Música 03/01/2019 21h55 Atualizado às 08h33

Com total liberdade artística, Elba Ramalho lança 38º disco

Cantora divulga o lançamento de 'O Ouro do Pó da Estrada'

Há tempos, Elba Ramalho é artista independente. Mais precisamente desde o disco Qual o Assunto Que Mais Lhe Interessa?, lançado em 2007 – e com o qual ganhou seu primeiro Grammy Latino. Após 40 anos de estrada, a liberdade artística lhe traz a doce sensação de ser dona de seus próprios rumos. “O desvinculamento meu dos grandes selos foi para que eu ganhasse a liberdade”, diz ela à Agência Estado, antes de partir para Trancoso, na Bahia, onde mantém um projeto de shows intimistas com convidados nesta época do ano.

“Acho que artista tem de ser livre. Não consigo entender como você pode ficar sempre atendendo à necessidade do mercado. Não tenho mais que provar nada. É aquela velha história: eu podia ter continuado a fazer, a cada ano, Banho de Cheiro 2, 3, 4. Foi uma música que pegou, virou um grito do carnaval. Mas não estou preocupada com essa história.”

E foi por passar a integrar a cena indie que Elba teve a chance de voar mais longe em termos de sonoridade. Ela pode, sim, fazer frevo, forró, entre outros ritmos que marcaram sua carreira, mas se (e quando) quiser. Essas experimentações se consolidam agora, em seu novo álbum, O Ouro do Pó da Estrada, o 38º da sua carreira, no qual se percebe cristalizada uma observação bem colocada por Zélia Duncan sobre Elba no material distribuído para a imprensa: “Tem um pé no sertão e o outro no mundo”.

Ao longo de suas 13 faixas, O Ouro do Pó da Estrada trata muito dessa ideia do caminhar. A começar pela música que abre o disco, Calcanhar, parceria de Yuri Queiroga e Manuca Bandini, com texto incidental de Bráulio Tavares, que já tinha sido gravada pela cantora pernambucana Ylana Queiroga, irmã de Yuri. Desta vez, ganhou versão mais “pesada” na releitura de Elba. “É uma das minhas músicas preferidas. Gosto do resultado sonoro que a gente fez, um baião meio rock and roll. Abri com ela porque acho uma música forte, e é a coisa também do pisar, do caminhar.”

Nesse mesmo diálogo sonoro, mas com uma leve atmosfera de carnaval pernambucano, O Girassol da Caverna vem na sequência, com dueto delicioso de Elba e Ney Matogrosso. A canção é de Lula Queiroga e foi gravada no disco Baque Solto, de Lula e Lenine, na década de 1980. A música é seguida de outra regravação, Girassol, canção que ficou famosa na interpretação de Toni Garrido à frente do Cidade Negra. Aqui o sucesso recebe nova roupagem, com introdução de cordas, e depois transitando entre o reggae e o xote. Mais adiante, há outra aproximação interessante no roteiro do disco, entre a canção José, de Siba (do Mestre Ambrósio), e O Fole Roncou, de Luiz Gonzaga e Nelson Valença, como representações de duas gerações da música nordestina.

BELCHIOR

Da mesma forma que reverencia o mestre Gonzagão no álbum, Elba também recupera um lado B da obra de Belchior, ao cantar Princesa do Meu Lugar. Como foi essa escolha? “É um chamego meu. Belchior é um gênio. É uma música atraente, a gente conseguiu fazer meio um reggaezinho, suave, e fala também da história dele de ir, da vontade de ir embora”, explica a cantora. Ela conta que, assim como os outros amigos do compositor, ficou anos sem saber do paradeiro dele. “Ele sumiu para todos. Com a morte dele, chorei muito, sofri muito.”

Foto: Divulgação