Conversa Sentada 30/11/2017 09h22

Santa Cruz, saudades

E o padre entoava as antigas canções alemãs, suave e pianíssimo. Fazia um pequeno vibrato

Lembro-me vagamente de uma espécie de hino que escutei na meninice em minha terra natal:

Santa Cruz, ó linda terra/de fulgor e encantos mil/
salve ponto luminoso/na amplidão do meu Brasil

Procurei no Google e não a achei. Também não me recordo das demais estrofes.

Corta para a Rua Thomaz Flores, 864, onde era a casa de meus pais. Pertinho dali ficava a casa do sr. Alfredo Kliemann. Meu pai ia conversar com ele na calçada. E eu ouvia músicas maravilhosas que advinham daquele sobrado. Só recentemente me dei conta que era a Suite Coppelia, de Delibes. As partes de que mais gostava eram a Valsa e a Mazurka.

Câmeras no auditório do Colégio São Luís. Fui, com meus pais, assistir a uma apresentação do Orquestra Estudantina (seria mesmo esse nome?). Nunca mais esqueci de uma das lindas músicas que tocaram. Chiribiribin (Ciribiribin! Che bel faccin, / che sguardo dolce ed assassin. / Ciribiribin! Che bel nasin, / che bel dentin, che bel bocchin). Um dos violinistas era o Guido Molz, salvo engano.

Meu Deus, e quando surgiram os filmes de Sissi, a imperatriz? Todo falado e cantado em alemão, diziam os anúncios. Minha mãe foi assistir várias vezes e voltava quase morta de tanto chorar. 

Por sinal, recentemente num acesso de saudade e nostalgia, fui no YouTube ou na Netflix e assisti aos três filmes da Romy Schneider. Tive que pegar um roupão de dois metros para enxugar as lágrimas. O alemão que se falava no filme era o de Santa Cruz.

Câmeras agora para a rua João Werlang, em cuja esquina com a Thomaz Flores era a casa de comércio de meu pai. Aos domingos vinham os colonos de carroça e deixavam ali seus veículos com os cavalos. Entravam pelos fundos e lavavam os pés no tanque. Tiravam os chinelos e tamancos e calçavam sapatos. E se iam duas quadras adiante para a Santa Missa. Minha irmã Lia e eu aproveitávamos para esconder as sombrinhas e chinelos.

Ao lado da nossa casa, onde agora mora a família do sr. Ely Fontoura, era a residência dos padres. De vez em quando, o Pe. Linn vinha jogar um Schaffkopf com meu pai e seus amigos. Outra lembrança inolvidável era o Pe. Darupp, homem finíssimo (devia pertencer à nobreza alemã), sempre vestido impecavelmente e que vinha tomar uma cervejinha com meu pai vez por outra. Era o momento de abrir a porta da sala, com suas poltronas, que só era usada nos momentos especialíssimos. E o padre entoava as antigas canções alemãs, suave e pianíssimo. Não gritava, entoava, fazia um pequeno vibrato. Um homem fino. 

Agora me lembrei do Padre Demmler, outra figuraça em sua “Monareta”, uma pequena bicicleta a motor. Eu tive uma infância muito feliz. Tinha pais, avós, irmãs, tios e tias, amigos amorosos. Dou-me conta que eu estava no céu e não sabia. Que o outro céu seja meio parecido...