Conversa Sentada 08/11/2018 00h15 Atualizado às 13h43

As casas também morrem

Respondi tristemente que aquela casa tinha morrido, que nossos negócios estão florescendo em outros lugares; enfim, vamos pensar...

Meu avô Rudolf Gessinger, cujos antepassados vieram de Zeltingen-Rachtig, às margens do Mosel, na Alemanha, tinha uma casa comercial em Boa Vista, bem onde a estradinha se bifurca. É um casarão, hoje em ruínas. São três módulos: num, a casa de moradia, com vários quartos; colado, outro, que era a loja. Nesta se vendia de tudo: tecidos, bebidas, cereais, remédios básicos, panelas, utensílios, mil coisas. O terceiro módulo era o depósito de víveres, fardos de fumo, farinha, milho, arroz etc. Também servia de salão de baile. Na moradia, na sala de visitas, havia piano, acordeão, violinos. Também havia um telefone (número 100), único em toda a redondeza. E meu avô tinha um carrão, cuja marca não me lembro, mas era daqueles de filmes dos anos 40. Os negócios fluíam muito bem, vô Rudolf mandou alguns filhos estudarem fora e, para meu pai, ajudou a montar um comércio na cidade de Santa Cruz.

Nunca fiquei sabendo porque meu avô ia a Santa Cruz, na Matriz, assistir à missa. Parece que havia brigado com o padre de Boa Vista. Num domingo de Ramos, em 1953, ao se dirigir a Santa Cruz para a  missa, sofreu um acidente na descida do Grasel, sendo que Vó Rosa e ele faleceram. A Gazeta noticiou amplamente na ocasião.

Assumiu o comércio meu tio Rudi. Mas os negócios começaram a declinar e a casa foi vendida. Os novos donos foram indo e indo e, finalmente, a casa foi fechada. Sem cuidados e manutenção, aquele casarão imponente não teve tratamento adequado e o telhado começou a ruir.

Semana passada fui visitar minha irmã em Santa Cruz e aproveitei para comprar 15 quilos da melhor linguiça do mundo, a do Schuster, em Pinheiral (melhor que na Alemanha, onde parece que agora gostam mais de “fast-food”). Fui com meu filho visitar a Lissi Bender em sua Wilde Heimat e segui para Boa Vista ver como estava a casa dos Gessinger. Mein Gott, inabitável. Meu filho de 22 anos me falou: “pai, vamos comprar essa casa, reformar e fazer um memorial.” Respondi tristemente que aquela casa tinha morrido, que nossos negócios estão florescendo em outros lugares; enfim, vamos pensar…

Triste fim teve por igual nossa centenária casa paterna na Rua Thomaz Flores, 864. Com o falecimento da minha mãe e nenhum herdeiro ou descendente querendo nela morar, a casa ficou vazia. E, penando nessa solidão, acabou por ficar com depressão e doente. A solução foi vender. Me disseram que foi demolida. Não tenho coragem de passar por lá. A diferença das casas é que a de Boa Vista, quem sabe, possa um dia ressurgir das cinzas...