Mundos à parte 03/08/2018 20h29 Atualizado às 15h42

Este viajante visitou países que não existem; entenda

Guilherme Canever foi até países que, embora autônomos, não são reconhecidos pela ONU

Vamos imaginar que você, que agora começa a ler este texto, seja um contumaz viajante. Então lança-se aqui o desafio. Já viajou, dentre tantos destinos possíveis ao redor do planeta, para os seguintes países: Transnístria, Somalilândia, Abecássia, Nagorno-Karabakh, Ossétia do Sul, Karakalpak, Caxemira, Turquistão Ocidental ou Curdistão? Pois é, talvez venha mesmo a ser um pouco mais difícil de localizar essas nações no mapa. Mas elas existem e mantêm vida autônoma.

Quem conta e confirma é o viajante, escritor e blogger curitibano Guilherme Canever, que publicou livros detalhando suas andanças pelo mundo. A gente apenas não ouve (ou não ouviu) falar desses países porque eles ainda não têm o reconhecimento formal da Organização das Nações Unidas (ONU) e, portanto, registram poucas relações diplomáticas oficiais. Alguns têm fronteiras e administração estabelecidas há anos e são aceitos na comunidade internacional. No entanto, seguem sem esse “ok” da ONU.

Foto: Reprodução

 

Canever compartilha em livros, em blog e em entrevistas a surpresa de chegar à fronteira de tais nações, até diante da eventual exigência de solicitação de visto. Algumas dessas regiões têm pendengas históricas, por vezes quase insolucionáveis e inconciliáveis, com vizinhos ou países dos quais buscam independência, e assim sua pretensão de autonomia envolve atritos e retaliações.

É o caso do Kosovo, no território da antiga Iugoslávia, nos Bálcãs; da Palestina, no Oriente Médio; de Taiwan e do Tibete, junto à China; da Caxemira, no norte da Índia; e do Curdistão, no norte da Síria e do Iraque e ao sul da Turquia. São áreas conflituosas que, entretanto, alcançaram algum tipo de organização e independência de decisões, tendo se declarado repúblicas ou estados, mas sem pleno reconhecimento.

Foto: Divulgação

 

Andante

Como Canever chegou a esses lugares? Por conta de suas andanças mundo afora. Visitou inúmeros países conhecidos e reconhecidos como tal de fato e de direito, e escreveu sobre tais roteiros. No meio do caminho foi se deparando com uma fronteira não prevista aqui, um novo pedido de visto ali. Tanto reparou nesse “universo paralelo” de nações que não constam no mapa que teve o insight. Fazer um livro sobre elas. Assim lançou em 2016, pela editora Pulp, o volume intitulado Uma viagem pelos países que não existem. Não deu outra. Vendeu que nem pão quente.

Foto: Reprodução

 

A repercussão foi tamanha que teve ampla acolhida da mídia. Foi ao Programa do Jô, conduzido por Jô Soares, na TV Globo. Lá estava ele, ao lado da esposa, Bianca Soprana (que o acompanha, palmo a palmo, em muitos dos trechos ao redor do planeta), explicando como conseguiu a façanha de descrever “países que não existem”! E, claro, para explicar, em adendo, como, por que e em que momento surgiu sua propensão a ser, literalmente, viajante, com milhares de quilômetros rodados ou viajados mundo afora, como narra em detalhe em seus livros.

Pé na estrada e fé na vida

O livro Uma viagem pelos países que não existem, de Guilherme Canever, é a materialização de uma percepção, da importância de estar atento ao inusitado, ao curioso, sempre que se está longe do lugar de origem. Ou até mesmo quando ainda se está em ambiente familiar. A obra no momento está esgotada (deverá ter nova edição em breve), mas suas impressões dos passeios podem ser conferidas no blog que mantém, Saiporai, dedicado a “viagens independentes”. E ele não para. Tentamos localizá-lo ao longo da semana para uma entrevista e deu retorno informando que estava na... Islândia!, no extremo norte do planeta.

