Conversa Sentada 16/11/2017 09h35

Noites escuras

A pressa e a compulsão louca por acumulação de bens materiais levaram ao desuso da meditação

Procurem no Google imagens da noite na Terra, tiradas do espaço. Os continentes aparecem quase claros, pontilhados de luzinhas. É noite, mas não escura. Não sei por que, mas me invoco com as noites iluminadas. Acho que a mãe Natureza também não gosta.

Recentemente fiz um périplo por uma região agrícola da Alemanha. Hospedei-me num belo hotel, no alto de uma elevação. À noite, da sacada do apartamento, via um mar de pontinhos iluminados. A cada tanto uma vila, um povoado, uma cidade. Fiquei um pouco melancólico.

Isso me reporta à nossa fazenda, em Unistalda, com seus muitos capões de árvores nativas e onde, realmente, as noites são imunes à luz artificial. Recordo, agora, um episódio muito gostoso. Recém tínhamos adquirido uma área, contígua à nossa, a chamada Fazenda da Capela. Por ela flui uma caudalosa e límpida sanga, com suas matas ciliares de frondosas árvores nativas.

Pois num 31 de dezembro, anos atrás, peguei um trator, atrelei a ele um reboque e montei acampamento à beira do mato e da sanga. Coloquei uma lona por cima do reboque, dentro dele uns colchonetes e estava feito nosso quarto de dormir. Fiz fogo ao relento e, sobre uma improvisada trempe, assamos linguiça campeira. Tudo acompanhado com pão feito em casa. E um vinhote chileno, que ninguém é de ferro.

Maristela e eu contemplando as estrelas. Sem rádio, nem TV, nem celular. Fomos deitar 9 da noite sob a vigilância das corujas. Ouvimos roncos de bugios e o farfalhar das folhas com a ação da tépida brisa.

Quando começou a clarear, os jacus iniciaram sua festa junto com mil pássaros. Observei algo curioso: durante a madrugada escura há momentos de absoluto silêncio, mas com a chegada do amanhecer vão se sucedendo diversas tonalidades de pios, como se as aves se organizassem num coral. Em seguida ouve-se o mugir das vacas e o balir das ovelhas. Tudo para recepcionar, condignamente, com honras e galas, a chegada do rei sol.

Então, à maneira de todos os povos antigos, entramos “em pelo” na sanga para o banho matinal natural. Arroio esse com leito basáltico, sem nenhum resquício de poluição, com sua água cristalina e, mesmo no verão, quase fria. O sol ia se filtrando por entre as árvores, deixando fachos de luz, como se estivéssemos numa catedral gótica. E que chimarrão gostoso com a água do próprio riacho! O Bioma Pampa é repositório de uma infinidade de gramíneas, arbustos e árvores, além de vasta fauna nativa. E que dizer das flores silvestres multicolores? Para que rádio ou som, se estávamos imersos nos trinados dos pássaros, se ali era um lugar de santa paz?

O silêncio e a contemplação da natureza sempre foram, pela história, práticas usuais. Hoje, porém, a pressa e a compulsão louca por acumulação de bens materiais levaram ao desuso da meditação.

Relutei muito para voltar à sede da estância, onde a internet já havia fincado o pé... Até a peonada, teclando e teclando.