Conversa Sentada 17/08/2017 10h19

Andanças III

As pessoas não se dão conta de que as propriedades têm um ciclo

Uma coisa é passar de cruzada  por uma cidade; outra, morar nela, imergir.

Como já relatei, Santiago era diferente de tudo o que conhecera; nem pior, nem melhor: diferente.

Comecemos pela Igreja. Eu era, quando adolescente, coroinha na Catedral de Santa Cruz. Sabia de cor e salteado as orações em latim. Creiam-me: a missa de que mais gostava era a de Corpo Presente, a missa fúnebre. A gravidade, o preto, a percepção da finitude da vida. Adorava ouvir os corais. Acho que mais frequentava as missas para ouvir música do que para rezar.

A Igreja Católica de Santiago era bem pequena (foi demolida e em seu lugar construíram uma de arquitetura futurista e, para mim, de gosto duvidoso). Bueno, mas voltemos à pequena Igreja. Ao entrar num domingo, pela primeira vez, tive uma surpresa. Só tinha mulher. Pensei: será que entrei na hora errada? Mas em seguida divisei, ajoelhado no primeiro banco, sozinho, um senhor de terno. Aproximei-me e reconheci o general Heraldo Tavares Alves, que comandava os quatro quartéis de Santiago.

Na hora do sermão, o padre Menegaz, bem jovem, sampou-lhe o pau nos “milicos” e na “ditadura”. E pau e pau! O general, que estava sentado, ajoelhou-se e começou a rezar em voz baixa. E eu, cerca de 20 anos mais jovem que ele, sussurrei-lhe: “General, faz de conta que o senhor está pagando uma penitência, mas fique frio”. E, de fato, o general quedou-se tranquilo. 

Até hoje não entendi a razão de naquela época (1974) os homens quase não irem à igreja. Da Igreja passo às curiosas “vedações” das Sextas-Feiras Santas que por lá vigem, na maior parte, até hoje. Na Sexta-Feira Santa, paralisa tudo. Principalmente nas fazendas e entre o povo que mora “pra fora”. Não pode ouvir rádio, nem TV. Nem rir, nem se olhar no espelho, nem lidar com o namoro (nem mesmo com a patroa), nem andar a cavalo, nem trabalhar, muito menos comer carne ou beber leite.

Outro fenômeno são os cemitérios de campanha. Só nos campos de minha família são uns quantos que persistem na solidão das taperas e os quais sempre mantenho cercados e limpos. Fiquei me indagando do porquê de tantas sepulturas nas lonjuras dos fundos de campo.

Cheguei à conclusão de que as pessoas não se dão conta de que as propriedades têm um ciclo e vão trocando de donos. Mas o dono acha que, depois dele, os filhos continuarão na ascendente e ainda mais: comprando mais e mais hectares. E deixam ordem para serem sepultados nalgum lugar que os encanta: no alto de um cerro, num fundo de campo, na beira do corredor. Ainda em vida, mandam construir os jazigos. Um, que fora dono de parte das terras que agora são nossas, até teria se deitado dentro do jazigo para ver se o tamanho estava certo.

Ocorre que um filho foi-se embora para Santa Maria, o outro se casou com uma moça de Uruguaiana, o dono foi ficando velho e decidiu arrendar a fazenda e vender todo o gado. Pronto: este é um que não vai mais ter bala para repovoar seu campo. Dali até a venda pelos herdeiros é ligeiro.