SISTEMA PLUVIAL 25/02/2021 15h13 Atualizado às 18h51

Falta de consciência está por trás dos frequentes alagamentos quando chove em Santa Cruz

Mutirão criado pela Prefeitura para o conserto de bocas de lobo descobriu que muitas delas estão entupidas com lixo e entulho, ou foram fechadas propositalmente

Problemas ligados diretamente à ação humana vêm contribuindo para que Santa Cruz registre alagamentos de grandes proporções com cada vez mais frequência. Situações como bocas-de-lobo fechadas irregularmente e lixo descartado de forma indevida multiplicam-se por vários pontos da zona urbana e comprometem a qualidade do escoamento pluvial.

Desde a enxurrada do dia 28 de janeiro, quando foram atingidas 33,2 mil residências e os prejuízos chegaram a mais de R$ 2 milhões, a Prefeitura vem realizando um mutirão para desobstruir canalizações e bueiros e se deparando com inúmeras situações de descaso por parte da população. “É lixo e mais lixo. Tem locais que foram limpos após as chuvas e já tem lixo de novo”, lamenta o secretário municipal de Obras, Edmar Hermany. A situação é tão grave que a pasta avalia designar duas equipes para atuar de forma permanente nisso.

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Na Rua Boa Esperança, próximo à Unisc, Prefeitura teve que desobstruir diversas bocas-de-lobo após as chuvas das últimas semanas | Foto: Rafaelly Machado

Segundo Hermany, o fechamento de bocas-de-lobo é um dos principais gargalos. “Identificamos um caso em que moradores colocaram um colchão dentro de um bueiro”, relata. Também preocupam as podas e construções irregulares e o acúmulo de resíduos de obras nas calçadas. Todas essas situações, destaca o secretário, só podem ser solucionadas por meio de conscientização, já que é inviável o governo promover uma fiscalização contínua em toda a extensão da cidade.

Conforme a engenheira civil da Prefeitura, Roseli Kist, além do entupimento de bueiros e canalizações, fatores estruturais vêm levando a um esgotamento da rede pluvial do município, como a expansão imobiliária e a ampliação da malha viária asfaltada. Isso faz com que um volume cada vez maior de água seja escoado pelas bocas-de-lobo da região central. Além disso, em diversos pontos a rede de drenagem precisa ser redimensionada.

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OS PROBLEMAS

Bocas-de-lobo fechadas – Em praticamente toda a cidade, existem bocas-de-lobo que foram fechadas de forma irregular. Sobretudo em épocas de calor, moradores vedam as aberturas para barrar o mau cheiro, consequência do esgoto que é despejado, também de forma irregular, na rede pluvial. Isso, porém, compromete a vazão da água. Em algumas situações, os bueiros são cobertos com cimento ou pedras. A Gazeta do Sul flagrou um caso na Rua Edgar Mário Sperb, no Bairro Independência, em que foi utilizado um pedaço de tela de alumínio, provavelmente arrancado de uma antena parabólica (foto abaixo). Na mesma rua, que foi alagada no temporal de janeiro, uma boca de lobo estava fechada por pedras e foi aberta por moradores durante a enxurrada para permitir o escoamento da água.

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Foto: Rafaelly Machado

Resíduos de obras

Outra situação muito comum envolve materiais de obras, como areia e brita, que são deixados junto ao meio-fio e, não raro, perto de bocas de lobo (foto abaixo). Quando chove, esses resíduos são levados pela água para a rede. Com isso, a cada chuva, a vazão fica menor. Na Rua Boa Esperança, nas imediações da Unisc, que também teve casas invadidas pela água, a Prefeitura teve que desobstruir diversos bueiros nos últimos dias. Já na Rua Professor Carlos Almeida, próximo à BR-471, outra região que acumulou grande quantidade de água, existe uma boca-de-lobo que está completamente coberta por brita e outros resíduos de obras. Também há casos de contêineres, tanto de obras quanto de lixo, que são posicionados de tal maneira que impedem o escoamento da água pelas aberturas.

Foto: Rafaelly Machado

Descarte irregular de lixo – Em muitos pontos, há descarte irregular de lixo em locais próximos de cursos d’água. Nessa quarta-feira, 24, à tarde, por exemplo, a reportagem flagrou uma grande quantidade de resíduos – incluindo móveis e materiais de borracha – à beira de uma sanga no Bairro Schulz (foto abaixo). A Prefeitura fez diversos recolhimentos nas últimas semanas, mas a situação se mantém. Com a chuva, o lixo é levado para dentro das canalizações.

Construções e podas irregulares – As chuvas das últimas semanas derrubaram muros que haviam sido erguidos sem licença perto de sangas e arroios, e o material destruído acabou sendo levado para dentro da rede. Outro problema são podas clandestinas nas margens de arroios, que acabam despejando toras dentro das tubulações.

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Foto: Rafaelly Machado

Fechamento de bocas de lobo pode dar multa

Um projeto de lei protocolado na Câmara de Santa Cruz após as enxurradas prevê multa para quem fechar bocas de lobo. Segundo a proposta do vereador Raul Fritsch (Republicanos), as intervenções só poderão ser feitas por particulares “quando houver autorização expressa e justificada pelo Município”.

Pelo texto, se a partir de uma denúncia ficar comprovado que um cidadão fechou uma boca de lobo sem autorização, ele ficará sujeito a advertência e multa de R$ 3,3 mil, que pode ser dobrada em caso de reincidência.

Segundo o secretário municipal de Obras, Edmar Hermany, uma medida que ajudaria a amenizar o problema seria a instalação das chamadas bocas de lobo “inteligentes”, que vêm sendo implantadas em diversos municípios brasileiros. O sistema envolve uma caixa coletora instalada no interior dos bueiros que funciona como um filtro, permitindo a passagem da água mas retendo os materiais sólidos.

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