Conversa Sentada 26/10/2017 09h24

Vivências de um pai temporão

Quando o levava ao jardim de infância, os demais pais, que eram jovens, achavam que eu era o avô do guri. ‘E aí, curtindo o netinho?’

Meu filho Rudolf Genro Gessinger, do meu segundo casamento, tem agora 21 anos, idade da minha neta mais velha. Confesso que com os demais filhos não fui um pai muito presente: trabalhava muito e à noite ainda lecionava em faculdades. Mas todos estão formados e exercendo suas profissões, sem maiores sequelas.

Rudolf nasceu quando eu já tinha 49 anos. E aí foi tudo muito diferente. Eu passava lambendo a cria já sem precisar me mudar de residência e de cidade a todo momento. Todavia, enquanto o piá ia crescendo, incríveis experiências começaram. Quando o levava ao jardim de infância, os demais pais, que eram jovens, achavam que eu era o avô do guri. “E aí, curtindo o netinho?” Nas reuniões de pais e mestres, os jovens vinham se aconselhar comigo. Quando Rudolf tinha uns 4 anos, ele me intimou: “Pai, joga bola comigo!”. Na época, eu estava meio gordinho e passara os três dígitos no peso. Fui com ele para uma pracinha onde brincavam outras crianças e, na segunda arrancada atrás da bola, já fiquei ofegante. 

Ao chegar de volta em casa, pedi para minha mulher me ajudar a carregar os três engradados de cerveja, tanto o de garrafas vazias como o de cheias para a calçada na frente de casa. “Vamos deixar aqui na frente que um carroceiro vai levar embora”, disse para a esposa. Ela sugeriu que eu ficasse ao menos com um engradado para a eventualidade de querer tomar uma gelada. Respondi: “Maristela, vou parar com a cerveja ao menos até perder a barriga.”  No dia seguinte fui ao Tênis Club para reiniciar a jogar. Milagre ou não, mas a verdade é que, em poucos meses, baixei 15 quilos. E aproveitei para nunca mais tomar cerveja, o que cumpri (agora é só um vinhote ou champs). Lá na fazenda montei um campinho de futebol sete, teladinho, comprei chuteiras para a peonada, mais camisetas e, já recondicionado atleticamente, joguei até dois anos atrás, quando o futebol me largou de vez.

Fora disso, tive que levar e buscar o guri para as festinhas. Também todo o drama de novo com o calvário do vestibular, estudando e sofrendo junto. Depois, novamente, não pregando o olho durante as intermináveis madrugadas, até que o rapaz voltasse para casa. Sem faltar, é claro, a ocasião em que ele, já com 16 anos, irrompeu no nosso quarto, todo transtornado, porque acabara de ser assaltado ali no “centrinho” de Atlântida.

Forma-se na PUC, no ano que vêm. Já estagia no nosso escritório e tem namorada. É muito caseiro e a menina é sua colega de faculdade, ótima família. É meu “motorista particular” e sócio da Pecuária Gessinger.
Agora começa aquela fase de se firmar profissionalmente e, depois, de bater asas e voar para seu futuro. Será que sofrerei com a síndrome do ninho vazio? Enquanto isso não ocorre, tenho que permanecer “ageless”. Estaria eu hoje vivo e são de lombo não fosse esse guri?