Literatura 03/12/2018 02h02 Atualizado às 08h01

Luis Fernando Verissimo lança novo livro de crônicas

Ironias do Tempo (Objetiva) é uma seleção de 77 textos dos publicados pelo escritor entre 1998 e 2018

Frasista impagável, o escritor e jornalista americano H. L. Mencken (1880-1956) disparava definições para praticamente todos os momentos do cotidiano humano e, em uma delas, parecia ter sido pensada para Luis Fernando Verissimo, outro grande investigador do dia a dia: “O que realmente enriquece um homem não é a experiência: é a observação”. Verissimo acostumou-se a relatar aos leitores acontecimentos ocorridos tanto dentro como fora de sua casa, crônicas que, com o tempo, solidificaram sua fama de mestre do humor sintético.

O passar dos dias, aliás, é tema do livro Ironias do Tempo (Objetiva), seleção de 77 textos dos publicados por Verissimo entre 1998 e 2018, a maioria no jornal O Estado de São Paulo. O cronista relata os altos e baixos de seu time do coração (Internacional) com a mesma desenvoltura com que acompanha, entre gracinhas e apreensões, os acontecimentos em Brasília – no caso, desde o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso até a presidência tampão de Michel Temer. Afinal, Verissimo exerce sua verve impagável para comentar situações inusitadas que, graças ao bom humor, se tornam plenamente factíveis. Sobre o assunto, Verissimo respondeu por e-mail as seguintes questões.

Ficha

IRONIAS DO TEMPO
Autor: Luis Fernando Verissimo
Organização: Adriana Falcão e Isabel Falcão
Editora: Objetiva (208 págs., R$ 49,90)

ENTREVISTA

Luis Fernando Veríssimo
Escritor

Mix - Qual a essência do tempo cotidiano nas suas crônicas?
Luis Fernando Verissimo
- Muitas das crônicas do livro são sobre o cotidiano de gente comum em situações incomuns. O tempo entra como medida de degeneração orgânica, como na história do encontro de dois amigos que não se veem há anos e começam a comentar o aspecto um do outro, e a se criticarem mutuamente por não terem se cuidado e envelhecido mal. Acabam brigando, para sempre.

Mix - O efêmero é a identidade de um cronista?
Luis Fernando
- Depende do cronista. O grande Rubem Braga fazia crônicas inesquecíveis sobre o efêmero. No fim, o fato de serem inesquecíveis desmente a efemeridade...

Mix - A crônica tem a capacidade de revelar, por meio da superfície, uma dimensão mais profunda da vida e das relações humanas?
Luis Fernando
-Eu gosto de fazer crônicas em que os personagens se revelam pelo que dizem, sem a necessidade de descrevê-los, ou localizá-los. Às vezes, só com o diálogo você pode descrever um drama ou uma comédia, sem precisar de detalhes.

Mix - Tanto José de Alencar como Machado de Assis escolheram, como símbolo da crônica, o beija-flor. Qual seria o seu eleito?
Luis Fernando
-O beija-flor paira no ar e dá bicadas nas flores. Não se parece com nenhum cronista que eu conheço. Talvez um símbolo para os jornalistas brasileiros em geral seja o quero-quero, sempre pedindo emprego ou aumento de salário.

Mix - Durante o período da ditadura militar, alguns cronistas que até então se dedicavam à abordagem de amenidades passaram a expressar suas opiniões de maneira mais explícita. Você acredita que isso é mais comum em tempos de exceção ou não há exceção nenhuma?
Luis Fernando
- Entendo que foi o contrário, a ditadura reprimiu quem queria ser mais explicitamente contra o regime. Houve exceções, como o escritor Carlos Heitor Cony, mas a maioria teve de recorrer às entrelinhas para dizer o que queria. Não vamos esquecer que havia censura da imprensa.