Conversa Sentada 31/08/2017 09h05

Andanças V

Maravilhei-me com a beleza desse campo, com seus capões de arvoredo nativo, uma bela sanga, dois belos açudes

Num sábado, visitando meu sogro em Santiago, após um churrasco, aquela ressolana medonha de janeiro me fez ficar com vontade de me banhar numa sanga bem fresquinha, com águas límpidas .

Perguntei a ele se não sabia de um pedaço de campo para eu  comprar. 

– Embarca na caminhonete, que vou te mostrar um campo que está à venda, disse meu sogro. O local distava 24 quilômetros de Santiago e 7 quilômetros da BR–287, já no novel município de Unistalda. Maravilhei-me com a beleza desse campo, com seus capões de arvoredo nativo, uma bela sanga serpeando por sobre um fundo basáltico e seixos, dois belos açudes, uma fauna silvestre impressionante. A área tinha 209 hectares, o que é pouco naquela região, mas para mim era um “latifúndio”. Indaguei do preço, não achei caro e na segunda já fechei negócio. Fiquei por lá mais uns dias, completamente embevecido e apaixonado pelo campo. A propriedade, no entanto, não tinha uma sede, nem mangueiras. O vendedor me disse que um lindeiro, Sr. Santo Gatiboni Delapiéve, me deixaria usar seus equipamentos para o manejo do gado.

Em seguida comprei 160 boizinhos de sobreano, coloquei dois cochos cobertos para o sal e o Sr. Delapiéve me disse que seus peões reparariam a tropa para mim, mediante uma gorjeta módica.

Mas logo vi que meu gado era meio “multirracial” e não tinha um padrão definido. Decidi deixar esse gado pegar mais um “estado” e vender. Foi o que fiz e, aí sim, adquiri 140 fêmeas angus e brangus, bem definidas, e três touros brangus, rústicos, mas de excelente genética.

Seu Delapiéve tinha uma boa sede, com casas, galpão, mangueiras, mas as cercas deixando muito a desejar. Certo dia me ligou: - Estou muito velho , 80 anos, e quero lhe arrendar minha fazenda e lhe vender todo o gado, as ovelhas e os 15 cavalos e éguas.

Saí de Porto  Alegre na madrugada seguinte e me fui para lá. Por via das dúvidas, levei junto um amigo veterinário e dono de uma fazenda para me assessorar.

Não que o gado do Sr. Santo fosse ruim, mas não tinha padrão e alguns animais já tinham muita idade, sendo problemático criá-los a campo, sem pastagens de aveia e azevém no inverno.

A área era de 870 hectares e ele queria o valor locatício anual de 3.800 quilos de boi gordo por quadra (87 hectares). Propus 3.000 quilos por quadra, à vista os três primeiros anos. Puxa para cá, puxa para lá e acertamos por 3.400 quilos.

Mas a bronca para acertar tudo eram os animais. Eu queria o negócio, mas estava determinado a não ficar com a grande maioria, para não dizer nenhum. Iria repassar tudo e adquirir gado padrão.

A noite foi chegando e não houve acerto quando ao valor do gado e ao rebanho. Voltei triste para Santiago.  Meu sogro me convenceu a “não esquentar a moringa”, que era só dar um tempo e o “brique” ia sair.

Achei melhor deixar a coisa maturar e voltei a Porto Alegre. Com a cabeça cheia de marimbondos.