Literatura 01/10/2018 00h55 Atualizado às 08h20

Conheça quatro livros para entender esse tempo

A maioria das editoras tem colocado nas livrarias títulos que proporcionam reflexões muito atuais e sadias sobre temas efervescentes dentro e fora do País

O segundo semestre, com a realização de feiras e eventos literários em diversas cidades e regiões, e talvez inclusive com a chegada da primavera e o encaminhamento para as festas de final de ano, costuma ser pródigo em lançamentos de livros. E 2018 não só não fugiu à regra como acentuou essa tendência. A maioria das editoras tem colocado nas livrarias títulos até longamente aguardados, que proporcionam reflexões muito atuais e sadias sobre temas efervescentes dentro e fora do País.

É o caso do novo (e quarto) livro da escritora bielorrussa Svetlana Alexiévitch, incensada jornalista que ganhou o Nobel de Literatura por se dedicar ao resgate memorial sobre o desastre de Chernóbil e a atuação russa na Segunda Guerra Mundial. E ainda do novo conjunto de ensaios do israelense Yuval Noah Harari, o autor de Sapiens e Homo Deus.

No Brasil, dois autores merecem leitura imediata. O paulista Olavo de Carvalho tem reeditado, pela Record, um contundente ensaio sobre o ambiente (in)cultural brasileiro, O imbecil coletivo, originalmente lançado há mais de duas décadas, e que já naquela época (como certamente acontecerá agora) causou frisson.

Já a jornalista e escritora Adriana Negreiros estreia na biografia ao dedicar volume, com originalidade, ao ambiente do cangaço, mas focando nas mulheres que faziam parte do bando de Lampião, na figura de sua companheira Maria Bonita. É leitura para todos os gostos, e de longo alcance.

Foto: Divulgação

As últimas testemunhas: crianças na Segunda Grande Guerra Mundial, de Svetlana Alexiévitch. Trad. de Cecília Rosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 272 p. R$ 54,90.

A escritora bielorrussa Svetlana Alexiévitch era praticamente desconhecida no Brasil até o momento em que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2015. Para satisfação dos leitores, essa notícia motivou a Companhia das Letras a providenciar a tradução de Vozes de Tchernóbil, uma de suas obras mais conhecidas. Outros dois livros se seguiram a este, e agora chega o quarto, que havia sido adquirido pela editora no primeiro lote. Em As últimas testemunhas, Svetlana dedica-se a recuperar depoimentos de pessoas que, quando crianças, vivenciaram a Segunda Guerra Mundial, e a ela sobreviveram. Crianças naquela época, são, por isso, em pleno século 21, as últimas testemunhas vivas daquele conflito. Uma obra pungente, dolorosa e profundamente humana.

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21 lições para o século 21, de Yuval Noah Harari. Tradução de Paulo Gaiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 446 p. R$ 54,90.

O professor israelense de História Yuval Noah Harari tornou-se um dos nomes mais conhecidos da área das ciências humanas no mundo todo com o lançamento de Sapiens, em 2014, e Homo Deus, em 2016, obras nas quais faz duas viagens, a primeira ao passado da humanidade, e a segunda ao hipotético futuro da mesma. Agora, seu campo de reflexão é o presente, ou, mais exatamente, esse século 21, ao qual dedica 21 ensaios, cada um deles centrado em um tema que, na avaliação do autor, de 42 anos, sinaliza para uma ruptura radical com tudo o que o ser humano viveu ou experimentou até aqui. Parte dos tópicos amarra-se com a espinha dorsal dos livros anteriores, mas angústias contemporâneas, como as fake news, as crises tecnológicas, as ameaças ambientais e o terrorismo, entre tantas outras, prometem instigar o leitor.

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O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras, de Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Record, 2018. 448 p. R$ 69,90.

Lançado em 1996, O imbecil coletivo, do paulista Olavo de Carvalho, escritor, ensaísta e jornalista de 71 anos, parece não ter perdido em nada a atualidade. Com ampla repercussão na época, aborda sem meias palavras, como o título já deixa entrever, o esvaziamento da preocupação com cultura, formação e aperfeiçoamento junto à população brasileira em geral. É de perguntar se as coisas melhoraram ou pioraram nas duas décadas que separam os dias atuais do momento do lançamento. Mas é bem provável que o leitor do século 21 encontre razões para avaliar ou reavaliar o panorama social e cultural, nas diversas áreas, principalmente porque dessas duas paisagens, a social e a cultural, costuma advir a energia capaz de mudar o mundo para melhor, a menos que ele não precise ser mudado.

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Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiros. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 296 p. R$ 49,90.

A atuação de grupos de cangaceiros nos primeiros anos do século 20 em áreas afastadas de todo o Nordeste do Brasil acabou por se revestir de ares míticos. Bandos como o liderado por Virgulino Ferreira, o Lampião, levavam o terror a comunidades, mas também inspiravam curiosidade em quem ouvia os relatos à distância. Em meio aos homens rudes que se deslocavam a cavalo pela caatinga havia muitas mulheres. A mais conhecida sem dúvida é Maria Bonita, companheira de Lampião, que, apesar da fama, nunca chegou a merecer maior atenção de pesquisadores. A jornalista e escritora Adriana Negreiros preenche a lacuna ao realizar ampla pesquisa acerca da vida dessa personagem, aproveitando esse estudo para iluminar igualmente a presença de inúmeras outras mulheres no ambiente do cangaço.