Perfil 30/11/2018 22h00 Atualizado às 21h43

O Lado Pessoal: Marcia, mestre da pintura

Ela produz. Muito! Mas também ensina a pintar. De uma forma muito eficiente, com liberdade, para que o aluno siga seu caminho

Existem dois tipos de loucos: o patológico, aquele perigoso, que precisa de tratamento; e o louco sadio, de cara, o “maluco beleza”, atento e sensível aos mais distintos acontecimentos, que vibra com as coisas boas e belas da vida – o louco, aquele, que dança ao som da folha quando cai. Estes últimos são os que me interessam.

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E se você não é maluco, pode apostar que fica meio doidinho ao penetrar no universo da artista plástica Marcia Regina Maróstega Cândido dos Santos, de tanta coisa que, em seu ateliê, tem para ver e mexer: tintas de todas as cores; pincéis dos mais variados tipos, tamanhos e modelos; telas acabadas e em construção; chocolates que parecem terem sido tirados de um sonho; livros de arte, gravuras, fotos, esculturas; objetos novos e antigos... Um laboratório em ebulição, de ebulição criativa, literalmente esculpido em meio à natureza, e onde tem até uma trilha que leva a uma cachoeira escondida, na mata, que a alguns poucos “malucos” é dado o prazer de desfrutar.

O local é perfeito para quem quer “enlouquecer” na criatividade. Silencioso e, ao mesmo tempo, preenchido pelo som dos pássaros e da água, que corre infinita, em uma fonte que Marcia mandou construir no quintal, logo na entrada, à esquerda. O ateliê é um lugar onde eu poderia viver para sempre, com alguém me passando pizzas por debaixo da porta.

Logo no início de nossa conversa, com sua costumeira cordial e alegre hospitalidade (café, água, água tônica, bolo mesclado, salgadinhos, chocolates), ela vai me dizendo: “Pode colocar aí que eu sou uma pessoa simples e...”. Faz uma pausa, pensa um pouco, e continua: “Simples não. Eu sou uma pessoa... Normal. É, pode colocar que eu sou uma pessoa normal. Ou melhor, normal, também não. Não sou muito normal, não. Ah (risos), sei lá o que eu sou.” E eu tento explicar, para ela, a minha teoria dos loucos que, não sendo loucos, são muito loucos e... Bem, melhor comer mais uma fatia de bolo!

Marcia é natural de Santa Rosa – o sotaque, próprio daquela região, no Noroeste do Estado, se mantém intacto – e aqui chegou na metade da década de 1990, junto com o esposo, o ortopedista e traumatologista Josimar Cândido dos Santos, referência em sua área, disposta a se estabelecer, produzir e ensinar arte. Ela até tentou outras áreas tipo Letras, Odontologia (?), Direito (fez dois anos e meio, na Unisc), mas não adiantou nada: é nas Visuais que ela realmente se encontra.

E enlouquece! Sua construção artística inicia na infância, com o incentivo da mãe e de um outro “maluco” da família, o tio-avô Duílio, que se interessava pelas artes da menina e que tinha um pequeno ateliê nos fundos de casa – faleceu aos 93 anos. “Sem o saber”, conta ela, “ele foi muito importante para mim. O seu interesse e elogios me incentivavam bastante.”

De Santa Rosa, foi estudar em Santa Maria, onde então se formou em Artes Plásticas pela UFSM. “Nunca nada foi muito fácil para mim. Venci pela persistência.” E entre os muitos cursos que fez, destaca um, em especial, em Florença, na Itália, em 1993, um pouco antes de se estabelecer por aqui e um pouco depois de retornar para um período de cerca de três anos em Santa Rosa e ajudar no nascimento da Fundação Educacional Machado de Assis, a Fema, naquela cidade. Foi a patronesse da primeira turma que se formou em Artes naquele estabelecimento.

Logo que aqui chegou, deu aulas na extinta galeria Visage e em seguida integrou o corpo docente do Uniarte, projeto de extensão da Unisc voltado para cursos de cerâmica, desenho e pintura, junto com Eliana Baumhardt e Clarisse Blauth. Foram 13 anos ensinando e formando novos artistas em nossa cidade, até abrir o seu próprio ateliê – não o particular, em casa, mas um outro, aos pés do Acesso Grasel –, onde segue ensinando a arte. E a arte de encantar.

Dá aulas quase todos os dias, em grupos, para um total que, às vezes, chega a 35 pessoas. “Virou uma família. É terapêutico. Eu mais aprendo com eles do que eles comigo. A gente faz muita coisa juntos, viajamos ao encontro de museus e exposições, fomos até Inhotim, participamos de coletivas e atualmente (até o outro fim de semana) estamos expondo na Casa das Artes Regina Simonis.”

Marcia é assim. Simples, complexa, louca, normal... Uma menina, ainda, como as meninas que desenha e pinta, que podem ser uma e mil, ao mesmo tempo, base para a sua infinita qualidade técnica. E de infinita sensibilidade, também. Meninas que são muitas, espalhadas pelas galerias do mundo e pelas paredes de casas com alto requinte, onde habita, pelo menos, uma pessoa bem... louca!