Tudo começou ali por 2009. Por formação acadêmica, Canever, hoje com 41 anos, é engenheiro florestal. Tal habilitação reforçou nele o contato com a natureza e o meio ambiente, e a vontade de conhecer outras paisagens. Desfez-se de compromissos pessoais e profissionais, combinou com a companheira de entregar o apartamento, vendeu o carro e comprou passagem aérea. Atravessou o Atlântico. Chegou à Cidade do Cabo, na África do Sul, e de lá seguiu pelo continente africano. O que viu e vivenciou narra no livro “De Cape Town a Muskat: uma aventura pela África”, de 2013. Muskat é a cidade que em português se nomeia Mascate, situada em Omã, já no Oriente Médio. Separam-nas 16 mil quilômetros.

Nas perambulações pela África, Bianca Soprana, sua esposa, que ficara no Brasil se desincumbindo de compromissos, resolveu as demandas e seguiu ao seu encontro. Fizeram juntos boa parte do percurso. E juntos embarcaram na odisseia seguinte. A partir de Istambul, na Turquia, enfrentaram mais 5 mil quilômetros e refizeram o trajeto da Rota da Seda.

No ponto final, estavam do outro lado do planeta. E tinham assunto suficiente para mais um belo livro, “De Istambul a Nova Delhi: uma aventura pela Rota da Seda”, lançado no mesmo ano de 2013. Foi em meio a essas jornadas, e às que fez e fizeram no retorno para casa, que se depararam com o mistério de tantos países que nem existem no mapa.

Recantos para encher os olhos

O livro de Guilherme Canever dedicado a países não reconhecidos pela ONU ou que não conseguem estabelecer plenos laços diplomáticos é um guia com o efeito de instigar o leitor a ir conhecer alguns desses recantos, por mais distantes que se situem. Na introdução, cita frase do escritor de viagens norte-americano Paul Theroux como um reforço em sua argumentação: “O fato de que poucas pessoas vão é uma das razões mais fortes para viajar para um lugar.” “Ele não poderia estar mais certo”, diz Guilherme, citando que suas viagens ocorreram entre 2009 e 2014.

Foto: Reprodução

 

Começa por situar o leitor com informações interessantes sobre o que, afinal, faz um país ser um país, e como ele surge. Lembra que a ONU tem 193 países-membros, número que segue atual, enquanto a Fifa, instância máxima do futebol, por exemplo, tem 209 países filiados. Só aí já se tem 16 nações a mais consideradas como tal no segundo caso. De outra parte, a Organização Internacional para Padronização (da famosa sigla ISO) adota códigos para mais de... 245 países (e eles existem!). Além disso, Canever menciona que o site de solicitação de visto para os Estados Unidos tem no menu “país de origem” opções para mais de 250 lugares.

O Direito Internacional prevê que se deve considerar países os territórios que tenham: população permanente, território definido, controle de fronteiras, capacidade de se governar e relações com outros países. Todos esses requisitos os “países que não existem” que Canever visitou preenchem.

O livro apresenta mais de uma dezena de nações, com dados gerais sobre localização, mapa, capitais, principais cidades, pontos turísticos, forma de governo, população, moeda, idiomas em que seu povo se expressa etc. Por fim, traz dados sobre regiões autônomas que já foram independentes ou gostariam de se tornar, caso de muitas repúblicas na enorme extensão territorial da antiga União Soviética (como as repúblicas da Kalmukia, de Tuva, da Chechênia, do Dagestão e da Inguchétia). E cita casos de sucesso de independência, como Sudão do Sul, Timor Leste, Palau e Eritreia. No conjunto, de brinde, uma bela aula de história e de geografia.

Do álbum pessoal

Foto: ReproduçãoAqui, o viajante e escritor no litoral da Ilha de Socotra, localizada no Iêmen
Aqui, o viajante e escritor no litoral da Ilha de Socotra, localizada no Iêmen
Foto: ReproduçãoGuilherme Canever com dois moradores durante a visita à Ossétia do Sul
Guilherme Canever com dois moradores durante a visita à Ossétia do Sul
Foto: ReproduçãoCanever reunido com um animado grupo de moradores na Somalilândia
Canever reunido com um animado grupo de moradores na Somalilândia
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução