Conversa sentada 09/11/2017 09h53

Recordando meus tombos

A tirana só foi parar uns dez quilômetros depois. E eu estirado quase sem poder respirar

Inicio esclarecendo não estar me referindo a cavalos de galpão, de pequenos sítios ou de desfile e sim a cavalos de serviço.

O cavalo é indispensável numa fazenda dedicada à pecuária. Os cavalos de campo são ligeiros, acostumados com os peões.

Como urbano “baiano” (cavaleiro inexperiente), até que caí pouco. Foram quatro vezes. O problema é que a costela quebrada leva um tempão doendo. É igual a mordida de traíra no dedo da mão. Perigoso é se o “ flete” roda também e te amassa com seus 500 quilos. Com o tempo, me dei conta que a maioria dos campeiros têm uma linguagem cifrada que não pode ser levada ao pé da letra.

Por exemplo:  quando a chuva já é boa, mas falta mais, eles dizem que está garoando;  sempre tudo é “um pouquito” ou mais ou menos. Quando um cavalo é manso para eles, para um urbano é um fogoso corcel botando fogo pelas ventas.

Meu primeiro tombo foi assim: eu saí numa manhã de geada para ver uns terneiros do cedo que estavam nascendo. O capataz estava de folga e fui com um peão. Vimos uma vaca deitada, com o útero de fora e o terneirinho em redor da mãe. O peão me pediu que trocássemos de montaria porque a égua dele não ia deixar ele levar o terneirinho. Apeei, trocamos de montarias e alcancei a ele o terneiro de seus 35 quilos, recém-nascido, e “amuntei” naquela desgranida. Ainda não havia aprendido, naquela ocasião, que os equinos têm, como nós, humanos, suas manias. E essa égua era geniosa e cheia de baldas. Não consegui me enforquilhar e nem colocar o pé no estribo do lado do laço, meio que montei na garupa, todo torto, e a filha da mãe não esperou eu me ajeitar e saiu “velhaqueando” e disparando “campofora”. 

Eu tinha receio de sofrenar aquela imundície de égua com medo que ela empinasse e caísse em cima de mim.  E a louca galopeando como uma diaba. Até que a consegui  conduzir para um cerro de pedras e pensei: “Maldita, agora tu vais ralar as patinhas ou te quebrar”. Realmente ela sentiu a dor do pedregal e deu uma vacilada. Foi quando pulei de cima dela.

A tirana só foi parar uns dez quilômetros depois. E eu estirado quase sem poder respirar, todo lastimado. Pedi para o peão ir até a sede da fazenda e avisar Maristela para vir de caminhonete juntar meus cacos.

Dei a bandida num brique por outro cavalo sob os protestos da peonada que achava ela mansa. Prometi para minha família não cavalgar mais. Mas promessas são feitas para serem descumpridas, andar a cavalo dá um prazer angelical. Foi então que aprendi mais uma lição: cavalo de patrão tem que ser dócil, de boa índole, sem maus antecedentes, bem domado, manso mas não lerdo, bonito, forte, mas não mal-acostumado. E que é essencial falar com o cavalo , fazer carinho nele, dar a mão para ele cheirar, lavá-lo após a lida, escová-lo , dizer obrigado. Teu cavalo tem que te amar.