Memória 05/07/2019 20h47 Atualizado às 13h30

Santa-cruzense conta como foi experiência em Tchernóbil

Engenheiro Aidir Parizzi Júnior fez a visita ao local em agosto do ano passado

26 de abril de 1986. Em um desastrado teste de segurança do recém-inaugurado reator 4 da Usina Nuclear de Tchernóbil, o engenheiro nuclear Alex Pekabov aciona o botão de parada de emergência do reator (botão AZ-5). A combinação de uma falha de projeto do feixe de barras e da imprudência da equipe da sala de controle causa o início de uma reação descontrolada, não somente na fissão nuclear do feixe de barras de urânio e grafite, mas também na estrutura ultrassecreta da União Soviética.

A explosão de Tchernóbil é considerada um dos principais catalisadores da transparência política (Perestroika) e econômica (Glasnost) que se iniciou no governo do secretário Mikhail Gorbachev. O desastre acabou acelerando a inevitável dissolução da União Soviética e a queda da cortina de ferro do comunismo, antes mesmo do final daquela década. A tentativa do Kremlin de acobertar os efeitos do maior acidente nuclear da história foi frustrada por detectores suecos, que imediatamente alertaram a comunidade mundial.

Exatamente sete anos depois do acidente, no período em que morei em Moscou, entrei pela primeira vez no Kremlin, já em uma Rússia em transição do duro regime comunista para uma eterna indefinição de democracia. Democracia que este povo eslavo jamais teve, e que até hoje está longe de ser consolidada.

18 de agosto de 2018. Trinta e dois anos depois da maior catástrofe nuclear que o mundo já viu, embarco em uma pequena van nos arredores da Estação Ferroviária Central Voksalna, em Kiev. O destino é a zona de exclusão de Tchernóbil, próxima à fronteira com a Bielorrússia. Visitas como essa não estavam autorizadas até 2011 e exigem certa burocracia, e alguns procedimentos. Após cerca de duas horas de viagem, passo por vários checkpoints, onde documentação, registros e a aceitação de risco são formalizados.

Próximo à entrada da zona de exclusão, há um gigantesco radar soviético desativado. Uma secreta parede de antenas tinha o objetivo de interceptar comunicações e lançamentos de mísseis norte-americanos, que em 40 minutos atingiriam o território da URSS. Uma interceptação bem-sucedida daria aos soviéticos um aviso prévio para uma reação e possível contra-ataque. O sistema de processamento de sinais do radar Duga-1 deveria processar os sinais em até oito minutos. Restariam em torno de 32 minutos para avisar o Kremlin e detonar uma hecatombe nuclear entre as duas grandes potências da guerra fria.

Em Duga-1, parece que finalmente entendi um “jogo etílico” que testemunhei algumas vezes na Rússia, e que pode ter sido iniciado pelos militares de lá: o jogo dos 32 minutos. Por esse curto período, uma garrafa de vodca é consumida em intervalos regulares, garantindo que se fique embriagado o mais rapidamente possível. Era essa a principal preparação para o ataque iminente…

O bilionário radar nunca funcionou como previam os camaradas do Kremlin. Foi descontaminado após o acidente em Tchernóbil, e finalmente de todo desativado em 1989.

Quem é Aidir Parizzi Júnior

“Nasci no Hospital Ana Nery, em Santa Cruz do Sul, em uma noite fria, em 5 de julho de 1971. Ex-aluno do Colégio Marista São Luís, sou engenheiro mecânico e mestre em Engenharia pela Ufrgs. A ênfase em Engenharia de Reatores foi inspirada no período em que estudei e trabalhei na Universidade Técnica de Moscou, em 1993. Morei na Dinamarca, na Rússia, na Alemanha, nos Estados Unidos por 12 anos, e há dez anos estou no Reino Unido (oito na Escócia e dois na Inglaterra). Minha esposa Carolina também é santa-cruzense, e nossos dois filhos, Andrew e Beatrice, nasceram na Escócia. Meu trabalho já me levou a uma centena de países por todos os cantos do planeta. Sou diretor global de suprimentos para a multinacional britânica IMI Group, que atua no fornecimento de sistemas de controle e segurança para usinas de geração de energia, usinas nucleares e para as indústrias de petróleo, gás natural e petroquímica. Em 2018 estive em Kiev e de lá fui até a Zona de Exclusão, no entorno da fatídica Usina Nuclear de Tchernóbil.”

