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ROMEU NEUMANN

E se eu não quiser votar

Fica em casa! Sai só se precisar. E se tiver mesmo que sair, usa máscara, passa álcool em gel, lava as mãos com sabão, tira o sapato antes de entrar em casa, troca a roupa, não esquece de higienizar as coisas que comprou e blablablabla.

Embora necessário – assim nos orientam –, está difícil de suportar esta rotina. Até porque sobram dúvidas e interrogações e faltam convicções para lidar com esta pandemia. Em meio a tudo isso, contrariando as orientações, confirmam a realização de eleições municipais.

Como assim? Não é pra ficar em casa? Estou recluso há quase seis meses e só saio para ir ao mercado, à farmácia e a algum compromisso quando realmente necessário.

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Dias atrás tivemos uma perda dolorosa na família. Um irmão da minha esposa nos deixou repentinamente e encomendamos uma missa de sétimo dia na Catedral. Um templo com capacidade para abrigar algumas mil pessoas. Mas, de acordo com o protocolo, apenas 30 fiéis podem frequentar a celebração. Tudo previamente agendado, todos devidamente identificados, fisicamente distanciados, um ritual muito bem organizado. Saímos confortados com a receptividade, com a mensagem do celebrante e com o respeito a todas as recomendações sanitárias.

Na mesma direção, acompanho o dilema de gestores públicos e privados, de professores, pais e alunos sobre a retomada (ou não) de aulas presenciais neste atípico ano letivo de 2020. Penso que, como eu, a maioria dos pais não concordaria em mandar os filhos à escola neste momento.

Reverencio o heroísmo e a abnegação dos profissionais da saúde que se expõem a todo risco para nos oferecer amparo. Vejo o comércio e demais serviços com restrições quase constrangedoras, escolas e repartições públicas fechadas, transporte coletivo limitado, atividades culturais e artísticas vetadas, estádios de futebol vazios, toda e qualquer forma de aglomeração proibida. Levar crianças à praça em um domingo de sol, quem diria, passou a ser atitude sujeita a reprovação. E nem nos incomodamos mais quando nos apontam um cano na testa (para medir a temperatura, menos mal). Tudo em nome da preservação da vida.

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Por que então se decide que, à revelia de todos os protocolos de segurança, as eleições municipais têm que ocorrer? Em nome de quê? Da recorrente invocação à democracia ou de um apetite incontrolável por recursos públicos – os teus, os meus – que bancam partidos, projetos de poder, interesses que nem imaginamos?

Apoiadas no bom senso, organizações da sociedade civil e administrações públicas cancelaram ou transferiram, com imensos prejuízos, praticamente todos os eventos programados para o segundo semestre deste fatídico 2020. Por que só as eleições são inadiáveis? Qual a lógica de obrigar duzentos, quatrocentos, mil eleitores a convergir, em um único dia, para um mesmo local na presença de grupos de mesários e de fiscais de partidos, se um estabelecimento comercial tem que limitar o acesso a duas ou três pessoas? Se um estádio de futebol com capacidade para 50 mil torcedores tem que ficar às moscas? Se uma catedral como a São João Batista só pode acolher 30 fiéis?

Não sabemos, além de garantias tão vagas quanto indefinidas, como pretendem conduzir este processo com segurança. Por isso, se insistirem mesmo em realizar a eleição – sabe-se lá a que custo –, o mínimo que deveriam fazer é tornar o voto facultativo. Sou do grupo de risco e não devo sair de casa, me dizem. Por que teria que ir votar?

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