista do movimento negro de Santa Cruz falou sobre o luto vivido por cada vida negra tirada pela violência

A véspera do Dia da Consciência Negra foi marcada pela violência e brutalidade. No estacionamento de um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre, um homem negro de 40 anos foi espancado e morto, por dois homens brancos. O caso é investigado pela Polícia Civil e os autores do crime foram presos em flagrante. A barbárie revoltou não apenas a comunidade negra, que luta pelos direitos de igualdade diariamente, mas toda a sociedade. O assunto foi um dos mais comentados nas redes sociais e gerou indignação.

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O caso repercutiu nacionalmente e, é claro, também em Santa Cruz do Sul. Cíntia Mara da Luz, produtora cultural e ativista do movimento negro santa-cruzense, sente na pele toda vez que um caso semelhante acontece. Desta vez, justamente na véspera do Dia da Consciência Negra. “Entrar o 20 de novembro com esta notícia é como se fosse uma pessoa da nossa família morrendo. Cada negro que morre por um ato violento, por um ato racista aqui no nosso País, é a mesma coisa que as mulheres feministas sentem quando uma mulher é morta por um ato machista, feminicídio. A gente se sente mal, a gente não digere”, comentou.

Vivendo o luto da morte de uma amiga, por um mal-súbito, também nessa quinta-feira, 19, Cíntia ressalta que o momento é de luta, mas também de ficar perto dos amigos e familiares. “Eu vou fazer meu luto pela minha amiga e pela morte de vários negros que são mortos pela violência brutal do racismo no nosso País. A gente tem que saber lutar, mas também manter a sanidade mental nos trilhos, e que a gente consiga seguir a vida, tentando acreditar que vamos ter um mundo melhor”, disse.  

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O amanhecer, segundo a ativista, foi de tristeza e serve para reflexão. “Essa data é tão importante para a gente, o 20 de novembro, e amanhecer com a notícia dessa morte brutal deste homem no Carrefour… É de colocar também a sociedade, as pessoas brancas, a pensar: quantos homens brancos foram mortos por policiais e seguranças dentro de shoppings? Aí hoje [sexta-feira] eu vejo várias pessoas publicando que somos todos iguais. Iguais aonde? Em que sentido?”

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A produtora cultural ainda lembrou a repercussão da morte de George Floyd, em junho, nos Estados Unidos. Depois de ser morto em uma ação policial, ele se tornou símbolo da luta contra o racismo e a violência policial. Ainda assim, são inúmeros os casos que vieram depois. “Nós não conseguimos nem digerir o luto de mortes, de atos racistas. Quero ver quantas pessoas brancas vão se indignar, que estavam publicando a #vidasnegrasimportam pela morte do George Floyd, quantas aqui no Brasil vão se indignar com a morte deste homem em Porto Alegre. Porque aqui no Brasil isso é naturalizado. Porque aqui no Brasil a sociedade toda, principalmente a branca, naturaliza”, lembrou.

“Muitas pessoas estão pensando: ‘ele [vítima no Carrefour] deve ter tentado roubar, deve ter feito alguma coisa’. Mas nada, nada que ele tenha feito justifica a morte de uma pessoa. É esse o pensamento que as pessoas brancas e toda a sociedade brasileira precisam ter, mas principalmente quem está com o poder. O poder da arma, com o poder de decidir quem entra e quem sai, quem vive e quem morre”, finalizou.  

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