Foto: Arquivo Pessoal

 

O Reator 4 da usina nuclear

Gerando em média 1.000 megawatts em cada um dos quatro reatores, e com um quinto reator em fase de construção, a usina nuclear de Tchernóbil era um dos orgulhos da Engenharia Nuclear Soviética. Com o nome oficial de Usina Vladimir Ilyich Lenin, esse orgulho tecnológico transformou-se em embaraço em abril de 1986. Uma das muitas medidas de emergência após o acidente ser detectado foi bloquear o fogo e a intensa fumaça. Fumaça que levava consigo, pelo vento, partículas altamente radioativas para longínquos pontos da União Soviética e de quase toda a Europa.

No início da manhã após o acidente, para conter a letal contaminação, helicópteros jogaram toneladas de areia, boro e chumbo sobre o reator. Ao mesmo tempo, soldados revezavam-se em turnos de 45 segundos para empurrar os escombros radiativos do telhado da turbina para o buraco provocado pela explosão. Com o fogo/plasma gerando mais de 3.000 graus Celsius, sendo gradualmente coberto por aquela cobertura vitrificada, o calor passou a derreter também o urânio radioativo, que acabou alojado nos porões do imenso prédio. Esse “objeto” de 1.200 toneladas está lá até hoje. Foi apelidado de pata de elefante, pelo seu formato. Considerado o objeto mais perigoso do mundo, é conhecido também como Medusa. Basta vê-lo ou estar próximo dele por alguns segundos para marcar um encontro com o além.

A chegada na usina impressiona. Por mais que fotos e filmes da época revelem a grandeza do desastre, nada se compara a estar ao lado do imenso arco de proteção de 100 metros de altura que hoje cobre as ruínas do reator. O Novo Confinamento de Segurança, como é chamado, foi construído por uma empresa francesa e substituiu o antigo “sarcófago” de concreto, que ameaçava ruir depois de 30 anos de uso. A previsão dos cientistas é de que a nova proteção dure cem anos, na esperança de que até lá se encontre uma solução para acalmar ou eliminar o gigante destruidor ali confinado.

Deixando de lado explicações e histórias do guia que me acompanhava, preferi me isolar um pouco e pensei no delicado equilíbrio entre tecnologia e progresso. Entre a necessidade energética galopante das últimas décadas, sua sustentabilidade e segurança. Refleti também sobre as muitas vidas ali perdidas e a forma heroica com que os primeiros bombeiros e soldados enfrentaram o problema que os levaria à morte certa.

Um dos funcionários da usina, morto por radiação aguda, permanece no sarcófago até hoje, dada a impossibilidade de resgatar o corpo. A doutrina soviética de coletividade acima de tudo e de sufocamento do ego certamente influenciou esses kamikazes do bem, heróis que possivelmente salvaram milhões de vidas, que teriam sido abreviadas pelo inimigo invisível ao longo de anos.

Foto: Arquivo PessoalRaposa, apelidada de Samanta, circula pelo local
Raposa, apelidada de Samanta, circula pelo local

 

Os destinos da vida na região de Pripyat

Como em um filme do estilo Blade Runner ou Black Mirror, esquadrões de “voluntários” soviéticos foram enviados à cidade de Pripyat logo após a evacuação da população. Sua missão: aniquilar qualquer ser vivo, domesticado ou selvagem. O principal alvo eram os cães e gatos que os habitantes foram obrigados a deixar em suas casas abandonadas. Esses homens faziam parte de um exército de 600 mil “Liquidantes” ou Exterminadores, contratados para limpar toda a área afetada dentro do raio menor (10 quilômetros) da zona de exclusão.

A maior cidade da área, Pripyat, fica a meros três quilômetros do reator 4. Entre os inúmeros problemas causados pelo acidente estava o fato de que a cidade inteira se preparava para a celebração do Primeiro de Maio, a maior festa popular da União Soviética, também celebrada em quase todo o mundo como o Dia do Trabalho. Refrigeradores e despensas estavam lotados de comida estocada para a festa, em grande parte perecível. Sem eletricidade, e com as temperaturas mais altas da primavera, tudo isso se deteriorou rapidamente, deixando a cidade fantasma infestada pela podridão.

