Conversa sentada 13/02/2020 09h27

Navegando contra a correnteza

Segundas-feiras volto para a praia. Para o silêncio absoluto das madrugadas. Para a normalidade da convivência. Para a volta da civilização

As praias de mar mudaram muito. Aqui no Estado, em Santa Catarina, no Rio de Janeiro, no Nordeste. 

Em 1972 conheci a praia de Canasvieiras. A estradinha saía da Beira Mar norte até lá. Estrada de areia. Havia poucas casas. A água era cristalina e o regime dos ventos facilitava o esporte da vela.

Em Porto Alegre há uma escola de vela chamada Barra Limpa. Comecei o curso com um monocasco Laser. Foi fascinante desvendar os segredos do vento, esse milagre de um barquinho sem motor e sem remos singrar pela água e avançar alguns graus contra o vento. Absolutamente encantado, comprei um barquinho a vela e uma carreta para levá-lo a navegar no Guaíba e em Canasvieiras.

Logo em seguida, decidi passar para um Hobby Cat 14, que tem dois cascos separados; um catamarã, portanto. É um barco veloz; dá para navegar com duas pessoas a bordo. O catamarã, no entanto, não aderna como os monocascos. Se a gente facilitar, ele capota.

Até participei de uma competição e me dei muito mal por me precipitar na largada e capotar. Era o Hollywood Vela. Aos poucos, porém, fui me desencantando, por ser muito trabalhoso andar rebocando o barco para cima e para baixo.

O tempo foi passando e Canasvieiras foi se inflando até se tornar tristemente poluída.

Parei de ir para lá e segui o conselho de um amigo, comprando uma casa em Xangrilá. Esse meu amigo me convenceu dizendo que o mar aberto não tem quase poluição, a praia é para caminhar na areia e não propriamente para nadar ou navegar. Que eu deveria valorizar o silêncio, as solitárias pescarias na plataforma de Atlântida, a possibilidade de jogar tênis nas quadras cobertas da Saba. Que no inverno era muito bom de curtir uma lareira.

Lamentavelmente, nos fins de semana de janeiro e fevereiro acorrem, além dos proprietários sazonais, pessoas espaçosas, barulhentas, muitos drogados, carros com som altíssimo, correndo em alta velocidade. Um inferno.

Para um condomínio fechado não quero ir. Não pretendo ficar longe da brisa do mar, quase como um prisioneiro, com uma casa colada à outra.

De março até o meio de dezembro é tudo calmo. Mas em janeiro e fevereiro optei por uma tática que está dando certo. Sextas-feiras, após o almoço, volto para Porto Alegre e me refugio no nosso apartamento com vistas para o Guaíba e o Beira-Rio. Sábados e domingos, Porto Alegre desmaia, fica vazia, a orla se presta para andar de bicicleta.

Segundas-feiras, após o meio-dia, volto para a praia. Para o silêncio absoluto das madrugadas. Para a normalidade da convivência. Para a volta da civilização. Livre da barbárie.