Dezenas de helicópteros, que haviam apenas sobrevoado o reator exposto, pousavam na cidade para trazer trabalhadores e feridos. Onde quer que tenham tocado, deixaram material altamente contaminado. Sem saber o que estava acontecendo, crianças e adultos vinham ao encontro das máquinas voadoras na manhã após o acidente, antes da evacuação. Ainda hoje, e por muitos séculos, a cidade terá esses “pontos quentes”, emitindo centenas de microSieverts por hora de radiação.

O hospital de Pripyat é o local mais contaminado. Para lá eram levados os primeiros homens afetados pela radiação. Suas roupas eram removidas e levadas ao porão do prédio, onde estão até hoje, carregadas de isótopos radioativos. A expectativa é de que toda essa área só se torne habitável de forma saudável em 10 mil anos.

A natureza, de forma surpreendentemente acelerada, retoma aos poucos a cidade, que tinha 49 mil pessoas. Trinta e três anos mais tarde, temos uma floresta com esqueletos de prédios entre as árvores e os arbustos. Uma raposa, apelidada de Samanta, circula pela cidade, acostumada com a convivência com eventuais turistas, como eu.

Fiquei impressionado com a velocidade do crescimento de árvores de dezenas de metros de altura e da vegetação em geral, brotando do concreto e do asfalto que cobria as praças e avenidas de Prypiat. A ordem da evacuação, anunciada aos moradores como temporária (por dois ou três dias), só veio quase 24 horas depois do acidente, dando três horas de preparação para a população. Cerca de 1.300 ônibus levaram os assustados moradores, na sua maioria crianças, para longe de suas casas e de seus pertences, para nunca mais voltarem.

A manhã do dia 26 de abril de 1986 ainda teve três casamentos celebrados. A vida seguia normalmente para as famílias de trabalhadores da usina, até a ordem de evacuação. O número de filhos por casal em Pripyat, a maioria com três ou quatro crianças, estava bem acima da média soviética. Os motivos eram a melhor condição de vida e a infraestrutura  criada para os trabalhadores da usina nuclear.

Caminhando no absoluto silêncio das ruas e dos prédios abandonados, não me sinto como um turista, e sim como uma espécie de médico legista, dissecando esse cadáver de cidade. O silêncio parece amplificar o grito de crianças e a vida que outrora florescia.

Alguns letreiros sobre os prédios da cidade ainda são visíveis. Um deles diz: “Que o átomo seja um trabalhador, não um soldado”, exaltando a aplicação pacífica da energia nuclear. Outro, na parede de uma escola local, parece ter sido uma indesejada profecia, realizada literalmente naquele 26 de abril por isótopos de césio, iodo e estrôncio: “Deixe o átomo entrar em sua vida”.

Já no caminho de volta, passamos em alta velocidade pela Floresta Vermelha, nome justificado pela cor das árvores que ainda estão em pé, mortas pela radiação que o vento trazia naquela direção. A estrada que cruza a floresta não tem limite de velocidade. O dosímetro, detector de radiação que carrego no peito, mostra por quê. Passamos ainda pela cidade de Tchernóbil, que dava o nome à usina e hoje conta com população de duas centenas de militares, que policiam a área. Nos checkpoints de saída, os equipamentos detectores de radiação certificam que não estamos levando indesejados souvenires nos sapatos, nas roupas e nos veículos. Essa surreal área permanecerá como uma zona de exclusão, possivelmente por milhares de anos.

Foto: Arquivo PessoalPARA SABER MAIS sobre o tema, leia o livro Vozes de Tchernóbil, da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch (capa acima)
PARA SABER MAIS sobre o tema, leia o livro Vozes de Tchernóbil, da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch 
Foto: Arquivo PessoalImenso arco de proteção de 100 metros de altura hoje cobre as ruínas do reator 4, que explodiu em 1986
Imenso arco de proteção de 100 metros de altura hoje cobre as ruínas do reator 4, que explodiu em 1986